ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, TERÇA  21    CAMPO GRANDE 24º

Artigos

Quem decide quanto vale o trabalho

Por Erik Chiconelli Gomes (*) | 21/07/2026 08:20

Um trabalhador que recebe o salário mínimo no Brasil ganha hoje R$ 1.621. Para sustentar uma família de quatro pessoas com alimentação, moradia, saúde, educação e transporte, o Dieese calculou que esse piso precisaria ser de R$ 7.999 em maio de 2026, quase cinco vezes mais. A distância entre o que se paga e o que custa viver não é acidente de mercado. É resultado de decisões sobre quanto vale o trabalho, quem fixa esse valor e quem fica com a diferença entre o que se produz e o que se recebe.

Essa é a pergunta que organiza o debate sobre desigualdade no Brasil e no mundo. E a resposta tem uma consequência incômoda para quem trata o problema apenas como questão de renda. A desigualdade não se reduz só com transferência de dinheiro. Ela depende de levar a democracia para dentro do terreno que hoje fica fora dela, o terreno da propriedade dos meios de produzir, da jornada de trabalho, do financiamento público, da tributação da riqueza e da forma concreta como o trabalho é organizado. Enquanto essas decisões continuarem sendo privadas, o voto e os direitos formais conviverão com uma economia que ninguém elegeu.

Os dados recentes mostram um país que melhorou na base e quase não mudou no topo. Segundo o IBGE, a pobreza caiu de 27,3% da população em 2023 para 23,1% em 2024, e o índice de Gini, que mede a concentração de renda, chegou a 0,504, o menor da série iniciada em 2012. O avanço depende em boa medida das políticas públicas. Sem os programas sociais, ainda segundo o IBGE, a pobreza de 2024 subiria de 23,1% para 28,7% e o Gini iria a 0,542. O aquecimento do mercado de trabalho ajudou, mas a queda continua frágil, porque se apoia em boa parte sobre transferências que podem ser cortadas a qualquer momento.

No alto da pirâmide, a concentração no topo segue quase intacta. O World Inequality Lab estima que os 10% mais ricos capturam perto de 60% da renda nacional brasileira, medida antes de impostos, o que mantém o País na faixa de maior concentração de renda do mundo. Reduzir a pobreza na base não tocou a estrutura de apropriação no topo. São dois movimentos paralelos que não se encontram. Um pouco mais de renda para os mais pobres, nenhuma alteração no controle sobre o grosso da riqueza produzida.

O núcleo do problema está no trabalho. A informalidade atingiu 38,1% dos ocupados em 2025, segundo a PNAD Contínua. E a forma mais nova de precariedade chega comandada por algoritmo. O IBGE contou 1,7 milhão de pessoas que tinham aplicativos como trabalho principal em 2024, com informalidade de 71,1% nesse grupo. Entre os motoristas, 91,2% disseram que o preço da corrida é definido pela plataforma, e cerca de 30% relataram ameaça de bloqueio. Quem manda no salário, na jornada e na permanência é a empresa. O que falta são os direitos que costumam acompanhar essa subordinação.

A desigualdade também tem cor e gênero definidos. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a 46,5% do dos homens brancos, proporção que praticamente não se move há anos, segundo levantamento divulgado pelo Ceert com base na PNAD Contínua. A lei tentou responder. A Lei 14.611, de 2023, obriga empresas com mais de 100 empregados a divulgar relatórios de transparência salarial e a igualar a remuneração de homens e mulheres em funções equivalentes. Em 14 de maio de 2026, o STF confirmou por unanimidade a constitucionalidade da norma, no julgamento das ADIs 7.612 e 7.631 e da ADC 92, com relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Mas a lei atua sobre disparidades que nascem antes, na divisão do trabalho e no acesso desigual aos postos formais.

Por que essas decisões escapam ao voto? Porque, no capitalismo moderno, poder político e poder econômico passaram a operar por vias distintas. A política foi para o Estado e para as urnas. O poder sobre a produção ficou na propriedade privada. Ellen Meiksins Wood mostrou que essa separação permitiu à democracia avançar no terreno dos direitos sem chegar à economia. O sufrágio universal conviveu com a propriedade intocada porque a deliberação coletiva foi confinada a um espaço apartado da fábrica e do escritório. Marx já havia indicado o ponto de partida quando mostrou que o capital não é uma coisa, mas uma relação entre quem possui os meios de produzir e quem precisa vender o próprio trabalho.

A história mostra que direitos vieram da pressão organizada, não do crescimento por si. A maior redução da jornada nos países ricos aconteceu entre meados do século 19 e o fim do século 20, quando sindicatos fortes converteram ganhos de produtividade em tempo livre e em salário. Beverly Silver descreveu como esse conflito se desloca no espaço, seguindo o capital que migra atrás de mão de obra mais barata. As três décadas do pós-guerra europeu combinaram pleno emprego e direitos, mas aquele pacto se sustentou sobre bases coloniais, energia barata e um padrão de consumo que o planeta não suporta reproduzir, o que impede transformá-lo em modelo para o século 21.

É nesse ponto que o debate brasileiro encontra a discussão global. Um relatório recente coordenado por Thomas Piketty no Laboratório Mundial das Desigualdades propõe enfrentar ao mesmo tempo a desigualdade e a crise climática. O argumento central é que descarbonizar a energia não basta. Sem comprimir a desigualdade, falta dinheiro para o investimento climático e falta apoio político das maiorias. Piketty trabalha com uma constatação que os números brasileiros confirmam. Quando o retorno da riqueza acumulada cresce mais rápido que a economia, a concentração aumenta sozinha, a menos que a política intervenha.

A proposta mais malcompreendida do relatório é a da chamada suficiência. Não se trata de empobrecer a população. Trata-se de mudar a composição do que se produz. A ideia, apresentada como projeção normativa e não como previsão, é reduzir a jornada de trabalho, limitar o consumo material de alta emissão nos estratos de maior renda e ampliar saúde, educação e cuidado, setores de baixa pegada ecológica e alto conteúdo humano. Para um país com informalidade alta e jornada longa nas plataformas, a distância entre essa hipótese e a realidade mede o tamanho do esforço necessário.

O relatório propõe ainda um imposto global sobre a riqueza, um fundo de justiça global e dividendos nacionais para clima, saúde e educação. A justificativa lembra que Estados podem emitir moeda. Mas essa capacidade não é igual para todos. Ela varia conforme a soberania monetária, o tamanho da dívida externa, a posição cambial e a hierarquia que coloca poucas moedas no centro do sistema financeiro internacional. Para países periféricos, emitir moeda sem lastro pode significar fuga de capital e pressão sobre o câmbio. A proposta não é solução pronta. Depende de tributar o topo, coordenar países e enfrentar uma arquitetura financeira global desenhada para favorecer o Norte.

Volta a pergunta do começo. Quem decide quanto vale o trabalho hoje decide sozinho, do lado de quem detém a propriedade e o controle sobre a produção. O trabalhador entra na conta como custo a comprimir, não como parte que delibera. Enquanto a fixação do salário, a duração da jornada e o destino do investimento ficarem fora do alcance coletivo, a igualdade política seguirá limitada pela desigualdade econômica, no Brasil e no mundo.

Reduzir desigualdade e enfrentar a crise climática exigem as mesmas decisões. Tributar a riqueza para financiar a maioria, encurtar a jornada para distribuir trabalho e tempo, sustentar serviços universais com dinheiro público e dar aos trabalhadores voz sobre o que se produz e como são medidas que nascem do mesmo princípio. Nenhuma delas é técnica. Todas são escolhas sobre quem manda. A transição ecológica só será justa se for também democrática, capaz de levar a deliberação até o lugar onde hoje se decide, sem consulta a ninguém, quanto vale o trabalho e para onde vai a riqueza que ele cria.

(*) Erik Chiconelli Gomes é pesquisador do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora, do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo)

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.