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Sem demanda, a floresta não se sustenta

Por Alexandre Bossi e Ângelo Rabelo | 25/08/2026 10:10

O Brasil precisa proteger sua meta climática sem fechar a porta à demanda internacional. As decisões após a consulta pública sobre a regulamentação dos Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente, os ITMOs, colocam o Brasil diante de uma decisão que pode definir sua posição na economia global de baixo carbono.

O país avançou. Criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, ampliou o Fundo Clima e lançou o Eco Invest Brasil, combinando recursos públicos e privados para financiar a transformação ecológica. Mas o financiamento climático não se sustenta apenas com oferta de capital. É preciso haver demanda pelos ativos ambientais produzidos por esses investimentos.

Um projeto de conservação ou restauração pode receber financiamento a juros competitivos. Sem compradores para os créditos de carbono gerados, porém, continuará sem receita suficiente para remunerar e sustentar anos do projeto. Recurso barato ajuda a proteger e recuperar a floresta. É a demanda, porém, que permite mantê-la em pé durante décadas.

Esse ponto é especialmente relevante para o Brasil. Segundo o MapBiomas, 65% do território nacional ainda conserva cobertura de vegetação nativa. Nenhuma outra grande economia reúne, simultaneamente, essa dimensão territorial, biodiversidade e potencial de redução de emissões pela proteção dos ecossistemas.

Previstos no artigo 6º do Acordo de Paris, os ITMOs permitem que resultados de mitigação produzidos em um país sejam transferidos e utilizados por outro no cumprimento de sua meta climática. Para evitar dupla contagem, o vendedor realiza o chamado ajuste correspondente e deixa de contabilizar aquela redução em sua própria meta.

A cautela do governo brasileiro é legítima. O país não deve transferir reduções em volume que comprometa sua meta. Tampouco deve autorizar créditos sem adicionalidade, rastreabilidade, respeito aos direitos territoriais e salvaguardas socioambientais rigorosas.

Cautela, entretanto, não pode significar paralisia. A minuta submetida à consulta pública estabeleceu limite inicial de 50 milhões de toneladas de CO₂ equivalente entre 2031 e 2035. Um desenho excessivamente conservador ou tardio fará o Brasil perder o momento em que compradores internacionais estruturam contratos de longo prazo.

Os investimentos são decididos agora. Mercados regulados internacionais como o CORSIA, que entra em sua segunda fase já em 2027, devem ampliar significativamente a demanda por créditos de carbono nos próximos anos, superando 1 bilhão de toneladas entre 2027 e 2035, segundo a ICAO, em um cenário no qual a oferta de créditos elegíveis ainda é limitada.

Ao mesmo tempo, mecanismos bilaterais previstos no Artigo 6.2 do Acordo de Paris já começam a conectar países compradores e fornecedores que avançaram na estruturação dessas transferências.

Apesar de o Brasil ter potencial para ser o principal fornecedor global desses ativos, projetos florestais levam anos para ser estruturados e décadas para produzir resultados. Sem previsibilidade sobre a transferência internacional, o capital migrará para países com regras mais claras e tempestivas.

Não autorizar ITMOs não significa necessariamente preservar mais reduções para a meta brasileira. Em muitos casos, significa que os projetos nem sequer existirão. Uma tonelada que deixa de ser reduzida por falta de financiamento não ajuda nem a NDC brasileira nem o clima global.

Parte dos resultados autorizados pode ser verdadeiramente adicional: reduções que só acontecerão porque a demanda internacional viabilizou o investimento.

Essa lógica vale especialmente para as metodologias de REDD+, destinadas a reduzir emissões do desmatamento e da degradação florestal, conservar estoques de carbono e promover o manejo sustentável. Limitar excessivamente o REDD+ seria incoerente com um país que mantém 65% de sua vegetação nativa.

Projetos privados e programas jurisdicionais podem coexistir, desde que integrados por contabilidade transparente, prevenção da dupla contagem, consulta às populações afetadas e repartição justa dos benefícios.

Integridade não deve ser confundida com imobilidade. A resposta a projetos ruins é estabelecer critérios rigorosos, fiscalização e transparência, não inviabilizar os bons. E nisso o livre mercado também pode ajudar.

O Brasil deveria adotar uma estratégia gradual, mas imediatamente operacional: uma lista positiva que inclua REDD+ e outras soluções baseadas na natureza; limites revistos conforme o desempenho da NDC; autorizações previsíveis; reconhecimento de contratos de compra futura; e procedimentos capazes de competir com outras jurisdições.

O Fundo Clima e o Eco Invest representam avanço histórico na oferta de financiamento. Agora o Brasil precisa completar essa arquitetura criando demanda. Capital público pode reduzir riscos, mas não deve substituir indefinidamente o mercado privado.

Fechar a porta aos créditos brasileiros de alta integridade não protegerá necessariamente nossa soberania climática. Irá apenas deslocar investimentos para outros países e deixar nossas florestas sem financiamento.

Impedir ou limitar a exportação de ITMOs não seria prudência. Seria um tiro no pé. Pois, enquanto o Brasil tenta se acertar, países como Peru, Tailândia e Gana, entre outros, já constroem acordos para transferir ITMOs a compradores como Suíça, Singapura, Japão e Coreia.

*Alexandre Bossi é sócio da Perfin
*Ângelo Rabelo é presidente do IHP (Instituro Homem Pantaneiro)

 

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