Sobre o fascínio tecnológico
Suponho que, a essa altura dos acontecimentos – pandemias cíclicas, guerras neoimperialistas e outras formas de hipocrisia moral, liquidificadas na chamada era da pós-verdade – pouca gente acredite que ainda possa haver discursos neutros ou isentos.
Examinando a trajetória das mídias corporativas brasileiras, bastaria passar a segunda metade do século 20 em revista para constatá-lo. Lá estavam alguns editoriais, manchetes e seções de teor controverso que, assim como hoje, não permitiam discernir muito bem onde começava a autonomia do periódico e onde a independência das folhas esbarrava nos interesses de setores específicos – sabidamente ligados à direção, inclusive ideológica, desses jornais e revistas.
Um passo adiante. Durante a década de 1990, o advento da internet evidenciou que a neutralidade perante os meios e modos de comunicação teriam cada vez menos lugar e cabimento. De um lado, entusiastas como Pierre Lévy (em Cibercultura, de 1997); de outro, desconfiados como Manuel Castells (em A Galáxia da Internet, 2001) recolocavam em debate termos ancorados historicamente, como liberdade e democracia; conhecimento e informação; justiça social e economia concorrencial – todos esses conceitos, por assim dizer, pareciam estar conectados por uma espécie de macroestrutura, sintetizada em sintagmas supostamente imparciais, tais como “tecnologia da informação”.
Dizendo de outro modo, antes da IA deslumbrar ou assustar muita gente, aqueles portadores de IN (inteligência natural) discutiam, a fundo, se as novas tecnologias eram neutras ou orientadas. Passou-se a testemunhar polêmicas que, a despeito de flertarem com o senso comum, estimulavam a reflexão dos leitores e, eventualmente, o aprimoramento dos próprios métodos de discussão. Assim como Umberto Eco diagnosticava na década de 1960, no âmbitro da cultura de massa acirravam-se os ânimos que contrapunham maliciosos e ingênuos, céticos e crédulos, apocalípticos e integrados.
Os mais otimistas sugeriam que as tecnologias não passavam de ferramentas que lá estavam para auxiliar a humanidade nas operações mais pesadas e complexas, bem, como em tarefas corriqueiras. Os menos otimistas adensavam a questão, sugerindo que tanto o ambiente virtual quanto seus usuários “reais” estavam comprometidos com preconcepções enviesadas de mundo, em acordo com a ética dos bancos e das superpoderosas empresas de comunicação automática.
Revisitando esses debates, três décadas desde o advento da internet, seria fácil reconhecer que alguns sintomas persistem, por exemplo, um fascínio ambivalente face às tecnologias do nosso tempo e lugar. Seria oportuno advertir que o ato de se portar e de se posicionar de modo deslumbrado pode acarretar uma visão passiva e acrítica dos usuários. Como numerosos episódios protagonizados por setores da sociedade digital sugerem, a maior e a menor adesão aos novos métodos ou ferramentas parecem estar conectadas a perspectivas assimétricas (quando não antagônicas) de ver, pautar e intervir no mundo – seja na sala de aula, seja na fila do caixa rápido, seja na lista de espera para embarcar no próximo voo rumo ao espaço sideral.
O fascínio é uma forma de fetiche, palavra que – não custa lembrar – também está associada à ideia de feitiço. Ora, a universidade é (ou deveria ser) o reduto que permite(ria) examinar as tecnologias e seus usos, de modo denso e crítico. Quando a aplicação indiscriminada de (in)certas ferramentas passa a (1) substituir a efetiva sede de saber, (2) abreviar a legítima busca pelo conhecimento, (3) rivalizar com a capacidade de raciocínio, é a (já reduzida) autonomia dos sujeitos que está recolocada em risco.
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