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Vida universitária: saúde e Lattes

Por André Ivaniski Mello (*) | 24/06/2022 08:30

A vida universitária é um complexo encontro entre as exigências acadêmicas e a manutenção de boa saúde. Ao mesmo tempo que o universitário deve gerenciar a realização de inúmeras tarefas e o cumprimento de prazos, o cuidado com sua saúde mental e física deve ser prioridade constante – ou assim deveria. As demandas de estudo, pesquisa e trabalho se sobrepõem, e o estudante deve controlar da melhor maneira a realização de todas as suas tarefas enquanto mantém um olhar esperançoso voltado ao futuro de que todo seu esforço e dedicação serão recompensados em algum momento. A vida de pós-graduação em uma universidade federal, em especial, traz consigo – além das tarefas de disciplinas e trabalho fora da universidade para sobreviver – a responsabilidade da produção científica.

O que temos, portanto, é uma ocupação quase completa das horas do dia por tarefas relacionadas à universidade. A norma é o superpovoamento dos minutos com tarefas universitárias, tornando a realização de outras atividades uma exceção.

A exploração desinibida do tempo é normalizada como exemplificam os comentários e piadas: “pós-graduando não tira férias”, “o que você faz da meia-noite às 6 da manhã?”. Cada vez mais se entra em consenso de que um pós-graduando somente sobrevive ao meio acadêmico se abrir mão de maneira incondicional de seu tempo (perder a vida tentando ganhá-la). Como discutem Besancenot e Löwy em “A jornada de trabalho e o ‘reino da liberdade’”, os momentos livres necessários para o crescimento pessoal e moral vão sendo invadidos e perdendo terreno para as tarefas de trabalho, assim nos vemos cada vez menos com tempo e energia para realizarmos as atividades de sociais, de prazer e criatividade.

A pandemia de covid-19 e suas repercussões sobre o mundo da universidade também ajudaram a intensificar esse movimento de exploração do tempo. Se antes a maior parte das ações universitárias envolvia um deslocamento físico até o espaço da universidade, com a disseminação das atividades remotas digitais os muros caíram e a própria casa foi invadida. Antes um espaço privado, sinônimo de descanso, repouso, desconexão do mundo externo; agora se confunde com o ambiente de trabalho, de exigência, de demanda.

E não falemos somente no espaço físico tomado pelas reuniões e aulas virtuais; o tempo também foi cada vez mais apropriado pelas tarefas acadêmicas. Quem nunca recebeu uma mensagem perguntando sobre uma tarefa às dez da noite ou num final de semana?

No ambiente da pós-graduação, a situação é um pouco distinta devido à constante cobrança por publicações de artigos. Esse processo de exigência de produção científica pode inicialmente ser uma demanda externa, com o orientador ou a orientadora pedindo ao aluno um maior número de artigos publicados. Essa cobrança externa é tão ardilosa e eficaz, que, com o tempo, o próprio aluno passa a exigir de si uma maior produção. E cada vez mais e mais, sem teto nem limite.

Evidente que, dentro de uma perspectiva de pontuação curricular, o acréscimo na quantidade (e na qualidade) da produção científica ajudará na classificação do próprio aluno em um processo seletivo futuro. O que se deve ter atenção, porém, é à exigência de constante produção pelo aluno e os efeitos que essa demanda possui sobre a sua saúde. Conforme Byung-Chul Han coloca em “A sociedade do cansaço”: “O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obriga a trabalhar […] não está submisso a ninguém ou está submisso a si mesmo”.

O autor complementa que “o explorador é ao mesmo tempo o explorado”. O aluno, que inicialmente necessitava da cobrança por aumento de produtividade vinda de um orientador, transforma-se no próprio explorador. Nada mais adequado para o aumento da produção: dispensar o intermediário. Dessa maneira, o meio universitário incentiva a conversão de alunos em sujeitos de desempenho. Sujeitos tão eficientes que, por meio da autoexploração, aumentam sua produtividade, exaurem seu tempo livre e esquecem de sua própria saúde, mas melhoram seu Lattes.

(*) André Ivaniski Mello é doutorando e mestre em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS e bacharel em Fisioterapia pela UFRGS.

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