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Cidades

Para mulheres, perigo mesmo é estar em casa à noite, mostra Mapa do Feminicídio

Metade dos assassinatos ocorreu dentro da residência compartilhada com o companheiro e "na hora do descanso"

Por Anahi Zurutuza | 21/06/2026 13:30
Para mulheres, perigo mesmo é estar em casa à noite, mostra Mapa do Feminicídio
Túmulo de Vera Lucia da Silva, que foi violado em Eldorado (Foto: Francisco Maranata/Arquivo)

“Mas também, o que estava fazendo na rua essa hora?”. Questionamento comum de se ouvir da boca de quem julga o sofrimento vivido por mulheres vítimas das mais variadas violências cai por terra com dados levantados pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) no Mapa do Feminicídio 2026. O dossiê revela que metade dos assassinatos de mulheres registrados no Estado ocorreu dentro da casa onde a vítima vivia com o companheiro e durante a noite.

RESUMO

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Dados do Ministério Público de Mato Grosso do Sul revelam aumento de 23% nos casos de feminicídio no estado entre janeiro e maio de 2026, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Metade dos crimes ocorreu dentro da própria residência das vítimas, à noite, e mais de 80% foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Facas foram usadas em 47% dos casos, e mais de 80% das vítimas não tinham medida protetiva ativa.

Os números reforçam uma realidade que especialistas e órgãos de proteção alertam: o maior risco para as mulheres está justamente no ambiente doméstico e nas relações afetivas. Ou seja, não há porto seguro!

Entre janeiro e maio deste ano, os casos de feminicídio, consumados e tentados, aumentaram 23% em Mato Grosso do Sul na comparação com o mesmo período de 2025, segundo levantamento do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Os dados mostram ainda que 65,5% das mulheres assassinadas foram mortas pelos próprios companheiros ou cônjuges, enquanto 15,3% tiveram como autores ex-companheiros ou ex-maridos.

Levantamento do Campo Grande News, com base nos crimes noticiados até maio, mostra que 12 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul até maio.  As vítimas tinham entre 18 e 74 anos e foram mortas em diferentes regiões – em Bela Vista, Corumbá, Coxim, Três Lagoas, Ponta Porã, Anastácio, Paranhos, Selvíria, Campo Grande, Eldorado, Mundo Novo e Dourados.

Para mulheres, perigo mesmo é estar em casa à noite, mostra Mapa do Feminicídio
Fonte: Mapa do Feminicídio/MPMS

Noite, casa e relacionamentos

Os dados do MPMS apontam uma combinação preocupante de fatores. Metade dos feminicídios aconteceu à noite, período em que vítimas e agressores normalmente estão juntos em casa. Outros 33,3% dos crimes ocorreram à tarde e 16,7% pela manhã.

A residência compartilhada pelo casal foi o local de 50% dos assassinatos. Já as vias públicas responderam por 16,7% dos casos.

O perfil dos autores também reforça a relação direta entre feminicídio e violência doméstica. O chamado "ciclo de controle e posse" aparece nos números: mais de 80% dos assassinatos foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros.

Facas continuam sendo a principal arma

O Mapa do Feminicídio mostra que a arma branca continua sendo o instrumento mais utilizado pelos assassinos. Facas e outros objetos cortantes foram empregados em 28 casos, o equivalente a 47% dos registros analisados.

Na sequência aparecem atropelamento, armas de fogo e asfixia ou estrangulamento.

Para mulheres, perigo mesmo é estar em casa à noite, mostra Mapa do Feminicídio
Da esquerda para a direita, Liliane de Souza Bonfim Duarte, Vera Lucia da Silva e Beatriz Benevides da Silva. As três foram mortas dentro de casa (Fotos: Reprodução)

As histórias por trás das estatísticas 

As estatísticas ganham rosto nas histórias de mulheres que morreram justamente onde deveriam estar seguras. Das 12 assassinadas este ano, Liliane de Souza Bonfim Duarte, Vera Lúcia da Silva e Beatriz Benevides da Silva, por exemplo, foram mortas de maneira brutal em casa.

Liliane, enfermeira de 52 anos, foi atacada dentro da residência da família, em Ponta Porã. O autor, segundo a investigação, foi o marido, o subtenente do Corpo de Bombeiros Elianderson Duarte. Ela morreu dias depois de ser agredida com uma marreta. Os três filhos do casal também foram vítimas da violência.

Vera Lucia da Silva, de 41 anos, foi assassinada no quintal da própria casa, em Eldorado, diante da filha de apenas 9 anos. Conforme apurado pela polícia, o ex-companheiro, Valdecir Caetano dos Santos, chegou ao imóvel e atirou contra ela. O caso já era brutal por si só, mas ganhou contornos ainda mais chocantes dias depois, quando o corpo de Vera foi violado no cemitério. A violência, nesse caso, não terminou com a morte.

Já Beatriz Benevides da Silva, de 18 anos, havia acabado de iniciar uma nova etapa da vida em Três Lagoas. Tinha conseguido emprego, alugado um apartamento e preparado a casa para morar com o namorado, Wellington Patrezi Batista Pereira. Foi justamente nesse espaço, que simbolizava independência, recomeço e futuro, que ela foi morta na madrugada de 25 de fevereiro. O namorado confessou o crime à polícia. Beatriz tornou-se a quarta vítima de feminicídio registrada em Mato Grosso do Sul em 2026.

Medida protetiva ainda é desafio

Outro dado que chama atenção é que mais de 80% das vítimas não possuíam medida protetiva de urgência em vigor quando foram assassinadas.

O índice reforça um dos principais desafios enfrentados pela rede de proteção: fazer com que mulheres em situação de violência procurem ajuda antes que as agressões evoluam para o desfecho fatal.

Durante o lançamento da campanha "Você Merece um Amor Leve", promovida pelo MPMS neste mês, integrantes da instituição destacaram que informação e conscientização continuam sendo ferramentas essenciais para romper ciclos de violência e ajudar mulheres a identificar relacionamentos abusivos ainda nos estágios iniciais. A campanha alerta para sinais como controle excessivo, ameaças, humilhações e isolamento social, comportamentos frequentemente confundidos com demonstrações de afeto.

Rede de apoio

Em situações de emergência, mulheres podem acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou a Guarda Civil Metropolitana pelo 153. Também é possível buscar orientação na Ouvidoria do MPMS, pelo canal 127, ou procurar a Promotoria de Justiça mais próxima.

A Central 180 funciona 24 horas, de graça, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, procure a polícia pelo 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciada.

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