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Campo Grande, Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019

26/05/2019 08:11

Quando um filho nasce, você nunca mais deixa de olhar pelo retrovisor

Por Tiago Ravanello*

Era anos 80. Lembro vivamente do caminho de casa para o mercado: entrávamos na avenida Nossa Senhora das Dores e seguíamos quase em linha reta pela avenida Medianeira, um tapete de asfalto recém terminado, até o antigo Trevicenter. Lembro pouco do mercado, não tinha muito interesse nele, mas recordo muito bem que brincava no banco de trás do Corcel amarelo, que deslizava suave e sempre em frente.

Além do brinquedo, também ansiava em chegar naquela banca de metal, que mais parecia um poleiro futurista que havia trocado as galinhas por revistas, a repousar oblíqua entre o estacionamento e a entrada. Milhares de histórias em quadrinhos e eu poderia escolher uma.Era necessário então método, paciência, critérios a serem pensados com calma para que a escolha estivesse de acordo entre o orçamento apertado e o vasto desejo por letras e imagens, a arte que me cabia então.

Pensava  nisso durante o caminho, e somente nisso. As preocupações do cotidiano, as responsabilidades familiares, as contas a serem pagas e o preço de se viver num país despedaçado ficavam no banco da frente. Meu pai costumava dirigir, minha mãe ao lado. Ambos olhavam simultaneamente para frente e pelo espelho retrovisor.

Hoje sou eu quem ocupa um dos bancos da frente, enquanto minha filha brinca, canta e inventa mundos no banco de trás. As ruas parecem mais esburacadas, os caminhos já não parecem tão retos.

A Santa Maria dos anos 80 ficou para trás, espero com cuidado para entrar na Afonso Pena, tenho medo das caminhonetes em alta velocidade, penso se já não está na hora de trocar os pneus e me preocupo se a temperatura do ar condicionado não está muito baixa para ela (já nem sei mais o que faria para evitar a sua tosse, que às vezes interrompe o sono dela, mas sempre tira o nosso). Ela é tão nova, tão pequena, mas deve sonhar com coisas maiores e melhores do que gibis, ou não, não tenho certeza. Só sei que olho para frente e pelo espelho retrovisor.

* Tiago Ravanello é psicólogo graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004), com mestrado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) e doutorado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009)

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