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Cidades

Defesa pessoal começa antes da reação física e pode evitar situações de risco

Especialistas apontam percepção, postura e controle emocional como as principais formas de proteção

Por Inara Silva | 28/07/2026 09:34

Muito antes de ensinar golpes, a defesa pessoal busca preparar mulheres para reconhecer riscos e evitar situações de violência. Especialistas afirmam que desenvolver percepção, controlar as emoções e identificar os primeiros sinais de comportamentos abusivos são estratégias que aumentam as chances de prevenção. Nesse processo, a reação física passa a ser considerada apenas o último recurso.

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Especialistas em defesa pessoal afirmam que o principal aprendizado vai além dos golpes físicos e inclui percepção de risco, controle emocional e identificação de sinais de violência. A reação física é considerada apenas o último recurso. Profissionais que praticam a modalidade relatam mudanças de postura e maior atenção ao ambiente, enquanto instrutores destacam que a violência sempre dá sinais antes de evoluir para agressões físicas.

A advogada Keily da Silva Ferreira, de 40 anos, vivenciou essa mudança. Desde 2019 ela treina jiu-jítsu e já participou de três cursos de defesa pessoal feminina. Embora nunca tenha precisado utilizar as técnicas em uma situação real, afirma que o treinamento mudou a forma como circula pela cidade e encara situações de risco.

"Tomara que eu nunca precise viver uma situação dessa, mas hoje ando muito mais atenta. A defesa pessoal faz com que a gente se antecipe aos riscos e evite o conflito antes que ele aconteça", afirma.

Segundo Keily, a principal transformação foi na postura adotada no dia a dia. Ela passou a caminhar mais atenta ao ambiente, de cabeça erguida e observando as pessoas ao redor. "Quem pretende atacar alguém normalmente procura pessoas distraídas ou que aparentam oferecer pouca resistência. O posicionamento faz diferença e você deixa de ser uma presa fácil", diz.

Para ela, outro diferencial dos cursos é que as aulas vão além das técnicas físicas e abordam a escalada da violência em relacionamentos e também em ambientes profissionais.

"Aprendemos que a agressão física quase nunca é o começo. Antes aparecem comportamentos de controle, mudanças na forma de falar e cobranças excessivas. Identificar esses sinais cedo faz toda a diferença", relata.

Ambiente de trabalho - Os ensinamentos também passaram a fazer parte da rotina profissional da advogada Luiza Maria Tiviroli Canhete, de 25 anos. Ela procurou aulas de defesa pessoal para se sentir mais segura durante os deslocamentos e no exercício da advocacia.

Como conciliadora, Luiza passou a observar rotas de saída antes das audiências e a intervir logo nos primeiros sinais de alteração de comportamento.  "Quando vejo que o comportamento não está adequado, já faço a intervenção. As pessoas costumam se acalmar e conseguimos continuar a audiência", relata.

Ela afirma que o maior aprendizado foi manter a calma e avaliar rapidamente o ambiente diante de situações de tensão.

Defesa pessoal começa antes da reação física e pode evitar situações de risco
Keily da Silva Ferreira ao lado da instrutora Thayse de Moura Ribas (Foto: Arquivo pessoal)

Sinais de violência - Instrutor de defesa pessoal feminina, Vinícius Toscano afirma que um dos principais objetivos dos cursos é ensinar mulheres a identificar situações de risco antes que elas evoluam para agressões.

"A violência sempre deu um sinal. Ela não vem do nada", resume.

Segundo ele, a violência costuma seguir uma escalada. Antes das agressões físicas, são comuns episódios de humilhação, manipulação psicológica, destruição de objetos e tentativas de fazer a vítima acreditar que é responsável pelo comportamento do agressor.

Nos espaços públicos, explica, criminosos costumam aproveitar momentos de distração e vulnerabilidade para agir. Por isso, Vinícius orienta evitar caminhar olhando constantemente para o celular, variar trajetos sempre que possível, observar quem está ao redor e identificar possíveis rotas de saída.

Outro aspecto trabalhado nas aulas é o controle emocional. Diante de uma pessoa alterada, explica o instrutor, reagir com a mesma intensidade pode aumentar o risco de violência. Sempre que possível, a orientação é manter a calma, avaliar o ambiente e buscar uma saída segura.

"A prioridade é sempre evitar o confronto", afirma.

O instrutor conta que muitas mulheres procuram os cursos após viverem episódios de violência doméstica. Entre elas, houve uma aluna que havia sido vítima de cárcere privado e decidiu buscar treinamento para recuperar a confiança e aumentar a sensação de segurança.

Apoio psicológico e jurídico - Além da preparação física, especialistas defendem que romper ciclos de violência também exige apoio psicológico e orientação jurídica. Para a vice-presidente do Instituto Novo Horizonte, Mayara Barros, essas duas abordagens são complementares. Segundo ela, o atendimento psicológico ajuda a mulher a reconhecer o ciclo da violência e fortalece a decisão de romper a relação abusiva. Já a defesa pessoal amplia a sensação de segurança caso ela precise enfrentar uma situação de risco durante esse processo.

"A gente acredita que uma coisa complementa a outra. O ideal é que a mulher esteja preparada, mas nem precise usar a defesa pessoal”, afirma.

Defesa pessoal começa antes da reação física e pode evitar situações de risco
Thayse de Moura Ribas durante aula para mulheres (Foto: Arquivo pessoal)

Dicas para reduzir situações de risco:

Faixa-preta de jiu-jítsu e professora de defesa pessoal feminina há cinco anos em Campo Grande, Thayse de Moura Ribas é instrutora da Luiza e da Keily. A treinadora orienta que pequenas mudanças de comportamento podem aumentar a segurança no dia a dia.

  • Postura: Caminhe com postura ereta, firme e confiante, mantendo o ambiente ao seu alcance visual. Demonstrar segurança reduz a percepção de vulnerabilidade.

  • Distância: Preserve seu espaço pessoal. Em locais como elevadores, filas e pontos de ônibus, mantenha uma distância segura e, se necessário, reposicione-se naturalmente.

  • Atenção: Evite caminhar distraída, especialmente olhando para o celular. Observe quem está ao redor e demonstre estar consciente do ambiente.

  • Mãos protegendo: Ao perceber uma situação suspeita, mantenha as mãos na altura do peito, de forma discreta. A posição protege a cabeça e facilita uma reação rápida, caso seja necessário.

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