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Quem sobra quando ninguém está olhando

Por Gillianno Mazzetto (*) | 17/07/2026 08:10

Caro(a) conviva,

Há um medo que não confessamos nem a nós mesmos: o medo de nos olharmos no espelho em um dia comum, sem farda, sem agenda, sem ninguém esperando nada de nós, e não reconhecermos quem está do outro lado.

Machado de Assis já sabia disso. Em "O Espelho", ele conta a história de um jovem alferes da Guarda Nacional que, sozinho numa fazenda, descobre algo perturbador: sem a farda que lhe dava posto e função, sua própria imagem começa a esmaecer diante do espelho. Fardado, ele está inteiro. Despido do papel, ele é quase névoa, se esvai, se torna diáfano. Machado chama isso de teoria das duas almas, a exterior, que o mundo vê e reconhece, e a interior, que só existe quando ninguém está olhando. O drama do conto é que o rapaz descobre, aterrorizado, que sabe muito bem cultivar a primeira e quase nada da segunda.

Duzentos anos depois, trocamos a farda de alferes por outras fardas, mais discretas, mas igualmente absolutas. O crachá, a agenda lotada, o cargo, a notificação que pisca, o papel de quem resolve, de quem sustenta, de quem está sempre disponível para alguém. E se alguém nos perguntasse, num domingo à tarde, quem somos quando não estamos fazendo nada por ninguém, a resposta mais honesta talvez fosse um silêncio incômodo. Não porque sejamos vazios. Porque paramos de visitar esse endereço há muito tempo.

E aqui mora uma confusão que vale a pena desfazer: vazio não é a mesma coisa que nada. O nada é ausência, é buraco, é o que assusta porque não tem porta. O vazio, esse sim, é câmara, tem paredes, tem chão, tem a possibilidade de ser ocupado por algo que ainda não chegou. Uma sala vazia não é uma sala que não existe; é uma sala que espera. O problema não é o vazio. É que aprendemos, desde cedo, a temê-lo como se fosse nada, e por isso corremos para preenchê-lo com qualquer coisa, outra tarefa, outra tela, outro compromisso, antes que ele revele o que realmente contém.

Conheço e reconheço muitos alferes, por vezes, até em mim. Pessoas que medem o seu valor pela quantidade de coisas que conseguem entregar num dia, pela lista de tarefas que riscam, por ter pessoas que dependem delas para alguma resposta, que acham, sem dizer em voz alta, que parar é uma forma disfarçada de desaparecer. E, no fundo, talvez seja mesmo: parar de fazer, para quem só se conhece fazendo, é um pequeno ensaio de morte. Não é à toa que tememos tanto o silêncio de uma sala de espera, de uma viagem sem celular. Não é o silêncio que nos assusta. É o que ele pode revelar.

Ninguém nunca morreu de tédio. Mas muita gente morreu, em vida, aos poucos, tentando provar que não estava entediada. Enchemos a agenda não porque haja tanto a fazer, mas porque uma agenda cheia é a farda mais barata que existe: qualquer um pode vesti-la, e ela dispensa a pergunta incômoda de saber o que sobra quando ela é tirada.

Há uma saída, e ela não pede retiro no deserto nem semanas de silêncio monástico. Pede apenas pequenos espaços protegidos dentro do dia comum: os cinco minutos antes de abrir o primeiro e-mail, o trajeto até o carro feito sem podcast, o café tomado olhando pela janela em vez do celular. Chamo isso de silêncio profícuo, não o silêncio vazio de quem não tem nada a dizer, mas o silêncio fértil de quem finalmente deixa que algo interno se manifeste sem ser interrompido. É nesse espaço, e só nele, que a alma interior de Jacobina, a nossa, quero dizer, tem chance de aparecer no espelho.

Um exemplo simples: aquele minuto entre desligar uma ligação e abrir a próxima aba do computador. É tão curto que nem parece contar como tempo. E é exatamente por isso que sobrevive às invasões do dia, ninguém disputa um minuto que parece não valer nada. É ali, nesse instante desprezado, que a pergunta "quem sou eu agora, sem a ligação anterior e antes da próxima" tem uma chance mínima de ser ouvida, se você não a afogar imediatamente com a próxima tarefa.

Mas esse silêncio não se protege sozinho, e aqui está o ponto que mais subestimamos. Ele é frágil como o fogo sagrado que as antigas famílias guardavam em casa, aquele que não podia apagar porque, se apagasse, a própria identidade do lar se perdia junto. Ninguém tranca a porta de casa e deixa o fogo entregue ao vento; da mesma forma, ninguém deveria deixar seu único minuto de silêncio entregue à primeira notificação que passar. Proteger esse instante não é luxo contemplativo, é a única tarefa do dia que realmente garante que sobra alguém para fazer todas as outras.

A pergunta que fica, então, não é o que você faz. É: quem aparece no espelho quando a farda está pendurada no cabide e não há ninguém por perto para ver?

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.