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A arte de ser profundo num mundo que só sabe deslizar

Por Gillianno Mazzetto (*) | 22/05/2026 08:18

Caro(a) conviva,

Existe um tipo de pessoa que confunde movimento com vida. Ela posta, comenta, reage, compartilha, e ao fim do dia não sabe ao certo o que pensa sobre coisa alguma. Está sempre na superfície, sempre disponível, sempre presente em tudo. E exatamente por isso, está ausente em si mesma.

Há um provérbio africano que guardo como quem guarda uma bússola: quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento. Reli essa frase algumas vezes. E percebi que ela não fala sobre árvores. Fala sobre nós.

Simone Weil, filósofa francesa que viveu com a intensidade de quem sabe que o tempo é curto, dizia que a atenção verdadeira é um ato de amor. Não o amor sentimental, performático, aquele que se anuncia. Mas o amor que exige presença radical: parar, olhar, habitar o que está diante de você sem já estar pensando na próxima coisa.

Weil escreveu isso nos anos 1940. Parece que escreveu ontem, às seis da manhã, para quem acabou de pegar o celular antes do café. Vivemos a era da rascunhidade. Opiniões formadas em segundos. Identidades montadas por algoritmos. Pessoas que conhecem o nome de todos os conflitos do mundo e não conhecem o próprio medo. Que têm posição sobre tudo e não têm centro em nada. Rasas. Não por falta de inteligência. Por falta de quietude.

Já vivi algo parecido. Houve um período em que acreditei que a velocidade das respostas era prova de clareza. Que quem responde rápido pensa bem. Que estar disponível era a mesma coisa que estar presente. Aprendia, a custo, que não é.

Gaston Bachelard, o filósofo que passou a vida inteira estudando como os seres humanos habitam os espaços, não apenas as casas, mas os espaços internos, concluiu que só conseguimos verdadeiramente estar em algum lugar quando paramos de passar por ele. Passamos por muita coisa. Habitamos quase nada.

Passamos por relacionamentos, por profissões, por crenças, por versões de nós mesmos, sem nunca descer fundo o suficiente para encontrar o que há lá embaixo. O resultado é uma vida cheia de experiências e pobre em substância. E galho, quando o vento vem, quebra.

A profundidade não se encontra no volume do que se sabe. Encontra-se na honestidade com o que se ignora. Na disposição de ficar com a pergunta antes de correr para a resposta. Na coragem de habitar o silêncio em vez de preenchê-lo.

Autoconhecimento não é saber o próprio tipo de personalidade em quatro letras. É a prática lenta e por vezes dolorosas de perguntar: quem sou eu quando ninguém está olhando?

Em um mundo que premia a superfície, escolher a profundidade é um ato quase subversivo. É recusar a pressa que a época oferece como virtude e aceitar o peso de perguntas que não têm resposta rápida, porque são as únicas que valem.

A árvore do provérbio não sobrevive à tempestade por força de vontade, nem por otimismo, nem por sorte. Ela sobrevive porque, enquanto todo mundo estava olhando para cima, ela estava descendo. Raízes não aparecem. Mas são tudo.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.