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O sábio e o tolo

Por Enrique Argañaraz (*) | 16/06/2021 08:30

O que é sabedoria? Como alcançá-la? Porque é tão importante cultivar a sabedoria? Essas questões acompanham o ser humano desde os primórdios da humanidade e é o principal objeto de estudo da filosofia (filo: amor; sofia: sabedoria). De fato, quando procuramos uma definição de sabedoria, esta aparece meio vaga, nebulosa e fica difícil chegar a uma definição clara. Por isso vamos começar por identificar o que não é sabedoria. Sabedoria não é conhecimento, inteligência, nem um alto QI. De fato, um curso superior ou pós-graduação não garantem, nem são um passaporte para a sabedoria.

Sabedoria não significa não cometer erros, mas sim “aprender” muito profundamente com o sofrimento que eles trazem, identificando as verdadeiras causas para não os repetir. Essa capacidade de discriminação apurada dos mais diversos acontecimentos capacita a tomada de boas e sábias decisões.

A visão holística, não restrita, inerente à sabedoria leva ao reconhecimento das complexidades e sutilezas das diferentes situações e a percepção de que “existem mais cinzas do que pretos e brancos”. Frequentemente as circunstâncias, das mais simples até as mais complexas, não são o que parecem à primeira vista, e, consequentemente, requerem uma visão contra intuitiva, por exemplo, a resposta "não sei”, dita por uma pessoa sábia, embora demonstre ignorância, é um claro sinal de sabedoria.

Uma mente sábia é objetiva, neutra e imparcial, o que lhe permite perceber através dos preconceitos e refletir à luz de sua própria natureza, tornando-se consciente de que esses vieses distorcem a realidade.

Então o que é um individuo com sabedoria? É alguém que prioriza valores, sem ser dogmático, em detrimento da busca por segurança e prazer e da tentativa de fazer a vida mais fácil ou confortável, o que o diferencia da grande maioria, que se guia por desejos e aversões, raízes do sofrimento humano.

Os indivíduos com sabedoria exibem uma “humildade existencial epistêmica” surgida de uma interação profunda e verdadeira com a vida. Cientes de suas limitações, sempre procuram conhecimento visando diminuir a possibilidade do autoengano e aprendem com os erros. Se expõem às experiências, com uma mente flexível e abertos a mudanças, sem ser manipuláveis.

Uma percepção aguçada e contra intuitiva da vida também é uma característica marcante deste tipo de indivíduo, que tolera paradoxos, sem ficar confuso ou paralisado, já que entende que a realidade é aparentemente contraditória.

Quanto mais sábia, mais consciente e livre de preconceitos a pessoa se torna, pois entende que frequentemente a vida não acompanha os pensamentos, julgamentos e desejos pessoais.

Indivíduos sábios não têm problemas em dizer “não sei”, não julgam a si nem os outros por isso, capacidade esta que pode levar toda a vida para ser desenvolvida. Assumem suas responsabilidades e não culpam os outros pelas próprias inadequações, problemas ou sofrimentos, fazendo o que tem que ser feito, sem serem tomados pelas emoções. Em outras palavras, possuem uma elevada inteligência emocional.

Finalmente as pessoas com sabedoria são curiosas de si mesmas, determinadas, solidárias, altruístas, humildes e valorizam a solidão e o silêncio.

Você deve estar se perguntando Sabedoria é sinônimo de perfeição? Certamente não! Indivíduos sábios também cometem erros, a diferença fundamental é que os reconhecem e corrigem sem pestanejar.

Agora estamos em condições de definir o contrário de sabedoria, que poderíamos chamar de tolice.

Tolice é ter uma escala de prioridades inadequada, colocando valores banais, tais como a busca por satisfação, prazer, poder e riqueza, acima de valores superiores, que leva a realizar julgamentos incorretos e escolhas erradas uma e outra vez, não aprendendo com as experiências. A tolice também se manifesta na forma de orgulho e arrogância e na incapacidade de desculpar-se genuinamente.

O tolo geralmente se perde em minúcias, mesquinharias, como um hamster numa gaiola correndo numa roda, atrás de todo tipo de banalidades. A autorreflexão, introspecção e contemplação não fazem o menor sentido para um tolo, porque ele não pensa existencial e profundamente sobre vida, subestimando os dilemas existenciais, não vendo nada além de si mesmo, completamente embrulhado em seu conteúdo egoísta e mesquinho.

Tolos podem ser agressivos para tentar provar que são inteligentes, que entendem de tudo e que são mais espertos que o resto das pessoas. Geralmente o tolo tem opiniões fortes sobre assuntos sobre os quais nada sabe, citando Jackson Brown “Não há pior ignorância que rejeitar algo sobre o qual nada se sabe”. Como pensam que sabem tudo, não valorizam o conhecimento e tem preguiça de fazer o trabalho intelectual de entender, se questionar e consequentemente buscam atalhos, para tornar a vida mais confortável, mais fácil. Não buscam a verdade, porque a verdade lhes traz desconforto, em vez disso a substituem por preconceitos, crenças e dogmas pessoais, o que os afasta do equilíbrio, já que este requer flexibilidade mental, característica que certamente não possuem.

Os tolos são tribais e podem evitar indivíduos com sabedoria, por se sentirem inseguros, preferindo a companhia de outros tolos, assim podem ter conversas superficiais, banais, sem aprofundamento evitando avaliar seus preconceitos, crenças e dogmas. Seguem suas culturas, orientações políticas e religiosas cegamente, sem pensar, o que pode conduzi-los à violência e dor.

Finalmente poderíamos nos perguntar: É possível desenvolver, adquirir, acessar a sabedoria? Antes de abordar esta questão, é importante esclarecer que independentemente dos caminhos, as respostas devem ser procuradas e encontradas apenas no interior de cada individuo. Existem várias formas, não excludentes, de encontrar e cultivar a sabedoria, porém não é uma tarefa fácil e pode levar tempo. O caminho mais comum é por meio da análise do sofrimento, produto dos erros, experiências mal sucedidas, ou seja, pelo “sofrimento consciente”. Neste processo, são determinantes a introspecção, autoinvestigação, contemplação, acompanhadas de uma análise profunda das mais diversas circunstâncias que a vida apresenta, das mais óbvias até as mais complexas, questionando-se as respostas prontas e imediatas que possam surgir da mente condicionada. Cultivar momentos de solidão potencializa este processo de aprendizado.

A auto-observação e reflexão sobre as consequências das ações, seguidas de perguntas relevantes e contemplação, permitem estudar profundamente a própria psicologia, e identificar os truques da mente.

De fato, é necessário aplicar uma visão contraintuitiva para não ser enganado pelas aparências e interpretações mentais feitas a partir dos estímulos sensoriais e assim parar de perseguir objetos de satisfação e prazer. Compreender que a busca desenfreada por prazer, poder e bens materiais inexoravelmente conduz ao sofrimento, leva ao entendimento da necessidade de viver em um “primoroso e delicado equilíbrio”.

A sabedoria é uma força criativa que se cultiva, mas paradoxalmente ela está e sempre esteve presente dentro de cada indivíduo. Assim, para um individuo adquirir sabedoria, deve acessar o mais íntimo se seu ser, já que ela faz parte de nossa verdadeira natureza.

Você deve estar se perguntando qual é a relação entre autoconhecimento e sabedoria. Sabedoria é inerente à consciência, o que realmente somos, pura consciência, a fonte da sabedoria mais elevada.

Uma forma de acessar você – consciência – é entrar em contato com a verdadeira realidade, não condicionada, indivisível, perfeita, que permeia toda a existência, inclusive você. Só no estado desperto – consciente – toda e qualquer ação é permeada por uma profunda sabedoria, altruísmo, não julgamento, abnegação e infinito amor.

(*)  Enrique Argañaraz é professor do Departamento de Farmácia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília.

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