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Beba das Crônicas

Tudo bem em Macondo

Por Lucilene Machado (*) | 16/09/2026 13:32

Todos os dias tenho a sensação de estar vivendo em Macondo. Uma grande Macondo com seus absurdos reais potencializados. E isso parece não indignar a maioria das pessoas. Em línguas de raízes africanas, da etnia banto, makondo significa “bananas”. O que faz sentido, por tratar da potência agrícola da Colômbia, e, nossa também. Entretanto o que mais nos aproxima de Macondo não é a banana, nem a chuva persistente, nem os mortos que conversam com os vivos. Mas sim, essa nossa extraordinária capacidade de assistir às arbitrariedades sem interromper o café da manhã.

Em Macondo, o extraordinário chega devagar, instala-se na sala, senta à mesa e pede açúcar. As pessoas olham, estranham um pouco, depois se acostumam. O absurdo, quando permanece tempo suficiente entre nós, perde o assombro. Deixa de ser absurdo, torna-se paisagem. O que provavelmente seja a mais perigosa das metamorfoses, o espanto deixa de existir.

Gabriel García Márquez sabia que os países também adoecem de memória. Que há lugares onde a história passa, deixa seus mortos, seus desaparecidos, seus trabalhadores esmagados pela engrenagem do lucro, e depois se recolhe como uma maré envergonhada. Em Macondo, a companhia bananeira chega trazendo a promessa do progresso e também a exploração, a violência e o silêncio posterior. A história, como conhecemos, vai sendo reescrita até parecer que nunca aconteceu. Não é difícil nos reconhecermos personagens desse lugar.

O Brasil parece ter pressa em esquecer. A violência se acumula, mas não se sedimenta. A notícia de ontem é empurrada para o fundo pela notícia de hoje, que amanhã será substituída por outra. A morte, quando não nos toca a porta, pode ser transformada em estatística. O sofrimento alheio, quando não interrompe nossas rotinas, corre o risco de parecer uma espécie de ficção mal escrita. Macondo é esse lugar onde as coisas acontecem e, ainda assim, não chegam inteiramente a acontecer. Onde a realidade precisa ser repetida muitas vezes para que alguém acredite nela.

O Brasil tem suas próprias chuvas intermináveis. Tem suas cidades que crescem sobre ruínas, seus trabalhadores que desaparecem dentro de números, seus pobres que esperam por uma promessa de futuro como quem espera um trem que talvez nunca tenha sido construído. Tem seus mortos que não descansam porque a justiça lhes foi negada, e seus vivos que aprendem a caminhar entre os escombros com a delicadeza prática de quem já não pode se dar ao luxo de parar.

Há, no entanto, uma diferença que me inquieta. Em Macondo, a solidão parecia uma condição dos habitantes. Aqui, parece uma escolha coletiva. Não que estejamos sozinhos. Nunca estivemos tão acompanhados de vozes, imagens, opiniões, certezas. Mas já não conseguimos escutar aquilo que não confirma o que pensamos. Cada qual encerra-se em seu pequeno quarto de convicções, fecha as janelas, escolhe os próprios mortos, os próprios heróis, as próprias verdades. E o mundo, do lado de fora, continua ardendo.

A solidão não é a ausência de gente. É a ausência de encontro. Os Buendía repetiam nomes, desejos e erros. Nós também temos nossos ciclos. A história brasileira parece possuir uma inclinação para retornar ao mesmo lugar usando roupas diferentes. A exploração muda de discurso. A violência encontra novas ferramentas. O preconceito aprende novas palavras. O poder troca de máscara, mas conserva, em algum lugar do rosto, a mesma cicatriz. E nós, habitantes dessa Macondo ampliada, vamos nos acostumando.

Acostumamo-nos ao absurdo como quem se acostuma ao calor: abrimos a janela, procuramos um pouco de vento, reclamamos da temperatura e seguimos vivendo. O que antes nos pareceria impossível passa a integrar o mobiliário da casa. Já não perguntamos quem trouxe aquilo para dentro. Já não sabemos em que momento deixamos de estranhar. Uma das funções da literatura é devolver às coisas o seu espanto. Para dizer que uma banana não é apenas uma banana. Que uma cidade não é apenas uma cidade. Que um país não é apenas o lugar onde nascemos, pagamos contas, votamos, adoecemos e morremos. Que por trás das palavras mais gastas ainda pode haver uma ferida.

Macondo não nos ensina a acreditar no absurdo. Ensina-nos a desconfiar do momento em que o absurdo começa a parecer normal. E talvez o Brasil de hoje precise, mais do que nunca, de alguém que interrompa o café da manhã, olhe pela janela e avise que Úrsula está na rua, de casa em casa, batendo palmas, convocando os vivos, para os lembrar de que ainda estão vivos, de que ainda há uma porta, uma rua, um mundo livre das corporações estrangeiras. Úrsula traz consigo a memória dos mortos, a paciência das mulheres e a urgência de quem já viu a história se repetir vezes demais e pode nos alertar do absurdo que é embrulhar o país em papel de presente e entregá-lo às mãos da companhia bananeiras.


 

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