Você está confuso?
Você está confuso? Não se exaspere, não se culpe, não desconfie que está com alguma dissociação cognitiva. Simplesmente, não dê bola: todos estão confusos, embora a maioria se envergonhe de confessar e troque a compreensão pelo achismo. Na nossa Babel contemporânea todos se arrogam o direito de pontificar sobre tudo, e as redes sociais estão aí para disseminar os palpites mais estapafúrdios, travestidos de opinião abalizada. Vale o parecer do estrategista militar sobre novos vírus. Vale a cartomante explicando a mecânica quântica. Vale tudo e qualquer coisa. Lógico! Porque tudo não passa de pretexto para botar a cara na tela, angariar milhares de seguidores e, suprassumo do sucesso, tornar-se um influencer.
O dilema das fake news foi superado pelo problema das news propriamente ditas. Mesmo quando são verificáveis (não mentirosas), as noticias andam tão voláteis que tanto faz se atualizar hoje, pois amanhã novos fatos desmentirão os fatos de 24 horas atrás. Uma potência invade um país latino-americano, em seguida era só ameaça, em seguida vai invadir mesmo. Ou democracia não se negocia, com a ressalva de que depende do dia. Esse carrossel de vaivéns alimenta o gosto pela procrastinação. Adiar é a pedida. É um game de soma zero. Daí os bocejos de tédio e extrema desconfiança. Daí o triunfo do “tanto faz”, do cansaço e da apatia. Pode apostar: você não está confuso. É o mundo que está uma balbúrdia geral.
Não é a primeira vez, nem será a última em que os donos do poder se entretêm conosco, nossas perplexidades e batalhas, como faziam os deuses do Olimpo na célebre partida Grécia versus Troia, conhecida como Ilíada. Talvez a novidade seja a aceleração deste caos. Como ainda é cedo para desanuviar horizontes e traçar perspectivas, vamos cultivar, mesmo que por um momento de calma, a “arte de perder”, exatamente como escreveu a poeta Elizabeth Bishop. “A arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: Lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita. Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes. A arte de perder não é nenhum mistério. Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios, e mais um continente. Tenho saudade deles. Mas não é nada sério” (Poemas escolhidos, tradução de Paulo Henriques Britto).
(*) Marília Fiorillo, professora de Filosofia Política e Retórica da Escola de Comunicações e Artes da USP
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