Amizade e apoio de vizinhos garantem permanência de comércios antigos na Carlota
Estabelecimentos tradicionais do bairro enfrenta concorrência com redes e novos empreendimentos
A chegada de novos empreendimentos, que vem transformando ano a ano a Rua Spipe Calarge, não foi suficiente para acabar com as vendinhas, mercadinhos e oficinas tradicionais da Vila Carlota, na região do Bandeira, em Campo Grande. Nas ruas que carregam nome de moedas, os comércios que surgiram junto com o bairro permanecem existindo pela amizade e apoio dos vizinhos.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Essa é a constatação do caminhoneiro Gentil Ratier Sacone, de 69 anos. Durante anos, ele foi proprietário de uma bicicletaria na Rua da Lira. Segundo ele, mesmo localizado a uma quadra da Spipe e tendo como concorrente uma unidade da rede Ciclo Ribeiro, nunca faltou serviço. "A amizade que faz melhorar. Tinha o Ribeiro no fundo da minha bicicletaria e eu tinha serviços que nem eles tinham", avalia.
- Leia Também
- Entre barro e asfalto, bairro com "cara" de interior abriga gerações
- Oásis de frescor e natureza, Jardim Veraneio sofre com falta de infraestrutura
O caminhoneiro conta que a Bicicletaria do Lira, nome gravado em azul-claro na fachada da oficina em referência ao nome da rua, foi a segunda criada do bairro, mas a única sobrevivente. "A primeira era do Santinho, na segunda esquina, mas acabou. Hoje essa é a mais antiga", afirma.
O ponto foi vendido, mas segue a lógica explicada por Gentil. "Agora eu vendi para os meninos que já trabalhavam para mim", completa.
O novo proprietário é Rafael Rocha da Silva, de 22 anos. Mesmo morando no Bairro Los Angeles, a cerca de 10 quilômetros da bicicletaria, Rafael apostou na tradição da oficina. "Todo dia chega gente que precisa de conserto, trocar câmara de ar, pneus. A maioria é gente daqui do bairro mesmo", disse.
Na quadra debaixo, na Rua do Dólar, o Mercado Popular, conhecido como mercadinho do seu Valdir, existe há quase 50 anos. Destes, cerca de 10 anos são marcados pela concorrência com o supermercado Comper, na Spipe Calarge.
Filha do seu Valdir e uma das atuais proprietárias do mercadinho do bairro, Valdecir Antônia da Silva, de 52 anos, conhecida como Preta, conta que a sobrevivência vem da variedade oferecida e do apoio de fregueses antigos. A empresa familiar também ajuda a reduzir o custo com funcionários.
O mercado ganhou fama na região por ter de tudo. “O pessoal faz até aposta: 'Lá no seu Valdir vai ter!'. E tem quem chega e fala que tem certeza que o que precisa não vai ter aquele dia, mas sempre tem", conta. Preta revela que o segredo é sempre prestar atenção nos fregueses e no que eles precisam. Se surge uma demanda nova, ela e os irmãos vão atrás o quanto antes.

O encanador Ricardo Arruda, de 50 anos, é um dos clientes mais antigos do mercadinho. Ele conta que mora na Vila Carlota há pelo menos 40 anos, quando ainda nem existia asfalto nas ruas. Ele afirma que sempre que precisa comprar algo a preferência é o mercadinho do Seu Valdir. "O pessoal aqui é muito gentil. O atendimento é muito bom", disse.
A esquina da Spipe Calarge com a Rua do Cruzeiro é ponto de venda de carvão, lenha e mandioca descascada. A vendinha, com os produtos espalhados pela calçada ao lado de placas e cartazes de todo estilo, indicando a variedade e preço, é conhecida por todos do bairro e atrai clientes de outras regiões de Campo Grande.
Para o proprietário, Manoel Silveiro Neto, de 32 anos, além da qualidade do produto, o segredo é o atendimento. "Meu pai tinha um sacolão a vida inteira na Avenida Zahran, o sacolão do Manezão, ele era bem conhecido porque antigamente não tinha mercado. Ele sempre pegou mandioca boa. Mas não adianta nada você ter coisas boas, para ter uma clientela boa meu pai me ensinou que você tem que ser educado, prestativo, atencioso", aponta.
Segundo ele, até o desejo de um bom churrasco faz a diferença. "Querendo ou não, todo mundo tem batalhas. Hoje eu estou feliz, amanhã eu estou triste, e eu não tenho que tratar os outros mal", completa. Manoel assumiu os negócios do pai há cerca de anos e aumentou o atendimento. Antes, a venda ficava disponível só durante o fim de semana, hoje funciona de segunda a sábado.
No coração do bairro outros estabelecimentos antigos como farmácia, conveniência, sapataria e açougue também seguem de portas abertas.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.





