A crônica, segundo Ignácio de Loyola Brandão
Na noite ligeiramente fria do dia 24 de agosto de 2026, uma segunda feira, o palco da Academia Sul-mato-grossense de letras, recebeu o imortal da Academia Brasileira de Letras Ignácio de Loyola Brandão.
Aos noventa anos de idade e completamente lúcido, o excepcional escritor se apresentou numa palestra inesquecível.
Autor de livros maravilhosos, entre eles o distópico “Não haverá país nenhum”, escrito em 1981, no qual as pessoas surgem nas páginas portando máscaras obrigatórias e caminhões despejando carregamentos de cadáveres. Qualquer semelhança com a pandemia de Covid em 2020 pode ser vista como mera coincidência, ou seria o brilhantismo de um escritor genial que enxergou o futuro?
Voltemos à palestra.
Loyola é daqueles que prende a atenção do público da maneira mais simples possível: sendo ele mesmo. Apesar do absurdo sucesso de seus escritos no romance e também nos contos, é na crônica que ele se deixa perceber com mais intensidade. É contador de causos nato e ensina como as crônicas nascem de maneira que qualquer ouvinte possa captar a forma, a técnica e de repente tentar se arriscar na escrita.
"Certo dia do ano de 1977, desabou sobre São Paulo uma tromba d’água que alagou tudo, transformando as ruas em verdadeiras correntes de água rumo aos bueiros. Pelos vãos da parede de uma igreja, a água da chuva formou uma cachoeira. Uma moradora da rua desviou dos carros já se despindo e entrou embaixo da água cantarolando e encantando quem passava. Ninguém se aborreceu com a nudez da moça, o encanto da alegria de um banho foi maior. Algumas pessoas lhe entregaram xampu e sabonete e ela se encheu de espuma enquanto continuava a sorrir e cantarolar. Olhei aquilo e pensei: está pronta a crônica.”
A plateia sorriu e aplaudiu.
Loyla tomou um gole de água e advertiu: se me deixarem, fico falando por mais de quatro horas, arrancando novos risos da plateia.
E o estupendo escritor prosseguiu relatando a sua vasta experiência.
Falou da relação com Campo Grande: nos anos setenta, após o término do primeiro casamento, aqui vieram residir seus dois filhos.
Onde está aquela casa que tinha um zoológico no quintal, perguntou, se referindo à residência do Lúdio Coelho.
Todos riram e ele fez questão de elogiar o crescimento da cidade que não visitava há tanto tempo.
Na plateia, eu cada vez mais me enxergava naquelas histórias. Ele prosseguiu:
- Quando comecei a trabalhar no jornal, tinha o costume de chegar bem cedo, abrir a janela e olhar o movimento da rua. O primeiro homem a passar usando chapéu, eu dizia para mim mesmo: está pronta a crônica. E escrevia algo sobre o homem que acabara de ver passar num movimento apressado, sem perceber que eu contava até mesmo os seus passos. Que homem era aquele? O que ele vai fazer até o almoço? E escrevia o desenho que dançava no meu imaginário, desde o amanhecer até o momento em que ele se deitava para dormir.
Um gole de água e a frase final:
“E está pronta a crônica”, ensinou.
Sobre sua crônica mais famosa “O Homem do Furo na Mão” sorriu antes de explicar que ao contrário do que muitos pensam, não tem nada a ver com Jesus Cristo: “certo dia apareceu na redação um homem que costumava apagar o charuto no cinzeiro, mas um dia, bêbado, acabou confundindo o cinzeiro com a palma da mão. E fez questão de mostrar a todos na redação. Todos riram, eu pensei: “a crônica está pronta”.
Depois contou como foi o processo de criação de seus principais livros, mas eu notava que ele queria mesmo era voltar para as crônicas.
“Escrevo para não enlouquecer, para me divertir e também para ter prazer. Será que alguém sabe exatamente por que escreve, por que faz música? Porque alguma coisa empurra a gente”.
Seu olhar percorreu a plateia. Procurava algo. Se for perguntar se tem por ali algum cronista, levantarei as duas mãos, pensei. Mas ele se aquietou, bebendo mais um gole de água.
Na sequência falou sobre “Zero” romance escrito em plena ditadura militar e que criticava intensamente o regime.
“Eu estava exilado na Itália e um dia de nada a fazer fui a um cinema, cheguei com o filme já começado e um escuro imenso não me permitia enxergar os assentos, fui tateando até encostar a mão num bicho enorme e peludo. Um cachorro! Mas o que um cachorro faz dentro do cinema? Então as luzes se acenderam e vi que era um enorme rato. Um homem de nome José entrou correndo com rodo e balde nas mãos e numa rapidez impressionante capturou o rato. Ao passar por mim, se desculpou pelo ocorrido e percebi que José era brasileiro. Sai do cinema com nada do filme na cabeça, mas a história do livro pronta para escrever. Os militares não gostaram, proibiram o livro, mas quando voltei para o Brasil encontrei diversos exemplares nas bancas de jornais. Eles eram bons em proibir, mas péssimos para fiscalizar a proibição” Toda a plateia sorriu.
Ele podia discorrer sobre outros de seus romances. “O beijo não vem da boca” é um romance que li quando era bem jovem e gostei bastante, mas a definição de Ana e Breno, se vinda da boca de quem os escreveu, me causaria imenso alívio, porque nunca consegui decifrá-los sozinho.
Mas ele não ouviu meus pensamentos, a crônica precisava ser descrita novamente: “se um menino passa correndo por mim, o rosto sardento, os dentes da frente ameaçando nascer e tomar o lugar dos primeiros que caíram, eu vejo a cena e a crônica está pronta.
Ninguém ensina ninguém a escrever. O escritor já nasce pronto, eu pensava assim. Mas Loyola, embora eu não tivesse oportunidade de lhe perguntar, mostrou que pensa diferente: “se for um bom observador do cotidiano, perceber os detalhes do que acontece ao lado, perceber os detalhes do movimento da rua, se lembrar um dia no passado no qual sorriu com os amigos, se assustar com o tamanho da lua e o calor antes do verão, basta um misto de concentração com imaginação para começar a escrever e logo a crônica estará pronta”.
Ah, é preciso destacar, a leitura é obrigatória para quem quer escrever, isso é indiscutível. Eu li “Zero” em menos de uma semana. Simplesmente adorei. Se me arrisquei a escrever, devo isso em parte ao maravilhoso escritor naquele instante diante de mim.
Ele contou sobre a criação de outros textos, sempre terminando com a frase inesquecível: “E está pronta a crônica”.
Ignácio Loyola Brandão prosseguiu a palestra por quase duas horas, respondeu todas as perguntas, fez rir, despertou curiosidades, iluminou o palco da Academia com sua luz de palavras.
Ao término, fui ao banheiro, na cabeça ainda girando as histórias que acabara de ouvir. Pois quando fui abrir a porta para sair, dei de frente com Ignácio Loyola Brandão tentando entrar, no mesmo giro na maçaneta. Ele me encarou um tanto assustado, o olhar se deteve como se quisesse ler meus pensamentos. Na abastração do momento, fiz um gesto idiota, ergui a mão direita com as pontas dos dedos tocando na testa, como quem dá continência. Ele ameaçou um sorriso, e tudo o que consegui lhe falar foi: pronto, a crônica está pronta.
E sorrimos como se nos conhecêssemos há vários anos.
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