Ofensiva contra fraude milionária levou “alta cúpula” da Santa Casa à prisão
Operação investiga prejuízo de R$ 4,9 milhões em contratos de prontuários e do plano de saúde
A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram presas nesta sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum, deflagrada para investigar fraudes e desvios de pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos ligados ao maior hospital de Mato Grosso do Sul.
RESUMO
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A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram presas na sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum, que investiga fraudes e desvios de pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos do maior hospital de Mato Grosso do Sul. A operação foi conduzida pelo Gecoc e pelo Gaeco, que cumpriram 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Além de Alir, foram presos Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Maurício Aparecido Benites, Alessandro Dias Junqueira e Monique Gregório de Oliveira, conforme confirmado pelo Campo Grande News nesta tarde.
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Alir, que é advogada, foi encaminhada para uma cela especial no Presídio Militar. Paulo Guilherme Mariosa também foi levado para a unidade militar. Os outros quatro presos permaneceram na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada).
A ofensiva também cumpriu hoje 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
A operação foi conduzida pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). O Batalhão de Choque da Polícia Militar deu apoio às equipes.
Quem é quem? – Alir Terra Lima é advogada e presidente da Santa Casa de Campo Grande pelo segundo mandato à frente da instituição. Foi eleita pela primeira vez em 2022, tomou posse em janeiro de 2023 e foi reconduzida ao cargo em 2025.
Outros membros da direção do hospital estão entre os presos: o diretor administrativo Alessandro Junqueira, o diretor financeiro Rinaldo Romero, o de adjunto de finanças Paulo Guilherme e Monique Gregório, supervisora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística.
Já Maurício Aparecido Benites é empresário, dono de prestadora de serviços de digitalização na Santa Casa. A investigação ainda não detalhou qual seria a participação de cada um deles no esquema.
Apesar da identificação dos seis presos, o processo está sob sigilo. Por isso, ainda não foram divulgadas as acusações individualizadas nem os fundamentos usados pela Justiça para decretar cada prisão preventiva.
Contrato sob suspeita – Um dos núcleos investigados envolve um contrato firmado pela ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) para a digitalização de prontuários médicos.
O acordo previa o pagamento de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), houve pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços.
Somente no primeiro ano de vigência, o suposto desvio teria alcançado R$ 1,4 milhão. O Ministério Público ainda não informou quando o contrato foi assinado, qual empresa foi contratada, quanto já havia sido pago ou qual parte do serviço foi efetivamente entregue.
Operadora pagou R$ 9,6 milhões – A segunda frente da Antidotum investiga contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação responsável pelo hospital.
Conforme o MPMS, a operadora contratou diversas empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. O proprietário dessas empresas teria ligações com a direção da Santa Casa.
As companhias apareciam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel indicado nos cadastros estava desocupado, segundo os investigadores.
Somente em 2025, a Santa Casa Saúde teria pago aproximadamente R$ 9,6 milhões a essas empresas. O prejuízo calculado nesse conjunto de contratos é de, no mínimo, R$ 3,5 milhões.
A apuração também identificou indícios de que contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente omitidos dos órgãos de fiscalização. Segundo o Ministério Público, as informações não eram apresentadas ao Conselho Fiscal da Santa Casa ou à Controladoria-Geral do Estado.
A operação – A movimentação policial começou nas primeiras horas desta sexta-feira. Equipes chegaram à Santa Casa para o cumprimento de mandado de busca e apreensão. Promotores, policiais e agentes circularam pelos corredores do hospital.
Malas com equipamentos para extração de dados foram levadas para dentro do prédio e as diligências se concentraram principalmente no setor financeiro. A informação obtida no local foi de que funcionários foram retirados temporariamente da área para permitir o trabalho das equipes.
A equipe da operação deixou a sede da Santa Casa Saúde por volta das 13h. Agentes do Gaeco e do Gecoc deixaram o local carregando malotes e bolsas com materiais apreendidos. Os volumes foram colocados nos veículos da operação. O MPMS ainda não detalhou se foram recolhidos documentos, celulares, computadores ou outros equipamentos eletrônicos.
Empresas também foram vasculhadas. O imóvel empresarial na Avenida Mato Grosso, onde funcionam a Dr. Smart Saúde e a Santa Cruz Saúde, foi um dos alvos, além da empresa de tecnologia.
Defesas – Por volta das 12h50, o advogado Leandro Gregório foi à delegacia acompanhar a situação de Monique, sua cliente. Segundo ele, a defesa ainda não havia conseguido acesso à decisão que determinou a prisão preventiva. O advogado afirmou que tentou protocolar a procuração no processo indicado no mandado, mas o sistema ainda não havia liberado os documentos.
Leandro acompanhou as buscas na casa de Monique e disse que nenhum objeto ilícito foi encontrado. Conforme a defesa, os agentes apreenderam um caderno e um tablet, e as senhas solicitadas foram fornecidas. “Ela está disposta a colaborar com as autoridades e mantém uma postura tranquila, aguardando que a situação se esclareça”, afirmou.
O advogado Fábio Leandro, que representa Maurício Aparecido Benites, também afirmou que não havia conseguido acessar os autos e a decisão judicial. Ele compareceu à delegacia a pedido da família. Segundo o defensor, o cliente nega ter executado ou cobrado serviços de forma irregular. “O Maurício está tranquilo e afirma que nenhum serviço foi feito de maneira ilegal ou cobrado de forma ilegal. Tudo será comprovado no processo a partir do momento em que ele e a defesa tenham acesso às alegações do Ministério Público”, declarou.
Até a publicação desta matéria, as defesas dos demais presos não haviam se manifestado individualmente.

Crise – A Antidotum foi deflagrada enquanto a Santa Casa enfrenta dificuldades para manter serviços e procedimentos médicos. No início de setembro, o hospital voltou a suspender cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais por problemas relacionados à disponibilidade de insumos e à composição das equipes médicas.
Em novembro de 2025, o MPMS ajuizou uma ação civil pública contra a Santa Casa, o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Campo Grande. O processo cobrava um plano conjunto para regularizar os serviços contratados pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Na época, o Ministério Público apontou falta de medicamentos, dificuldades no fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais, problemas no setor de anestesiologia, superlotação do pronto-socorro e riscos aos atendimentos de média e alta complexidade.
Nos dias 24 e 28 de agosto deste ano, representantes do MPMS, da Santa Casa e das secretarias estadual e municipal de Saúde participaram de reuniões emergenciais. O objetivo era evitar a interrupção de serviços por falta de medicamentos, gases medicinais, materiais e exames laboratoriais.
O que diz a Santa Casa – Em nota, a Santa Casa informou que está atendendo às autoridades responsáveis pela operação e permanece à disposição para fornecer informações e esclarecimentos.
A instituição declarou que aguarda acesso aos autos para conhecer oficialmente o conteúdo das acusações e, depois disso, apresentar uma manifestação detalhada. “A Santa Casa reforça que os atendimentos à população seguem normalmente, sem qualquer prejuízo à assistência aos pacientes”, informou.
O nome Antidotum vem do latim e significa antídoto. No sentido figurado, a expressão representa uma medida destinada a neutralizar um problema.



