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Cidades

“Askari”, militar em árabe, era código do Clã Haidar para propina a policiais

PF encontrou pagamentos milionários ligados a agentes e rastreou dinheiro até pessoas próximas de delegado

Por Anahi Zurutuza | 06/11/2026 05:29
“Askari”, militar em árabe, era código do Clã Haidar para propina a policiais
Adule Vasques Haidar em selfie com policiais da Garras alvos de PF (Foto: Reprodução)

Na contabilidade do tráfico, a polícia tinha uma identificação própria. Em vez de nomes ou cargos, integrantes do chamado “Clã Haidar” utilizavam expressões como “askari”, “aska” e “ask” para registrar movimentações financeiras que a PF (Polícia Federal) suspeita terem servido ao pagamento de propina a agentes públicos.

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A Polícia Federal deflagrou a Operação Ifrit contra uma organização de tráfico de drogas e armas comandada por três irmãos da família Haidar, em Ponta Porã (MS), que teria movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos. Registros financeiros com os termos "aska" e "ask", que significam soldado em árabe, indicam repasses suspeitos de propina a policiais civis, entre eles o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar. Um dos lançamentos soma R$ 800 mil em um dia. A ação cumpriu 25 mandados de prisão preventiva e 76 de busca em sete estados.

A palavra tem origem árabe, a mesma da família alvo da PF, e significa militar ou soldado. A tradução ajuda a compreender por que o termo chamou a atenção dos investigadores, mas são os valores, as transferências bancárias e as relações entre os destinatários que sustentam as suspeitas de corrupção.

A descoberta aparece na decisão judicial de sequestro de bens da Operação Ifrit, deflagrada na quarta-feira (4) pela PF e pela Receita Federal. A investigação aponta que três irmãos da família Haidar, estabelecidos na região de Ponta Porã, comandavam uma organização internacional de tráfico de drogas e armas. Em dois anos, o grupo teria movimentado mais de R$ 500 milhões, com o auxílio de operadores financeiros, empresas e agentes de segurança pública.

Os irmãos Adel Hassan Haidar, Bassam Hassan Haidar Ahmed e Nasser Haidar aparecem na cúpula da organização. A geração seguinte também participaria dos negócios, principalmente Adule Vasques Haidar, filho de Adel, e Maroan Fernandes Haidar Ahmed, filho de Bassam. Segundo a PF, Adule administrava recursos, coordenava operadores e mantinha contato com policiais suspeitos de prestar serviços ao grupo.

Idioma e contabilidade – Os investigadores encontraram os lançamentos na nuvem de Adule. Entre as anotações, estão pelo menos duas remessas superiores a R$ 5 milhões cada, registradas como pagamentos em favor de “aska”. Os valores aparecem em controles associados à movimentação de drogas, à distribuição de recursos e à administração financeira da organização.

A contabilidade também apresenta referências a “askarie” acompanhadas de cálculos envolvendo exportações, quantidades de mercadorias e valores a receber. Para a PF, os registros ajudam a reconstruir o funcionamento de um esquema no qual parte do dinheiro movimentado pelo tráfico teria sido destinada à cooptação dos integrantes das forças de segurança.

A investigação aponta Adel e Adule como os principais intermediários entre a organização e policiais civis de Mato Grosso do Sul. Entre os citados estão o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), e os investigadores Douglas Tobias e Andrey Elesbão Silva.

“Askari”, militar em árabe, era código do Clã Haidar para propina a policiais
Relatório extraído da nuvem de Adule mostra contabilidade e código "ASK" (Foto: Reprodução)

R$ 800 mil em 1 dia – Uma das descobertas mais expressivas aparece nos registros de 10 de fevereiro de 2025. Ao analisar arquivos, a PF encontrou três lançamentos identificados com a expressão “ASK”, que somaram R$ 800 mil.

O primeiro registro corresponde a R$ 400 mil, com referência a Jonas, identificado pela investigação como Jonas Vinícius Benfica Ferreira, primo da companheira de Hoffman. Outro lançamento, também associado a Jonas, registra R$ 120 mil. O terceiro, de R$ 280 mil, faz referência à Benfica Representações, empresa vinculada ao mesmo familiar.

A análise identificou outros lançamentos com a mesma expressão. Entre eles aparece uma transferência de R$ 500 mil, também em 10 de fevereiro de 2025, além de operações posteriores de R$ 35.555,56, R$ 30 mil e R$ 100 mil. Os registros estavam associados a contas e pessoas relacionadas à “rede financeira” investigada.

O cruzamento entre os controles encontrados na nuvem de Adule e as informações bancárias levou a PF a investigar a possibilidade de que empresas e familiares de Hoffman fossem utilizados para movimentar recursos de origem criminosa.

“Askari”, militar em árabe, era código do Clã Haidar para propina a policiais
Encontro entre Adel (de branco) e Hoffman gravado por drone da PF em 22 de novembro de 2025 (Foto: Reprodução)

Dinheiro vivo e patrimônio – A suspeita ganhou força com a análise de movimentações atribuídas ao próprio delegado e a pessoas próximas. Segundo a decisão, Hoffman realizou um depósito de R$ 276 mil em espécie na própria conta, apresentado como doação, sem identificação do doador no relatório financeiro examinado pelos investigadores.

A Polícia Federal também identificou que a Benfica Representações transferiu R$ 250 mil ao vendedor de um terreno no condomínio Alphaville, em Campo Grande, adquirido por Hoffman e a mulher, em maio de 2024. Meses depois, a mesma empresa repassou R$ 140 mil diretamente ao delegado.

A investigação aponta que Jonas movimentou aproximadamente R$ 2,08 milhões em 15 depósitos feitos em espécie, sendo cerca de R$ 1,69 milhão depositado por uma única pessoa. Os investigadores também identificaram transferências entre a Benfica Representações e empresas que aparecem na rede financeira da organização.

Outro caminho do dinheiro passaria pela LK Assessoria e Cobrança, empresa que teria repassado pelo menos R$ 400 mil à Benfica Representações. A PF considera essa movimentação relevante por conectar negócios investigados à estrutura patrimonial de pessoas próximas a Hoffman.

Os valores são incompatíveis com a renda formal e o patrimônio dos envolvidos, aponta a investigação.

“Askari”, militar em árabe, era código do Clã Haidar para propina a policiais
Fonte: Polícia Federal

Policiais na folha do tráfico – A PF suspeita que os pagamentos relacionados a agentes públicos fossem uma contrapartida por serviços prestados à organização. Os investigadores apontam o fornecimento de informações sigilosas, a antecipação de operações policiais, a proteção de carregamentos e a interferência na liberação de veículos e drogas apreendidas.

No caso de Hoffman, a suspeita mais grave envolve aproximadamente duas toneladas de cocaína que teriam desaparecido do depósito da Denar durante sua gestão. Segundo a investigação, integrantes do esquema retiravam a droga de maior pureza e a substituíam por uma mistura adulterada, destinada à destruição oficial. A venda dos entorpecentes teria rendido cerca de R$ 15 milhões ao delegado.

A proximidade entre Hoffman e a família Haidar também aparece em fotografias e vídeos. O delegado foi registrado em uma confraternização com karaokê ao lado de Adel e em reuniões com integrantes da organização. A PF encontrou ainda imagens de Adule e Vitor da Silva dentro da Denar, em dezembro de 2025.

O investigador Andrey Elesbão Silva aparece em conversas nas quais Adule solicita informações sobre pessoas, veículos, endereços e patrimônio. Segundo a PF, o policial teria utilizado seu acesso a informações institucionais para atender aos interesses da organização.

A investigação também chegou a Douglas Tobias, citado em apurações sobre o desvio de drogas e suspeitas de colaboração policial. As autoridades examinam sua movimentação financeira e a origem de bens associados ao investigador.

Os policiais aparecem na Operação Ifrit em meio a uma estrutura que, segundo a PF, mantinha vínculos com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense). O grupo atuava principalmente na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, com rotas de distribuição de drogas para outros estados e remessas destinadas à Europa, especialmente Espanha e Portugal.

A ofensiva de quarta-feira se espalhou por sete estados para cumprir 25 mandados de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 76 de buscas e apreensões, além de três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis. Também autorizou bloqueios bancários de até R$ 300 milhões e medidas sobre imóveis, fazendas, veículos e outros bens.

O próprio nome da operação traz outra referência à cultura árabe, também presente na origem familiar dos principais investigados. No folclore árabe e nas tradições islâmicas, “ifrit” designa uma criatura sobrenatural, frequentemente associada ao fogo e retratada como um ser poderoso e temível.

Outro lado - A defesa do delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa informou que ainda não teve acesso integral aos autos da Operação Ifrit e considera prematuro comentar as acusações, ressaltando que a prisão preventiva não representa condenação. O advogado Luiz Renê Gonçalves, que representa o investigador Douglas Tobias, também afirmou que não recebeu toda a documentação e que ainda não há definição sobre eventual indiciamento ou denúncia contra o cliente.

Já o escritório Hazime Advocacia, responsável pela defesa de Fahd Haidar, declarou que analisa os elementos da investigação, apresentará seus argumentos à Justiça e está convicto de que demonstrará a inocência do investigado, destacando que as medidas cautelares não significam reconhecimento de culpa.

O espaço segue aberto para manifestações dos demais citados.