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Campo Grande, Segunda-feira, 22 de Julho de 2019

19/06/2019 15:56

Para a pessoa que bateu no táxi

Por Ana Maria Assis*

Você tem uma história. Meu pai também.

Sua profissão é muito valorizada na sociedade.

Mas o meu pai teve tantas profissões, que somadas ou não, pra mim vale tanto quanto.

Serviços gerais, vendedor, descarregou malas no aeroporto, malotes nos correios. Criado na roça, foi de tudo na vida. E, por último, é taxista.

Meu pai morava com minha avó, que era analfabeta e vivia numa casa de madeira de três cômodos. Minha avó trabalhava fazendo a merenda da minha escola. Escola pública que meu pai também estudou. Não imagina a riqueza de valores que norteiam a nossa educação.

Um irmão do meu pai formou em Direito, o único dos irmãos que teve ensino superior. Meu pai ajudava. Esse irmão era unha e carne com meu pai depois de formado. Meu pai tinha orgulho dele. Esse irmão do meu pai morreu num Natal, mas eu nem tinha nascido ainda.

Quando eu nasci, nasci praticamente falando. Contando histórias como essa aos 3 ou 4 anos de idade.

Meu pai queria que eu fosse advogada, embora não exigisse isso de mim.

Mas fiz jornalismo primeiro. Ganhava bolsa na faculdade fazendo teatro. Acordava 4h30 pra pegar o primeiro ônibus que passava no bairro.

Terminei a graduação, fui repórter e vi muita injustiça com pessoas de origem humilde, como as pessoas da minha família.

Quem tem “nome” e dinheiro, tem vantagem. Sempre e em tudo.

Então, fiz direito.

Depois de formada, durante cinco anos trabalhei em órgão público atendendo pessoas pobres.

Mais uma vez, os pequenos e grandes problemas da desigualdade social ali, bem na minha cara.

Esse ano, resolvi que iria me inscrever na “Ordem” e advogar.

No dia 11 de junho falei pro meu pai. Ele foi a única pessoa que convidei para estar comigo no juramento. Porque eu sabia que só para ele era importante.

Ele estava trabalhando e o plano era me buscar em casa pra irmos juntos, e depois ele voltaria ao trabalho.

Por isso, estava no táxi.

O meu juramento estava marcado para 9h.

Você bateu no carro dele antes disso.

Aquele carro que meu pai ainda paga o financiamento.

Que ele cuida feito a alma dele, porque o táxi tem vários critérios pra funcionar. E o dele estava funcionando todos os dias.

Aquele carro que ele ficou tão feliz em colocar pra trabalhar em ponto próprio, depois de conseguir um ponto na licitação da prefeitura após anos de tentativas.

Você, com seu carro chique, sua profissão valorizada. Sua vida economicamente estabilizada. Dormiu (segundo falou na hora do acidente).

Danificou a ferramenta de trabalho do meu pai, que tem 65 anos e que começou a trabalhar ainda na infância.

Pra você, não foi nada.

Você tem seguro. Você estava calma. Você não terá grandes prejuízos. O seu belo carro estará pronto.

Eu vi meu pai chorando, olhando aquele carro e perdido naquele momento. Claro que meu juramento na Ordem ficou pra outra hora e eu permaneci ali.

Há 7 dias o meu pai não recebe o que estava recebendo diariamente no táxi.

O carro está no conserto, mas ele está sem trabalhar.

Primeiro, a resposta do seguro foi que não cobria “lucros cessantes” (esses prejuízos por interrupção de serviço).

Depois da minha insistência, ligaram dizendo que até pagariam, mas depois que saísse do conserto.

O táxi, por si só, já enfrenta uma crise que se prolonga desde o ano passado.

Meu pai nunca provocou um acidente sequer em décadas de profissão.

Ele luta pra permanecer no negócio, porque ele gosta de ser taxista.

Apesar da remuneração, apesar da violência, e apesar de acontecimentos como o que você provocou.

Eu imagino como ao longo da sua história você deve ter enfrentado diversos tipos de dificuldade.

E eu tenho certeza que pessoas como eu e meu pai, jamais te deixaríamos desamparadas se tivesse algo ao nosso alcance que pudéssemos fazer depois de ter prejudicado você.

Não acho justa a resposta do seu seguro.

Quero que meu pai saia ileso, quero que ele receba essas diárias que se passaram enquanto o carro não sai do conserto.

Até por não termos a previsão de quando o carro ficará pronto.

Essa carta é para a pessoa que bateu no carro do meu pai e que tem condições de arcar com o prejuízo, mas prefere ficar inerte.

Mas também é pro cara que atropelou meu irmão em 2009, quando ele era entregador de pizzas, e não socorreu.

E pra outras inúmeras pessoas que saem por aí fazendo besteiras e não se comprometem, não se responsabilizam verdadeiramente pelos seus atos. E cobram do governo menos corrupção.

Todas as pessoas que vocês prejudicam têm história. Todas essas pessoas têm família.

E não existem pessoas mais ou menos boas.

Ou você é bom e arca com as suas responsabilidades com empatia e humanidade.

Ou você não é nada de bom que podem dizer a seu respeito.

*Ana Maria Assis de Oliveira, jornalista, advogada e filha do taxista.

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