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Por que não devemos continuar a ignorar a perda do Cerrado

Por Mercedes Bustamante (*) | 12/01/2022 13:30

No ano do bicentenário da independência do Brasil, vale revisar os relatos das viagens do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire pelo interior do Brasil, entre 1816 e 1822, descrevendo não somente a natureza mas também muitos aspectos da sociedade brasileira à época. Em suas considerações sobre as transformações de nossas paisagens naturais, ele observou a ação humana reduzindo a diversidade de plantas com a perda de seus benefícios econômicos - árvores preciosas derrubadas “inutilmente sob o machado do agricultor imprevidente”, contribuindo com a extinção “de milhares de espécies úteis para as artes e a medicina”, em associação às queimadas. Saint-Hilaire lamentou a agricultura predatória e “sem inteligência” e a perda da vegetação nativa antes mesmo suas espécies pudessem ser catalogadas e estudadas.

Um leitor desatento poderia, tranquilamente, situar tal descrição no Brasil de hoje. Com a diferença que hoje podemos acrescentar o conhecimento sobre os impactos negativos do desmatamento nas mudanças climáticas e na oferta de serviços ecossistêmicos, como produção e conservação de água, polinização, controle de pragas agrícolas e de novas pandemias.

Nos últimos dias, houve a divulgação quase escondida (em 31 de dezembro!) dos dados oficiais do desmatamento do Cerrado em 2021. Os números Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam novo crescimento do desmatamento e a perda de 8.531,44 km2, pressionando ainda mais o bioma que já perdeu quase 50% de sua vegetação nativa. Uma semana depois, em 6 de janeiro, o INPE informou que o monitoramento do Cerrado será mantido somente até abril desse ano por falta de verba. Os recursos usados na estruturação do PRODES Cerrado eram de um programa internacional e foram captados com o compromisso do Brasil de, posteriormente, garantir a manutenção do monitoramento.

Recém-saídos da COP26, na qual o Brasil se comprometeu com o fim do desmatamento, continuamos com as atividades predatórias e sem inteligência, tal como descritas por Saint Hilaire há 200 anos e, o que é pior, a partir de abril, estaremos oficialmente às cegas neste cenário de destruição. Mas, outra notícia recente, sobre a solicitação de investigações por parte de parlamentares dos Estados Unidos e da Europa contra a empresa JBS por possíveis relações com o desmatamento no Brasil, nos lembra que o que deixamos de ver aqui, continuará a ser visto pelo resto do mundo.

No Cerrado, as seguranças alimentar, energética e hídrica do país estão intrinsicamente conectadas e são dependentes da conservação da vegetação nativa em larga escala. A agricultura no Cerrado segue o ritmo da sazonalidade da precipitação, mas as projeções mais recentes de mudanças do clima apontam para a redução da precipitação e a extensão do período seco. A adoção de práticas de irrigação tem crescido persistentemente desde os anos 1970. Porém, o desmatamento em escala regional altera o ciclo hidrológico no Cerrado e, em conjunto com a variabilidade climática, podem limitar tais práticas.

No Brasil, 65% da matriz elétrica é de fonte hídrica. O mapeamento das unidades de aproveitamento hidrelétrico da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) indica que as unidades presentes dentro dos limites do Cerrado e as unidades externas que se encontram em bacias fortemente influenciadas pelo bioma representam 52% de todas as unidades do país. Em meio à maior crise hídrica em 90 anos, lembramos que a Bacia do Paraná, que contribui com a usina hidrelétrica da Itaipu, recebe 47% de suas águas do Cerrado.

As projeções de aumento do consumo de energia e da demanda mundial por produtos agrícolas e a manutenção do atual modelo de expansão e intensificação da agricultura em um contexto de mudanças na temperatura e na precipitação regional tendem a agravar a degradação do Cerrado e a perda de biodiversidade, comprometer o seu funcionamento ecológico e impactar ainda mais grupos sociais já vulneráveis, como povos indígenas e populações tradicionais.

Longe dos olhos e do interesse dos setores econômicos e do governos por sua conservação, a perda da savana mais biodiversa do mundo, com expressivos estoques de carbono, responsável por significativa produção de água e energia para todo o país, traz um alto custo com graves repercussões por longo tempo. No entanto, da mesma forma que a Ciência nos revela os problemas, ela também é capaz de oferecer soluções que vão desde estratégias adequadas de restauração, planejamento e gestão de paisagens diversificadas e multifuncionais até o desenvolvimento de novos modelos de agricultura que preconizem a conservação e reabilitação dos sistemas alimentares e agrícolas. Alternativas existem. Faltam visão estratégica, responsabilidade e vontade política.

(*) Mercedes Bustamante é professora titular da Universidade de Brasília.

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