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Capital

Ofensiva contra fraude milionária levou “alta cúpula” da Santa Casa à prisão

Operação investiga prejuízo de R$ 4,9 milhões em contratos de prontuários e do plano de saúde

Por Anahi Zurutuza, Clara Farias e Dayene Paz | 11/09/2026 16:12
Ofensiva contra fraude milionária levou “alta cúpula” da Santa Casa à prisão
Alir discursa durante cerimônia de posse em 2023 (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram presas nesta sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum, deflagrada para investigar fraudes e desvios de pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos ligados ao maior hospital de Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram presas na sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum, que investiga fraudes e desvios de pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos do maior hospital de Mato Grosso do Sul. A operação foi conduzida pelo Gecoc e pelo Gaeco, que cumpriram 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.

Além de Alir, foram presos Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Maurício Aparecido Benites, Alessandro Dias Junqueira e Monique Gregório de Oliveira, conforme confirmado pelo Campo Grande News nesta tarde.

Alir, que é advogada, foi encaminhada para uma cela especial no Presídio Militar. Paulo Guilherme Mariosa também foi levado para a unidade militar. Os outros quatro presos permaneceram na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada).

A ofensiva também cumpriu hoje 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).

A operação foi conduzida pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). O Batalhão de Choque da Polícia Militar deu apoio às equipes.

Quem é quem? – Alir Terra Lima é advogada e presidente da Santa Casa de Campo Grande pelo segundo mandato à frente da instituição. Foi eleita pela primeira vez em 2022, tomou posse em janeiro de 2023 e foi reconduzida ao cargo em 2025.

Outros membros da direção do hospital estão entre os presos: o diretor administrativo Alessandro Junqueira, o diretor financeiro Rinaldo Romero, o de adjunto de finanças Paulo Guilherme e Monique Gregório, supervisora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística.

Já Maurício Aparecido Benites é empresário, dono de prestadora de serviços de digitalização na Santa Casa. A investigação ainda não detalhou qual seria a participação de cada um deles no esquema.

Apesar da identificação dos seis presos, o processo está sob sigilo. Por isso, ainda não foram divulgadas as acusações individualizadas nem os fundamentos usados pela Justiça para decretar cada prisão preventiva.

Ofensiva contra fraude milionária levou “alta cúpula” da Santa Casa à prisão
Momento que equipe da operação deixa Santa Casa com malote cheio (Foto: Clara Farias)

Contrato sob suspeita – Um dos núcleos investigados envolve um contrato firmado pela ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) para a digitalização de prontuários médicos.

O acordo previa o pagamento de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), houve pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços.

Somente no primeiro ano de vigência, o suposto desvio teria alcançado R$ 1,4 milhão. O Ministério Público ainda não informou quando o contrato foi assinado, qual empresa foi contratada, quanto já havia sido pago ou qual parte do serviço foi efetivamente entregue.

Operadora pagou R$ 9,6 milhões – A segunda frente da Antidotum investiga contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação responsável pelo hospital.

Conforme o MPMS, a operadora contratou diversas empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. O proprietário dessas empresas teria ligações com a direção da Santa Casa.

As companhias apareciam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel indicado nos cadastros estava desocupado, segundo os investigadores.

Somente em 2025, a Santa Casa Saúde teria pago aproximadamente R$ 9,6 milhões a essas empresas. O prejuízo calculado nesse conjunto de contratos é de, no mínimo, R$ 3,5 milhões.

A apuração também identificou indícios de que contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente omitidos dos órgãos de fiscalização. Segundo o Ministério Público, as informações não eram apresentadas ao Conselho Fiscal da Santa Casa ou à Controladoria-Geral do Estado.

A operação – A movimentação policial começou nas primeiras horas desta sexta-feira. Equipes chegaram à Santa Casa para o cumprimento de mandado de busca e apreensão. Promotores, policiais e agentes circularam pelos corredores do hospital.

Malas com equipamentos para extração de dados foram levadas para dentro do prédio e as diligências se concentraram principalmente no setor financeiro. A informação obtida no local foi de que funcionários foram retirados temporariamente da área para permitir o trabalho das equipes.

A equipe da operação deixou a sede da Santa Casa Saúde por volta das 13h. Agentes do Gaeco e do Gecoc deixaram o local carregando malotes e bolsas com materiais apreendidos. Os volumes foram colocados nos veículos da operação. O MPMS ainda não detalhou se foram recolhidos documentos, celulares, computadores ou outros equipamentos eletrônicos.

Empresas também foram vasculhadas. O imóvel empresarial na Avenida Mato Grosso, onde funcionam a Dr. Smart Saúde e a Santa Cruz Saúde, foi um dos alvos, além da empresa de tecnologia.

Defesas – Por volta das 12h50, o advogado Leandro Gregório foi à delegacia acompanhar a situação de Monique, sua cliente. Segundo ele, a defesa ainda não havia conseguido acesso à decisão que determinou a prisão preventiva. O advogado afirmou que tentou protocolar a procuração no processo indicado no mandado, mas o sistema ainda não havia liberado os documentos.

Leandro acompanhou as buscas na casa de Monique e disse que nenhum objeto ilícito foi encontrado. Conforme a defesa, os agentes apreenderam um caderno e um tablet, e as senhas solicitadas foram fornecidas. “Ela está disposta a colaborar com as autoridades e mantém uma postura tranquila, aguardando que a situação se esclareça”, afirmou.

O advogado Fábio Leandro, que representa Maurício Aparecido Benites, também afirmou que não havia conseguido acessar os autos e a decisão judicial. Ele compareceu à delegacia a pedido da família. Segundo o defensor, o cliente nega ter executado ou cobrado serviços de forma irregular. “O Maurício está tranquilo e afirma que nenhum serviço foi feito de maneira ilegal ou cobrado de forma ilegal. Tudo será comprovado no processo a partir do momento em que ele e a defesa tenham acesso às alegações do Ministério Público”, declarou.

Até a publicação desta matéria, as defesas dos demais presos não haviam se manifestado individualmente.

Ofensiva contra fraude milionária levou “alta cúpula” da Santa Casa à prisão
Fachada do prédio da Santa Casa em Campo Grande, o maior hospital de MS (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

Crise – A Antidotum foi deflagrada enquanto a Santa Casa enfrenta dificuldades para manter serviços e procedimentos médicos. No início de setembro, o hospital voltou a suspender cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais por problemas relacionados à disponibilidade de insumos e à composição das equipes médicas.

Em novembro de 2025, o MPMS ajuizou uma ação civil pública contra a Santa Casa, o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Campo Grande. O processo cobrava um plano conjunto para regularizar os serviços contratados pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Na época, o Ministério Público apontou falta de medicamentos, dificuldades no fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais, problemas no setor de anestesiologia, superlotação do pronto-socorro e riscos aos atendimentos de média e alta complexidade.

Nos dias 24 e 28 de agosto deste ano, representantes do MPMS, da Santa Casa e das secretarias estadual e municipal de Saúde participaram de reuniões emergenciais. O objetivo era evitar a interrupção de serviços por falta de medicamentos, gases medicinais, materiais e exames laboratoriais.

O que diz a Santa Casa – Em nota, a Santa Casa informou que está atendendo às autoridades responsáveis pela operação e permanece à disposição para fornecer informações e esclarecimentos.

A instituição declarou que aguarda acesso aos autos para conhecer oficialmente o conteúdo das acusações e, depois disso, apresentar uma manifestação detalhada. “A Santa Casa reforça que os atendimentos à população seguem normalmente, sem qualquer prejuízo à assistência aos pacientes”, informou.

O nome Antidotum vem do latim e significa antídoto. No sentido figurado, a expressão representa uma medida destinada a neutralizar um problema.