Me deixe ficar triste
Existe uma pressa estranha no mundo moderno: a pressa de parecer bem.
Como se a tristeza fosse uma falha de caráter,
como se olhos marejados fossem sinal de derrota,
como se sentir fosse sinônimo de fraqueza.
Mas a tristeza não é depressão.
E, principalmente, tristeza não é fracasso.
A tristeza é um idioma antigo da alma.
É o corpo dizendo: algo importa.
É o coração sinalizando: algo foi perdido, quebrado, mudado ou compreendido tarde
demais.
A depressão é aprisionamento.
A tristeza é travessia.
A depressão paralisa, esvazia, apaga cores e sentidos.
A tristeza, quando vivida, quando respeitada, quando não é sufocada à força,
é movimento — lento, doloroso, mas ainda assim movimento.
Tristeza é maré baixa.
É inverno emocional.
É campo depois da colheita — aparentemente vazio,
mas cheio de sementes invisíveis esperando a estação certa.
Há uma violência silenciosa em exigir felicidade constante.
Como se fôssemos máquinas programadas para produzir sorrisos.
Como se dias nublados fossem erros no sistema.
Mas não são.
Quem nunca se permite entristecer
acaba carregando dores que não tiveram funeral.
dor sem ritual vira peso crônico.Sentir tristeza é uma forma de respeito consigo mesmo.
É dizer:
— Isso me afetou.
— Isso foi importante.
— Isso deixou marca.
E marcas contam histórias.
E histórias constroem pessoas.
A tristeza é uma pausa obrigatória que a alma pede.
Ela diminui o ritmo para que possamos reorganizar o que fomos,
o que somos,
e o que ainda temos coragem de ser.
Nos dias tristes, o mundo parece mais lento.
E talvez ele esteja mesmo.
Ou talvez, pela primeira vez, estejamos olhando sem distrações.
A tristeza afia a percepção.
Mostra quem ficou.
Mostra quem partiu.
Mostra o que era real e o que era só barulho.
Ela desmonta ilusões — e isso dói.
Mas também constrói lucidez — e isso liberta.
Existe uma força silenciosa em quem consegue dizer:
“Hoje eu não estou bem.
”
Sem maquiagem emocional.
Sem frases motivacionais forçadas.
Sem tentar transformar dor em produtividade.
Porque cura não nasce da negação.Cura nasce da permissão.
Permitir-se sentir tristeza é como permitir que uma ferida respire.
Cobrir demais infecciona.
Expor ao ar, mesmo ardendo, cicatriza.
Tristeza também é amor que não encontrou para onde ir.
É expectativa que não virou realidade.
É memória que ainda pulsa.
É despedida que ainda ecoa.
E sentir isso não diminui ninguém.
Pelo contrário.
Só sente profundamente quem vive profundamente.
Só entristece quem se permite importar.
Só sofre quem teve coragem de se envolver com a vida de verdade.
Indiferença não dói.
Mas também não transforma.
Existe um momento — silencioso, quase imperceptível —
em que a tristeza começa a mudar de textura.
Ela deixa de ser tempestade
e vira chuva fina.
Depois vira neblina.
Depois vira memória.
Depois vira aprendizado.
E, um dia, vira força.
Não aquela força barulhenta de quem nunca caiu.
Mas a força sólida de quem já esteve no chão
e descobriu que ainda existia depois.Tristeza bem vivida amadurece.
Ensina limites.
Ensina escolhas.
Ensina que nem tudo que acaba é fracasso.
Ensina que às vezes perder também é se reencontrar.
Ela ensina que sentir não é o oposto de ser forte.
Sentir é o caminho para se tornar forte de verdade.
Então sim —
às vezes precisamos que o mundo nos deixe ficar tristes.
Sem pressa.
Sem culpa.
Sem alguém dizendo “vai passar” antes de termos vivido o que precisa ser vivido.
Porque vai passar.
Mas não porque fingimos que não existia.
Vai passar porque atravessamos.
E quem atravessa tristeza com honestidade
não sai igual.
Sai mais inteiro.
Mais lúcido.
Mais seletivo.
Mais humano.
E, paradoxalmente,
mais capaz de sentir alegria de verdade quando ela volta.
Então, se hoje a tristeza sentou ao seu lado,
não a expulse imediatamente.
Pergunte o que ela veio ensinar.Deixe que ela fique o tempo necessário — não para morar,
mas para cumprir seu papel.
Porque tristeza não é o fim da luz.
É só o momento em que aprendemos a reconhecê-la
mesmo quando ela parece distante.
E isso… Isso é uma profunda causa.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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