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Entre muros e territórios: o projeto de sociedade que estamos escrevendo

Por Daiane Lara Landim (*) | 10/03/2026 07:02

Tem quem imagine a universidade como uma torre: alta, branca, silenciosa. Um lugar onde o pensamento germinaria isolado do ruído do mundo. Mas, para muitas de nós, mulheres negras que chegamos até aqui, ela sempre foi mais parecida com uma travessia. Não há neutralidade em ocupar espaços que não foram arquitetados para que nossos corpos permanecessem, e ser pesquisadora, no Brasil, é aprender a habitar fronteiras.

Os dados apresentam que as mulheres são maioria na pós-graduação. Ocupamos 54% das bolsas de mestrado e 53% das bolsas de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que essa maioria assemelha-se a uma água represada: o fluxo se interrompe antes de alcançar os lugares onde as decisões são tomadas. As mulheres representam apenas 35,5% das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica.

Embora constituamos mais de 50% da população do país, segundo o IBGE, seguimos sendo presença rara nos espaços onde o conhecimento é formalmente legitimado como ciência. Quando o recorte se torna racial, o silêncio grita: mulheres negras com doutorado não chegam a 3% da docência na pós-graduação brasileira. Em alguns campos, como nas exatas e engenharias, esse número é ainda mais drástico. É um dado que transborda a frieza das estatísticas; ele ecoa nos corredores, nas bancas e nas referências bibliográficas que historicamente nos omitiram.

Por isso, a indagação de Bárbara Carine não é apenas uma pergunta: "E eu, não sou uma intelectual?". É um deslocamento epistemológico. Não se trata apenas de estar na universidade, mas de disputar o próprio conceito de saber. Como nos provoca a pesquisadora, a intelectualidade não é uma vocação nata, mas um reconhecimento social. E, durante muito tempo, a academia produziu uma epistemologia que definiu quem detinha o direito de pensar e quem seria reduzido a objeto de estudo.

Durante muito tempo, a universidade se colocou como o único lugar possível do pensamento. Mas nós chegamos trazendo outras escolas de pensamento no corpo. Chegamos com autoras que não estavam nas bibliografias. Chegamos com aquilo que aprendemos ouvindo o outro. Chegamos com tecnologias sociais. Chegamos com perguntas que não cabiam nos formulários. Chegamos com a memória e força das que pensaram antes de nós sem nunca terem sido chamadas de intelectuais.

Fazer pesquisa, para nós, é um exercício contínuo de permanência. E permanecer, aqui, é um verbo político. Porque a universidade é um território em disputa. Defendê-la como espaço público é também reivindicar que ela reconheça outras matrizes de produção de conhecimento.

Aprendi que a teoria não nasce apenas nas bibliotecas. Ela nasce nos ensaios de dança das periferias, no sarau que reconfigura o bairro, na mulher que transforma o cotidiano em tecnologia de existência. A rua também escreve. Existe método no improviso, conceito na vivência e epistemologia no território.

Nossa presença não é mera ocupação; é transformação. Afirmar que mulheres negras precisam estar na ciência não é uma pauta identitária restrita, é uma questão sobre o futuro da produção do conhecimento no Brasil. Uma ciência que ignora a experiência da maioria de sua população é uma ciência míope, que pergunta pouco e inventa menos.

Às vezes, vejo a academia como uma porta entreaberta. Não fomos convidadas a entrar. Empurramos o umbral com o corpo e, agora que estamos dentro, não queremos apenas permanecer. Queremos rearrumar os móveis, abrir as janelas, trazer outras vozes para a sala e, como um rio, finalmente desaguar.

Cada mulher negra que pesquisa carrega consigo as que foram impedidas de ocupar ou permanecer. Cada artigo assinado ou trabalho defendido é uma resposta à pergunta que nos foi feita tantas vezes de forma silenciosa: "você pertence a esse lugar?".

Pertencemos. Somos intelectuais mesmo quando a universidade ainda está em processo de alfabetização para nos reconhecer como tal. Pertencemos porque subvertemos a própria ideia de intelectualidade. Não nos falta pensamento; falta reconhecimento.

(*) Daiane Lara Landim é mestra no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional (PPGDSCI/UnB). Pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas Culturais (OPCULT) da UnB. 



 

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