Mesmo com agro endividado, Mato Grosso do Sul mantém inadimplência baixa no FCO
Menor que a média regional, taxa de 0,76% no Estado fica atrás apenas do DF no índice de parcelas vencidas
Em meio ao elevado endividamento do agronegócio brasileiro, Mato Grosso do Sul registrou a segunda menor taxa de inadimplência nas operações do FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste) entre as unidades federativas da região, até 31 de julho deste ano. O Estado ficou atrás apenas do Distrito Federal.
RESUMO
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Mato Grosso do Sul registrou a segunda menor taxa de inadimplência nas operações do FCO entre os estados do Centro-Oeste, com índice de 0,76% até julho de 2026, abaixo da média regional de 0,83%. O bônus de adimplência de 15% e o rigor na concessão de crédito pelo Banco do Brasil são apontados como fatores determinantes para o resultado, segundo economista da Agricon Consultoria.
Com saldo de R$ 15,5 bilhões em parcelas vincendas e R$ 117,7 milhões em parcelas vencidas, a taxa de inadimplência em Mato Grosso do Sul foi de 0,76%, abaixo da média de 0,83% registrada no Centro-Oeste. Os dados constam do relatório do Banco do Brasil sobre as operações do FCO realizadas até julho, ao qual o Campo Grande News teve acesso. Além de Mato Grosso do Sul, o fundo atende Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal.
O documento não informa se a inadimplência considera operações com atraso superior a 90 dias, critério utilizado em alguns indicadores do mercado financeiro. No Estado, 80% das operações têm atendido o setor agropecuário. Os 20% restantes atendem a área empresarial.
Entre os estados com maior produção agropecuária, Goiás lidera a inadimplência, com R$ 185,042 milhões em parcelas vencidas, o equivalente a 0,93% do saldo total de R$ 19,799 bilhões. Desse montante, R$ 19,614 bilhões são de parcelas vincendas.
Em seguida aparece Mato Grosso, com R$ 183,982 milhões em parcelas vencidas e inadimplência de 0,84%. No Estado vizinho, o saldo das parcelas vincendas era de R$ 21,648 bilhões, conforme tabela abaixo.

Sob a gestão do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o FCO é uma linha de crédito para ampliar o dinamismo das atividades produtivas do Centro-Oeste, com taxas de juros competitivas e prazo de pagamento que pode chegar a 20 anos.
Em julho, o saldo acumulado dos empréstimos do FCO era de R$ 63,132 bilhões. Desse montante, R$ 526,149 milhões correspondiam a parcelas vencidas, com inadimplência de 0,83%.

O diretor da Agricon Consultoria, o economista Fábio Ferreira Júnior, analisou os dados e considerou baixa a inadimplência nas operações do fundo quando comparada às taxas registradas no mercado bancário, em torno de 5% na carteira global do sistema financeiro.
No balanço do segundo trimestre deste ano do Banco do Brasil, principal operador do FCO, a inadimplência do agronegócio com atraso superior a 90 dias chegou a 6,27% da carteira rural, contra 3,16% um ano antes. O BB tinha uma carteira de agro de R$ 421,6 bilhões em junho.
“O que precisa observar é a tendência do indicador de inadimplência das operações do FCO. Ou seja, se o índice está em alta ou em queda”, defende o economista. O relatório de 46 páginas não detalha o histórico de inadimplência do crédito do FCO.
Bônus de adimplência

O diretor da consultoria atribuiu o baixo índice de inadimplência das operações de crédito do FCO, principalmente em Mato Grosso do Sul, ao bônus de adimplência, que reduz em 15% os juros para quem paga as parcelas em dia.
“Isso também estimula o tomador a manter os pagamentos em dia”, avalia.
Em vigor no FCO Rural desde 2024, pelo menos, o bônus foi mantido na última resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) para operações contratadas entre 15 de julho de 2026 e 30 de junho de 2027. A ideia é estimular a adimplência e poder contribuir para que o produtor mantenha a capacidade de pagamento dos empréstimos.
O economista chama também a atenção para o rigor adotado pelas próprias instituições financeiras que operam o crédito FCO, como o Banco do Brasil, que têm adotado regras mais criteriosas na concessão dos financiamentos. Em julho, o saldo da carteira de risco assumido pelo BB no FCO alcançou R$ 58,5 bilhões, conforme o relatório.
“O Banco do Brasil, por exemplo, é muito mais criterioso para conceder um crédito com recursos do FCO do que para conceder um crédito próprio, porque está trabalhando com um recurso que vem do governo federal e que não é dele. Então, precisa fazer uma gestão mais cuidadosa”.
Empréstimos menores
Em Mato Grosso do Sul, individualmente, de janeiro a julho, as operações somavam R$ 1,625 bilhão, distribuídos entre 6.118 operações em 79 municípios. Do total acumulado neste ano, R$ 1,171 bilhão foram destinados a 5.249 operações de produtores rurais. Outros R$ 453,639 milhões foram contratados pelo setor empresarial.
Os empréstimos para o agronegócio que no mês de junho somaram R$ 211,4 milhões caíram 36,05% em julho, para R$ 135,2 milhões, conforme a tabela regional abaixo.

Já em todo o Centro-Oeste, as operações de janeiro a julho acumulavam 24.671 operações, totalizando empréstimos de R$ 6,924 bilhões distribuidos entre Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal.
O orçamento do FCO programado este ano para Mato Grosso do Sul, individualmente, é de R$ 3,02 bilhões, segundo as previsões da Agricon Consultoria. Para todo o Centro-Oeste, conforme o relatório do FCO, o orçamento previsto é de R$ 15,959 bilhões, dos quais R$ 10,848 bilhões já autorizados para empréstimos imediatos. Tradicionalmente, Goiás e Mato Grosso concentram as maiores parcelas regionais do fundo de fomento do Centro-Oeste.
Os recursos são provenientes de duas fontes. Da verba prevista para este ano, R$ 7,985 bilhões provêm do retorno dos financiamentos do próprio FCO, que funciona, em parte, como fundo rotativo. Outra parcela, de R$ 6,19 bilhões, corresponde a repasses do Tesouro Nacional.
O esforço é para que o crédito previsto para este ano seja desembolsado integralmente ao longo de 2026. Os recursos ainda disponíveis serão remanejados até 30 de setembro, considerando as contratações realizadas até 31 de agosto, para atender à demanda pelo crédito. Ou seja, recursos ainda disponíveis para um setor, como o industrial, por exemplo, podem ser remanejados para o setor rural a depender da demanda e das análises do Conselho.
Conjuntura
O economista analisou a demanda pelo crédito no Estado e apontou o pessimismo que ronda a economia nacional diante da Selic, atualmente em 14% ao ano, que encarece as taxas praticadas no mercado, além das ameaças inflacionárias. Apesar disso, a inflação oficial, medida pelo IPCA, dá sinais de desaceleração, embora ainda permaneça acima do centro da meta.
Em Mato Grosso do Sul, porém, a economia tem crescido acima da média nacional, impulsionada por várias cadeias que se desenvolvem no Estado, entre elas a agroindústria e o setor de celulose, que, na prática, estimula a procura pelo crédito do FCO e todo o dinamismo econômico local.


