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De máscaras a termômetros, Major Carvalho usou pandemia para esconder tráfico

A descoberta foi feita pela Polícia Federal ao longo das investigações da que prendeu a irmã do ex-policial

Por Geisy Garnes | 13/01/2022 16:09
Sérgio Roberto de Carvalho (ao centro) durante julgamento por lavagem de dinheiro em Mato Grosso do Sul. (Foto: Arquivo)
Sérgio Roberto de Carvalho (ao centro) durante julgamento por lavagem de dinheiro em Mato Grosso do Sul. (Foto: Arquivo)

De imóveis milionários no exterior até cargas com máscaras e materiais hospitalares usados no combate a disseminação do coronavírus. Assim, o ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como Major Carvalho, camuflava o dinheiro adquirido com a venda de toneladas de cocaína saídas do Brasil para a Europa.

A descoberta foi feita pela Polícia Federal ao longo das investigações da Operação Enterprise, realizada em vários estados brasileiros no dia 23 de novembro de 2020. Até essa data, a compra de imóveis milionários no Brasil e fora dele não eram novidades para as equipes de investigação.

Diversas transações bancárias referentes à compra de mansões na Espanha e em Portugal foram interceptadas pela Polícia Federal durante as investigações. O nome que aparecia como proprietário dos imóveis, no entanto, era uma das muitas identidades falsas usadas por Major Carvalho: Paul Wouter.

No entanto, com a operação e a prisão da irmã de Major Carvalho, Lucimara Carvalho, um novo “nicho de mercado” da organização criminosa foi descoberto. Mensagens encontradas no celular da mulher constataram a compra de milhões de máscaras e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) da China.

A interceptação telefônica realizada pela Polícia Federal foi divulgada pelo colunista do portal UOL, Josmar Jozino. Segundo matéria publicada nesta quinta-feira (13), Major Carvalho usou a pandemia para lavar dinheiro do tráfico de cocaína para Portugal, Espanha, Itália, Bélgica, Holanda e Alemanha.

Por WhatsApp, os irmãos negociaram com uma mulher identificada por eles como Kelly, direto da China. Seguindo as ordens do ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, Lucimara garantiu a importação de milhares de equipamentos de teste para covid-19, máscaras de proteção e termômetros.

A carga chegou ao Brasil em junho de 2020, no Boeing 747-400F, em um cargueiro de 400 toneladas, que pousou no Aeroporto Internacional de Florianópolis com a descrição de que os produtos haviam sido adquiridos por um importador privado.

Nas mensagens interceptadas pela polícia, no entanto, fotos da aeronave em um aeroporto da China foram encontradas nas conversas entre as duas mulheres. Armazenados no aparelho de Lucimara, também estavam prints e documentos judiciais sobre uma “ação contra o estado de São Paulo referente ao aparente cancelamento de uma nota de empenho de R$ 104,4 milhões para compra de 36 milhões de máscaras de proteção”.

Para a Polícia Federal, o documento prova que a organização criminosa tentou vender os equipamentos contra covid-19 comprados na China com dinheiro do tráfico para o Estado de São Paulo. O negócio só não foi concluído, segundo os relatórios de investigação, por conta de um atraso na entrega e, consequentemente, a rescisão do contrato.

Lucimara é apontada como integrante do núcleo financeiro da organização e hoje, cumpre prisão domiciliar.

Avião usado no esquema de lavagem de dinheiro com EPIs. (Foto: Reprodução UOL)
Avião usado no esquema de lavagem de dinheiro com EPIs. (Foto: Reprodução UOL)

Quem é Major Carvalho? – Considerado o “Escobar brasileiro”, em referência ao narcotraficante Pablo Escobar, Sérgio Roberto de Carvalho lidera hoje uma grande organização criminosa “de hierarquia descentralizada”, especializada no tráfico de drogas marítimo, terrestre e aéreo.

Conforme as investigações policiais, ele é o responsável por gerenciar remessas de grandes carregamentos de cocaína para a Europa e cuida tanto do contato com os fornecedores, como do recebimento seguro das cargas.

Além de administrar o envio da cocaína pelos portos brasileiros, também está envolvido na aquisição de embarcações pesqueiras, aeronaves, criação fictícia de empresa em nome de terceiros, no uso de documentos falsos e na ocultação de bens. Tudo para garantir o pleno exercício do tráfico, sem chamar atenção das autoridades do País.

Hoje, Major Carvalho controla, pelo menos seis, organizações criminosas que atuam em diversas regiões do Brasil. Esses grupos atuam de forma interligada na logística de fornecimento, transporte e exportação dos carregamentos de cocaína por portos internacionais do País.

São eles: Grupo Marcio Cristo, liderado por Marcio Luiz Cristo e Luiz Carlos Bonzato Sgarioni e o Grupo Zoio, liderado por Jorge Santos Zela e Mauricio Luis Pinheiro Rodrigues, ambos com atuação em Paranaguá; o Grupo Logístico, liderado por Marlindo Ferreira da Silva e Nildo Vital de Oliveira, em São Paulo; o Grupo Frutas Nordeste e o Grupo Barcos Natal e, por fim, o Grupo Rio Preto.

Os dois primeiros grupos atuam na exportação de carregamentos de cocaína para vários países da Europa com métodos diversos: desde a ocultação em contêineres até a ocultação em cargas e máquinas. Os integrantes mantêm um alto padrão de vida, com ostentação e luxo.

O Grupo Logístico concentra a maior parte do fornecimento dos carregamentos de cocaína para os outros grupos que integram a organização criminosa em vários estados, com especialização no depósito dos carregamentos em barracões locados com documentos falsos e transporte em veículos preparados com compartimentos ocultos.

Frutas do Nordeste e Barcos Natal cuidam do transporte de drogas pelo mar. Os grupos são especialistas na ocultação dos carregamentos em cargas industriais até o transporte marítimo em grandes embarcações de pesca. Por último, o Rio Preto é responsável pelo tráfico aéreo. Cuidam da distribuição de carregamentos de cocaína em aviões, da parte documental de despachos aduaneiros de exportações de cargas ocultando grandes carregamentos da droga e da compra de aeronaves em nome de laranjas.

No centro de tudo isso, está Major Carvalho, que segundo a polícia, é o homem que define “se, quando, onde, de que forma" o tráfico internacional de drogas será efetuado pelos grupos. “Atuação do líder do grupo, por vezes, envolvia desde o contato com os traficantes estabelecidos nos países produtores até mesmo as providências necessárias para o recebimento seguro da droga pelo consumidor final estabelecido na Europa”, diz o relatório feito pela Polícia Federal.

Seus principais aliados, conforme a investigação, são: Marcello Maghenzani, o Rafael, Itelvino Donizete de Oliveira, conhecido como Lu Tai Shun ou Angelo, Shurendy Adelson Quant, o Anderson e Yslanda Maria Alves Barros, a Ysla. Carvalho é procurado e está na lista de difusão vermelha da Interpol (organização internacional de polícia criminal, na sigla em inglês), apesar da defesa tentar anular o processo sob alegação de que ele morreu de covid-19 e foi cremado com identidade falsa.

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