Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação
Homicidas usaram a convivência para circular sem levantar suspeitas e acompanhar trabalho policial

Enquanto familiares e vizinhos procuram respostas para um desaparecimento ou uma morte violenta, não é incomum que o responsável pelo crime acompanhe os desdobramentos de perto. Casos registrados em Mato Grosso do Sul chamaram a atenção por um detalhe em comum: o principal suspeito era alguém que convivia com a vítima.
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Casos recentes em Mato Grosso do Sul revelam um padrão investigativo preocupante: suspeitos de homicídio que permanecem próximos às investigações. Em dois episódios, no Assentamento Conquista e em Naviraí, os principais suspeitos acompanharam buscas policiais antes de serem identificados. O delegado Carlos Delano alerta que vínculos entre autor e vítima são comuns e que a participação nas buscas não define suspeição, mas evidências materiais e testemunhais guiam as apurações.
No Assentamento Conquista, entre Campo Grande e Rochedo, o desaparecimento do caseiro Antônio Ormondes Pereira mobilizou moradores da região. Durante as buscas, um dos vizinhos permaneceu ao lado das equipes policiais, conversou com investigadores, ajudou na movimentação da propriedade e aparentava tranquilidade. Horas depois, acabou preso ao confessar participação na ocultação do corpo.
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Em Naviraí, outro caso seguiu roteiro semelhante. Após a morte de Maria do Carmo de Souza, de 66 anos, o vizinho, Pedro Lopes Menezes acionou familiares, afirmou ter encontrado a vítima e chegou a prestar depoimento como testemunha.
No entanto, imagens de câmeras de segurança mostraram que ele entrou na casa com um facão e saiu pouco depois com a arma coberta de sangue. A Polícia Civil confirmou que ambos mantiveram um relacionamento por cerca de dois meses antes do crime.

Embora tenham motivações diferentes, os dois episódios expõem um aspecto recorrente em investigações de homicídio: o autor nem sempre foge. Em muitos casos, permanece no local, acompanha as buscas e tenta construir uma narrativa para afastar suspeitas.
De acordo com o delegado Carlos Delano, que atuou e foi titular da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios e de Proteção à Pessoa) por cinco anos, durante o trabalho policial que parte do princípio de que todas as hipóteses devem ser consideradas até que as provas indiquem o caminho da investigação.
"Quando uma investigação de homicídio começa, o princípio aplicado é que todo ser humano é um homicida em potencial. As provas vão compondo um mosaico que leva a conclusões que não podem ser desconsideradas apenas porque o suspeito tem alguma proximidade com a vítima", disse.
Apesar disso, ele explica que, quando existe algum vínculo entre autor e vítima é comum que essa pessoa permaneça próxima da investigação. “Nos casos em que atuei, quase sempre os infratores mostraram-se dispostos a ajudar de alguma forma. Fazendo buscas, indo à delegacia registrar boletim de desaparecimento. Não raro também publicam conteúdos nos perfis das vítimas para criar a impressão de que elas ainda estão vivas", detalhou.


Segundo o delegado, essa proximidade também costuma facilitar a execução do crime, visto que na maior parte das vezes, a proximidade é fator determinante para a execução do crime. "Na apuração isso também interfere. Muitas vezes há familiares que resistem à ideia de ter alguém querido e próximo como autor", explicou o delegado.
A polícia alerta que o fato de alguém participar ativamente das buscas ou demonstrar interesse no caso não a transforma automaticamente em suspeita. A avaliação técnica é baseada em um conjunto de evidências materiais e testemunhais, e não em atitudes isoladas.
“Não são todos que insistem em participar que são tomados por suspeitos. A avaliação é feita a partir de um conjunto de evidências e não de um comportamento isolado", enfatizou Delano.
Este padrão de comportamento também foi registrado em 2020, no assassinato de Carla Santana Magalhães, de 25 anos, em Campo Grande. Na ocasião, a vítima não mantinha relacionamento afetivo com o autor; a única ligação entre eles era a proximidade física, pois eram vizinhos de muro.
O criminoso também demonstrou aparente solidariedade logo após o crime. O caso foi enquadrado como feminicídio por menosprezo à condição de mulher.
Para o delegado, esses tipos de casos reforçam a ideia de que qualquer pessoa é um homicida em potencial. "Devemos estar alertas e prontos para estabelecer limites para deixar a convivência quando deixar de ser saudável. Isso é uma ótima medida de segurança", finalizou.
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