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O que fazer com as capivaras?

Por Jandira Maria Pedrollo (*) | 19/10/2021 13:30

As notícias sobre a circulação de capivaras em vias movimentadas de Cuiabá são corriqueiras. Após rápida pesquisa, constatei que o mesmo acontece em outras capitais, como Curitiba, Teresina, Campo Grande, Palmas e mesmo São Paulo.

Em Cuiabá, elas são vistas pastando nas Avenidas Érico Preza (em frente ao parque Tia Nair) e Dr. Hélio Ribeiro (saída do Parque das Águas), no Parque Zé Bolo Flor (Região do Coxipó) e na Orla do Porto. Há relatos delas nas matas ciliares dos córregos de condomínios residenciais.

Porém, em vários deles, já não estão mais conseguindo circular porque os “tubulões” existentes para dar vazão aos córregos foram telados. Tanto Cuiabá, quanto Várzea Grande, possuem vasta rede hídrica, por isso não é de estranhar a existência das capivaras nas duas cidades.

Seus habitats são os corpos de águas permanentes, entre eles rios, lagoas e pântanos, próximos a regiões onde há alimentos em abundância: capins, ervas e plantas aquáticas. Com elevada fertilidade, as capivaras podem ter 2 gestações anuais com 4 crias em cada.

Entre os predadores naturais estão onças, jaguatiricas, cobras, jacarés e cachorros-do-mato. Mas, confinadas em espaços pequenos, esses predadores são muito difíceis de serem encontrados. Nessas regiões urbanas, restaram alguns poucos jacarés e raras cobras.

As reclamações mais recentes quanto à permanência das capivaras nos parques se dão principalmente em razão de maus-tratos sofridos. Os animais se proliferam rapidamente, a comida fica escassa, então, procuram se fartar em locais como os canteiros centrais de avenidas e matas ciliares.

O problema é que ao circular pelas áreas comuns das cidades, estão expostos a inúmeros riscos. Nesta semana, por exemplo, dois animais foram encontrados mortos por atropelamento, um deles em trabalho de parto, no Jardim das Américas, em uma avenida movimentada.

Mas, por que só agora isso é um problema? Com a ocupação urbana excessiva, áreas com as características adequadas ao seu abrigo (matas ciliares, várzeas, pântanos e lagoas) têm sido escolhidas para implantação de parques urbanos.

Com o passar dos anos, tenho a ciência de que as matas ciliares e os parques públicos devem compor uma grande rede integrada de vegetação sem obstáculos e com a livre circulação da fauna.

Em caso de travessias, devem ser construídas passarelas subterrâneas para que os animais possam transpor as pistas. Ainda há tempo, temos matas ciliares e áreas vazias que permitem tal desenho urbano.

Sobre as capivaras circulantes, fala-se na possível transferência para o Pantanal, no entanto, entendo como necessária a composição de equipe multidisciplinar de profissionais habilitados ao assunto, pois novos problemas podem ser criados com a transferência, inclusive a “não aceitação” de grupos diferentes pelos que lá estão instalados, além da crise hídrica atual.

Então o que fazer? Controle da natalidade? Maior rigidez no controle dos portões dos parques? Tratar das áreas verdes com plantas que suprem os animais de alimentos? Diante de tantos questionamentos, precisamos de vários profissionais envolvidos na solução: veterinários, biólogos, engenheiros das diversas modalidades e inclusive arquitetos e urbanistas.

Observem que a implantação de um parque não depende só de um bom projeto, é necessário o estudo inclusive do entorno das áreas e, quiçá, de estudo de impacto de vizinhança para prever os impactos que causarão e implantar as medidas necessárias para a mitigação desses impactos.

(*) Jandira Maria Pedrollo é arquiteta e urbanista, membro da Academia de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (AAU/MT).

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