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Beba das Crônicas

Do silêncio - Crônica de Tânia Souza

Por Tânia Souza | 25/12/2021 09:00

Estou quieta. Minhas palavras dormem em perplexidade e ausência. Penso no transbordar.

Abro o bloco de notas do celular e a película rachada faz uma linha triste na tela. Dou um riso besta: escrever o quê? Mas um único dedo passeia no teclado. Escolhe palavras, apesar.

Tenho uma taquicardia de estimação que batizei: La sem-hora de mi ansiedad. Tenho uma tosse leve no meu peito, uma pandemia que não acabou e a morte e a vida dançam suas cirandas eternas.

Tende ao agudo, a minha voz escapando do abismo. Por isso, eu gosto de palavras carregadas de silêncio. De paisagens densas e solitárias.

Ultimamente, vejo vídeos de estradas e paisagens que não trilharei e isso não me entristece. O mundo é tão lindo. A quem pertencerá? Uma moça está cantando para uma floresta cheia de neblina e outra filma um caminho de outono ante seus pés.

Espero que a floresta goste. E que a moça tenha boas canções e suaves melancolias. Há que ser, para encante de árvores. Quando criança eu conversava com as árvores. No tronco da goiabeira, descascava as cascas ancestrais e chamava de missão. Era bonita a árvore nua se revelando.

Ontem, vi que numa cidade distante (meu jeito de dizer que esqueci) houve certa vez uma explosão de melado e a onda doce destruiu parte da cidade. Penso na onda, suponho dourada. Um transborde de doçura, pesado, incontrolável. Terrível e fatal. Certa vez, escrevi um conto onde a personagem, sem nome, sem voz, derramava silêncio no olhar. Sei que estou enredada nesse derrame. Sigo mareada de silêncio, todavia vejo inutilidade em dizer. Tenho enjoos verbais. O silêncio não pode ser dourado, talvez lhe caiba um lusco-fusco.

Escrevo, pensativa, ciente de que não escrevo. O silêncio me engole.

O silêncio que prende a voz, o ser, o silêncio do não lugar. O silêncio do afeto e dos desencontros com a textualidade. Nas entrelinhas da cidade um grito sapucay estilhaça a tarde e a melodia espanta tristezas.

Um texto é, no mínimo, dois. Dado que tecido em dualidades. Primeiro, é de quem escreve. Traz paisagens, onirismos, inverdades e quês. É meu.

Depois, pertence aos leitores. Ali, nos labirintos da recepção, o texto é molde, é forma, é tecido uma e outra vez. É seu.

Qual seria o peso silencioso da palavra não escrita, roubada da leveza do ser? Onde, essa minha não escrita?

Eu não escrevo.

Sou só perplexidade.

Deslize o dedo, role o feed.

Deixe pra lá.

Não há nada aqui.

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