Filha revive luto após violação de túmulo; MS teve 17 casos em 5 anos
Polícia investiga crime de vilipêndio de cadáver após feminicídio em Eldorado
Nos últimos cinco anos, Mato Grosso do Sul registrou 17 casos de vilipêndio de cadáver. Um deles, em Eldorado, transformou o luto de uma família em um novo trauma dias após um feminicídio.
RESUMO
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Em Mato Grosso do Sul, 17 casos de vilipêndio de cadáver foram registrados entre 2021 e 2025. O caso mais recente ocorreu em Eldorado, onde o corpo de Vera Lucia da Silva, morta a tiros pelo ex-companheiro, foi desenterrado e violado três dias após o enterro, com indícios de necrofilia. A filha, Letícia Gabrielly, afirmou que foi como perder a mãe pela segunda vez. A Polícia Civil investiga o caso e ninguém foi preso.
“Foi como perder minha mãe pela segunda vez”, diz a filha de Vera Lucia da Silva.
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A frase resume o que Letícia Gabrielly ainda tenta assimilar. A mãe foi assassinada no último domingo (12), dentro de casa, pelo ex-companheiro. Três dias depois, o corpo foi desenterrado e violado no cemitério da cidade, em um caso investigado com indícios de necrofilia.
“Ainda não caiu a ficha de que minha mãe está morta. E aí vem isso... é como se tudo começasse de novo”, relata.
A dor, segundo ela, se mistura com revolta. “Eu não sei nem a palavra para dar para tudo isso. É um desrespeito, uma falta de empatia, uma falta de humanidade. De todo mundo.”
Ao falar de Vera, a filha tenta resgatar a imagem que, segundo ela, está sendo distorcida. “Todo mundo gostava dela. Ela era muito fácil de fazer amizade. Sempre foi muito alegre, nunca estava triste.”
A lembrança vem acompanhada do peso da ausência. “Ficaram quatro filhos, uma mãe, um pai, irmãos, sobrinhos... ficou muita gente sofrendo por toda essa barbaridade.”
Depois de perder tanto, ela não acredita em encontrar uma verdadeira justiça, mas pede por respeito. “Eu só quero respeito. Respeito pela minha família. Respeito pela trajetória dela.”
Violência que ultrapassa a morte - O caso de Eldorado não é isolado. Embora pouco frequente, o vilipêndio de cadáver aparece de forma recorrente no Estado ao longo dos anos.
Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) apontam 17 registros entre 2021 e 2025. Só em 2023, foram seis ocorrências em cidades como Campo Grande, Itaquiraí, Mundo Novo e Porto Murtinho. Em 2025, três casos foram registrados apenas na Capital.
A distribuição mostra que o crime não se concentra em uma única região. Há registros também em Paranaíba, Sete Quedas, Sidrolândia, Brasilândia e Paraíso das Águas.
Mais do que números, episódios anteriores ajudam a dimensionar a gravidade.
Em 2019, um caso chocou o Estado quando o corpo de Rosilei Potronieli, de 37 anos, foi furtado do cemitério de Dois Irmãos do Buriti dois dias após o enterro. A vítima, assassinada a facadas, foi encontrada enterrada em uma chácara de difícil acesso, em Campo Grande, apenas com roupas íntimas.
Quatro anos depois, em 2023, outra família passou por situação semelhante. Em Campo Grande, parentes descobriram que o túmulo de um homem havia sido revirado e o crânio levado. A violação só veio à tona após um vídeo circular em grupos de mensagens.
Para Letícia, o que mais revolta é que o crime aconteceu em um espaço que deveria representar o oposto. “Cemitério deveria ser um lugar de paz, respeito e segurança. A gente sabe que não dá para controlar todo mundo, mas dá para evitar essas barbaridades.”
Ela diz que já tinha ouvido falar de um caso semelhante no passado, ainda na infância, e que nunca imaginou viver algo parecido. Agora, sem conseguir mensurar a dimensão do que aconteceu, tenta transformar a dor em propósito.
“Eu não espero nada. Mas eu quero justiça. Justiça pelas mulheres que sofrem todo dia. Isso virou meu objetivo de vida.”
O caso - Vera Lucia da Silva tinha 41 anos e trabalhava na Secretaria Municipal de Educação. Foi morta com dois tiros dentro da própria casa, no Bairro Jardim Novo Eldorado.
O autor, ex-companheiro com quem manteve relacionamento por 13 anos, tirou a própria vida logo após o crime. A filha do casal, de 9 anos, presenciou a cena.
Segundo apurado, o relacionamento era marcado por histórico de violência doméstica, e a vítima já havia solicitado medida protetiva.
Três dias depois, o corpo foi violado no cemitério do município. A Polícia Civil investiga o caso. Até o momento, ninguém foi preso.
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