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Campo Grande, Sábado, 25 de Novembro de 2017

01/11/2016 14:55

Um importante legado político

Por Heitor Freire (*)

O Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul é um local que reconhecidamente congrega parte da história viva do nosso antigo estado e do atual. A presidência é exercida desde 2002 pelo professor Hildebrando Campestrini, que lhe deu a dimensão que ostenta hoje.

Os dois fundamentos da política do nosso antigo estado estão ali representados: a velha UDN e o velho PSD. Velhos no sentido de antigos e vetustos; hoje, na galeria da história. A UDN é representada por Renato Alves Ribeiro, filho do lendário coronel Zelito, e Wilson Barbosa Martins, ambos chegando ao centenário, e também pelo senador Ruben Figueiró.

O lema da UDN era baseado numa frase atribuída a Thomas Jefferson: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Representava o conservadorismo. Já o PSD, na pessoa do bravo Francisco Leal de Queiróz, que tinha como característica o jeito mineiro de ser, matreiro e, muito experiente na política.

No quadro de associados eméritos do IHG-MS, além dos já citados, convivemos com os não menos célebres João Pereira da Rosa – fundador e primeiro reitor da universidade federal -, general João Francisco Ferreira, ex-comandante do Comando Militar do Oeste, e com o sempre bem humorado Agostinho Gonçalves da Motta, remanescente da Força Expedicionária Brasileira, que lutou nos campos da Itália, na Segunda Guerra Mundial.

Conviver com essas personalidades é um privilégio e uma honra. Mas hoje vou tratar especificamente de um deles: Francisco Leal de Queiróz, político atuante durante mais de setenta anos em nosso estado. O “dr. Leal”, como é chamado, é testemunha de inúmeros fatos inusitados dos quais me fez guardião, sob o compromisso da confidencialidade. Para mim é fácil de cumprir, porque estou acostumado a isso pela filosofia que norteia a minha vida e que é a mesma do dr. Leal. A iniciação política dele se fez de modo inesperado.

Aluno do Instituto Americano de Lins, que era o destino natural de muitos estudantes de nosso estado, concluiu o curso secundário em 1945, aos 18 anos, e preparava-se para mudar para o Rio de Janeiro onde cursaria a Faculdade de Direito. Tirou seu título de eleitor nessa época para votar para presidente no general Eurico Gaspar Dutra, então candidato pelo PSD – Partido Social Democrático –, partido que não tem nada a ver com o seu homônimo atual.

Por ser próximo da família de Ulysses Guimarães (incluindo aí Ruth, que se tornaria secretária pessoal do irmão Ulysses por toda a vida), também moradora de Lins, Leal foi convidado pelo jovem político para participar de um comício em Penápolis, onde Ulysses lançaria sua candidatura a deputado estadual.

Como até então sua oratória era utilizada somente nos debates escolares, Leal aceitou o desafio que se tornou o seu batismo político, recebendo de Ulysses as instruções de como fazer o discurso. Empolgou e empolgou-se. Ulysses Guimarães começava aí sua carreira política vitoriosa.

Em 1950 Leal foi novamente convidado para participar da campanha de Ulysses, já candidato a deputado federal, mas declinou da honraria porque o professor tinha sido tão bom que o próprio Leal resolveu candidatar-se a deputado estadual pelo PSD em Paranaíba, sua terra natal, sendo eleito com expressiva votação, aos vinte e três anos de idade. Em 1954 Leal foi reeleito.

Em 1958 foi eleito prefeito de Três Lagoas, derrotando a coligação UDN-PTB. Em 1962 foi eleito para um terceiro mandato como deputado estadual. De 1965 a 1970 foi secretário de Interior e Justiça do governo Pedro Pedrossian, em Mato Grosso, sendo o seu principal articulador político. Conseguiu também desmontar o movimento que pretendia cassar o mandato de Pedrossian como governador.

Mais tarde tornou-se, já no novo estado, representante do governo estadual em Brasília, durante o mandato de Wilson Barbosa Martins. Na administração do governador Marcelo Miranda foi secretário de Justiça e Segurança Pública. Este ano, participou das eleições municipais, votando nos dois turnos.

E assim, no limiar de seus noventa anos, encerra uma participação política de 71 anos, de 1945 a 2016. Sempre lúcido e atento a tudo o que acontece no país e no mundo, deixa um importante legado político para a posteridade.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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