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Campo Grande, Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

24/09/2019 21:33

MS é o 2º Estado onde mais se matam indígenas e 1º em número de suicídios

Documento também cita aumento de invasões de terras

Jonas Valente, da Agência Brasil
Índios Guarani e Kaiowá em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)Índios Guarani e Kaiowá em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)

Mato Grosso do Sul é o 2ª Estado do país onde mais são assassinados indígenas, segundo o relatório "Violência contra os Povos Indígenas do Brasil" de 2018, feito pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

Foram contabilizados 38 homicídios, atrás de Roraima onde foram executados 62 indígenas. Ainda conforme o relatório o número de assassinatos de indígenas no Brasil aumentou de 110, em 2017, para 135, em 2018, um crescimento de 22,7%.

O Estado também assume a liderança indigesta, quando contabilizados os números de suicídios. Dos 101 suicídios em todo o país no ano de 2018, 44 ocorreram em Mato Grosso do Sul e 36 no Amazonas. No ano anterior ao levantamento, 31 indígens se mataram em Mato Grosso do Sul, um aumento de 41%.

As informações foram levantadas a partir de mapeamento de casos em todo o país e compiladas em um documento que foi lançado hoje (24) na sede da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em Brasília.

Em episódios classificados como “violência contra a pessoa”, o levantamento listou no ano passado 22 tentativas de assassinato, 18 homicídios culposos, 15 episódios de violência sexual, 17 casos de racismo e discriminação étnico-racial, 14 ameaças diversas, 11 situações de abuso de poder e oito ameaças de morte.

Invasões

A pesquisa também mapeou invasões de terras indígenas, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio dessas populações. Em 2018, a equipe responsável contabilizou 111 situações como essas. O número foi maior do que o registrado em 2017, quando o Cimi reconheceu 96 situações semelhantes.

No lançamento do documento, foram apresentados dados parciais relativos a 2019 até o mês de setembro. Segundo a entidade, foram mapeados 160 casos de invasão de terra ou exploração ilegal de recursos em 153 terras indígenas.

Conforme os responsáveis pelo estudo, se essas formas de violação contra os territórios ocorrem há décadas, recentemente muitos invasores deixaram de somente explorar ilegalmente os recursos (como apenas retirada de madeira) e passaram a se apropriar das áreas, por meio de práticas de grilagem e loteamento de parte dos territórios, por exemplo.

O documento cita as terras indígenas Arariboia, no Maranhão, e Karipuna e Uru Eu Wau Wau, em Rondônia. Outro problema é a implantação de garimpos ilegais. De acordo com o Cimi, um exemplo é a terra indígena Munduruku, no Pará.

“O madeireiro entra, limpa a terra, tira a madeira e a área passa a ser destinada à especulação imobiliária. É a prática do fato consumado. Retira da terra o que ela tem para oferecer e repassa para o grileiro, que vai lutar para que esta área seja legalizada. E o Estado desestrutura os órgãos que deveriam coibir as invasões de terra”, pontuou Roberto Liebgott, um dos autores da pesquisa.

Demarcação

O relatório lista 821 casos de “omissão e morosidade na regularização das terras” e 11 conflitos envolvendo direitos territoriais. De acordo com o Cimi, de 1.290 terras indígenas no Brasil, 821 (63%) teriam o que a organização chama de “alguma pendência do Estado para a finalização do processo demarcatório".

O cacique Suruí, do povo Pataxó e aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), afirmou o caráter originário dos povos e pediu a demarcação de terras indígenas. “Estamos no Brasil desde muito antes de Cabral. Nós somos os primeiros brasileiros, não somos os últimos. Estamos lutando por demarcação.”

Os representantes do conselho comentaram o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Asssembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que, na ocasião, disse que não pretende demarcar novos territórios. “Os povos indígenas, ao reivindicarem a demarcação de seus territórios, tornam-se alvos a serem combatidos. Que as chagas da violência não sejam patrocinadas por aqueles que devem combatê-las. Que o Estado se coloque ao lado dos direitos humanos e da natureza”, disse o presidente do Cimi, dom Roque Paloschi.

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