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Solução poderá vir das pequenas empresas (falta um plano)

Por Paulo Feldmann (*) | 05/07/2022 07:30

Industrialização e desenvolvimento tecnológico são hoje aspectos mutuamente dependentes e atuam como processos críticos sem os quais nenhuma nação obtém avanços nos campos econômico, social ou político. Os países que mais se desenvolveram nos últimos anos foram aqueles que deram muita atenção a esses aspectos, como China, Israel ou Coreia do Sul.

No caso brasileiro, apesar das inúmeras mazelas que nos assolam, a inexistência de uma política industrial não somente não nos dá um rumo para o futuro como ameaça seriamente a própria sobrevivência da empresa nacional. Já perdemos a corrida em inúmeros setores, mas ainda vamos perder muitos outros se não nos planejarmos como nação.

Até os Estados Unidos, que muito recentemente foram árduos combatentes de ações do Estado na economia, acabam de implementar uma moderna política industrial sob o patrocínio do presidente Joe Biden. Ou seja, a visão de que se deve deixar para o mercado a solução dos problemas não encontra mais coro em praticamente nenhum país desenvolvido.

O Brasil precisa urgentemente de um plano que encaminhe soluções definitivas para temas como desemprego, pobreza, desindustrialização e mudanças climáticas, dentre tantos outros. A maioria desses temas pode ter boas soluções integradas desde que se dê importância para a pequena empresa.

Por isso é importante nos debruçarmos sobre as políticas industriais das nações que têm crescido bastante nos últimos 20 anos. Pequenas empresas de países como Itália e Israel criaram parcerias envolvendo vários segmentos, mas principalmente com seus respectivos governos, os quais foram decisivos para o sucesso. Assim, enquanto no Brasil a pequena empresa praticamente não exporta nada (menos de 1% do total de nossas exportações), na Itália responde por mais da metade das exportações.

Será que a pequena empresa italiana é assim tão mais eficiente que a nossa? Claro que não. A diferença está numa política pública chamada consórcio de pequenas empresas, pela qual o governo estimula a formação de associações que, às vezes, reúnem mais de mil pequenas firmas com o objetivo de, juntas, conseguirem exportar.

Mas é de Israel que vem o exemplo mais marcante. Há um modelo bem concebido que reúne universidades, grandes empresas e governo —todos incumbidos na criação e manutenção de incubadoras, onde as pequenas empresas ficam hospedadas como se fosse um hotel para empreendimentos menores.

Nas incubadoras, as pequenas vão trabalhar em conjunto com engenheiros e estudantes das universidades israelenses em busca de inovações. Claro que o enorme investimento de Israel em educação também é importante, mas o modelo acima foi decisivo para transformar este pequeno país de 8 milhões de habitantes no 13° maior produtor de inovações do mundo, segundo o GII (Global Innovation Index, o principal ranking de países inovadores).

Além disso, temos que reconhecer que não nos saímos bem na geração de grandes empresas com atuação e dimensão mundiais. Claro que temos Embraer, Natura, Weg e outras poucas, conforme acaba de mostrar a relação da revista Forbes sobre as duas mil maiores companhias do mundo. Apenas 1% delas é brasileira. E, daqui para frente, as grandes empresas serão cada vez menos geradoras de emprego.

Atualmente, estão todas empenhadas em se automatizar cada vez mais, e para isso compram robôs, impressoras 3D, drones e outros poupadores de emprego. Não é por outra razão que, em plena pandemia, em 2021, bateu-se o recorde de vendas de robôs no mundo.

Precisamos de um plano para o País. E estamos desperdiçando uma das formas mais importantes de impulsionar o desenvolvimento econômico —que são as pequenas empresas— com apoio, direção e, sobretudo, uma política industrial que a considere e privilegie. Nos últimos seis meses, elas foram responsáveis por 80% dos empregos criados no País. Há uma crise mundial, mas há brechas e oportunidades para quem se preparar para enfrentá-la. Temos os recursos e o potencial. Falta o plano.

(*) Paulo Feldmann é professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP.

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