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Cidades

Redução de imposto é ilusão para quem nunca vê preço da gasolina cair

Nem quando governos federal ou estadual anunciam corte, consumidor acha preço menor na bomba

Por Paula Maciulevicius Brasil e Mariana Rodrigues | 19/02/2021 14:54
Posto formou fila de motoristas atrás de preço "antigo" da gasolina. (Foto: Marcos Maluf)
Posto formou fila de motoristas atrás de preço "antigo" da gasolina. (Foto: Marcos Maluf)

A correria da manhã desta sexta-feira (19) é para encontrar postos de combustíveis onde o aumento da gasolina ainda não chegou. Também, pudera, os R$ 0,22 centavos vão fazer uma grande diferença para motoristas que nunca mais conseguiram encher o tanque. Entregar a chave para o frentista sem olhar para a bomba apreensivo com o valor ficou num passado bem distante e os motoristas confirmam: quando governo federal ou estadual anunciam redução de impostos, a diferença não chega, mas bastou refinaria falar de aumento que o bolso sente na hora.

Professor conta que encher o tanque virou luxo. (Foto: Marcos Maluf)
Professor conta que encher o tanque virou luxo. (Foto: Marcos Maluf)

Professor, Marco Aurélio Olarte tem 51 anos e há meses vem acompanhando o aumento da gasolina. Hoje, antes de abastecer, ele prestou atenção se o preço ainda estava o "antigo" no posto da Avenida Bandeirantes. "Raramente eu encho o tanque do carro, mas não vejo a baixa chegar às bombas. O valor só tem aumentado. É praticamente um artigo de luxo encher o tanque", comenta.

Veterinário, Igor Gabriel Payão, de 24 anos, conta que nas viagens que faz pelo Estado, já chegou a encontrar a gasolina a R$ 5,30. "Eu só coloco R$ 100 ou R$ 150,00 por abastecida, isso dá meio tanque, antigamente a geente enchia e pagava no máximo R$ 200", compara.

Sobre reduções anunciadas pelo governo nos impostos, Igor também diz que nunca vê o valor baixar na bomba. "O que me lembro é que no ápice da pandemia teve, mas agora a gente vive outra realidade e está passando de R$ 5,00".

Gerente do posto de combustível da Avenida Bandeirantes, Paulo Roberto Martins da Silva, de 50 anos, explica que por ainda ter em estoque, a gasolina ali será vendida até a hora do almoço no preço "antigo": R$ 4,97 a gasolina comum e R$ 5,09 aditivada. "Depois do almoço, se o estoque acabar, vamos usar o que chegou agora e vai ter reajuste aplicado direto na bomba".

Postos ainda não subiram, mas até a tarde devem aumentar preço na bomba. (Foto: Marcos Maluf)
Postos ainda não subiram, mas até a tarde devem aumentar preço na bomba. (Foto: Marcos Maluf)

Até fila já está se formando no posto de combustível da Avenida Fernando Corrêa da Costa esquina com a Rua 14 de Julho. Por enquanto o litro da gasolina está saindo a R$ 4,89. "Mas assim que acabar o estoque, vai aumentar", garante o frentista Cristiano Batista, de 25 anos.

Esteticista, Milena Anjos dos Santos, de 23 anos, precisou se reorganizar financeiramente para fazer caber no orçamento o aumento constante do combustível. "Está subindo demais e minha rotina é só usar o carro de casa para o trabalho e como não tenho como não abastecer, a gente tem que se organizar".

Recepcionista, Nadya Marcondes, de 31 anos, diz que só abastece de R$ 20 em R$ 20. "Apesar do salário mínimo ter subido, as coisas também subiram, está pesado para o assalariado, a gente tem que batalhar para conseguir colocar gasolina", comenta.

Ela até cogitou deixar o carro em casa e passar a usar ônibus, mas a passagem do transporte coletivo também pesou. "Não tem como ir de ônibus, está quase o mesmo preço da gasolina", compara.

Nadya diz que chegou até a pensar em trocar carro por ônibus, mas passagem também não compensa. (Foto: Marcos Maluf)
Nadya diz que chegou até a pensar em trocar carro por ônibus, mas passagem também não compensa. (Foto: Marcos Maluf)

Aumentos - O aumento anunciado pela Petrobras é o quarto de 2021, com acumulado de 34% nas bombas. Desta vez o percentual foi de 10,2%, o que segundo o presidente do Sinpetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo e Lubrificantes de Mato Grosso do Sul), Edson Lazaroto, corresponde a R$ 0,22 a mais.

"O que ocorre é uma coisa natural, o mercado é livre. Teve aumento de R$ 0,22 centavos, a distribuidora aumentou imediatamente o preço, então quando a gente vai comprar, já está comprando no valor novo. Alguns postos já aumentaram e outros vão aumentando gradativamente", explica Lazaroto.

Conforme o Sinpetro, a média de preço está entre R$ 4,99 até R$ 5,29 nos postos de Campo Grande nesta manhã. "Quem tem estoque, ainda está fazendo o preço antigo, eu não posso dizer para os postos 'não aumente' ou 'não repasse'. Cada um tem a sua definição", ressalta Lazaroto.

Sobre reduções de impostos, como anteriormente o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) anunciou para o ICMS e ontem o presidente Jair Bolsonaro disse que vai zerar os impostos federais sobre o diesel, Lazaroto defende que as diferenças são sim repassadas, embora os motoristas não sintam.

Procon tem 170 procedimentos abertos contra postos que não repassaram diminuição de ICMS ao consumidor. (Foto: Marcos Maluf)
Procon tem 170 procedimentos abertos contra postos que não repassaram diminuição de ICMS ao consumidor. (Foto: Marcos Maluf)

"Automaticamente o preço cai, não tem como. Só que a Petrobras continua aumentando, então dizer que não vai ter mais aumento é engodo. Enquanto não tiver uma reforma tributária, não vai consertar isso", sustenta.

Preços - Lazaroto descreve que o preço que chega até o consumidor começa na refinaria, depois passa para a distribuidora, vai para as bases, até chegar aos postos.

"Quando a gasolina sai da refinaria este preço já corresponde a 26%, 16% de tributos federais, 30% de tributos estaduais e mais a margem de custo do transporte de 8%. A margem bruta da revenda sai em torno de 8 a 9%", pontua.

No caso do diesel, o presidente fala que 52% do valor do diesel já sai da refinaria, mais 14% de tributos federais, 12% de estaduais, em torno de 9% do custo de transporte e uma margem de 7% de lucro para os postos.

O Sinpetro ainda questiona por que quando o preço do arroz aumenta não existe a mesma indignação por parte dos consumidores. "Arroz subiu e ninguém falou dos estoques do mercado, estava tudo abarrotado e no outro dia já subiram o preço. É assim que funciona, infelizmente".

Procon pediu ao Sinpetro para orientar postos a não aumentarem imediatamente valor da bomba. (Foto: Divulgação/Procon)
Procon pediu ao Sinpetro para orientar postos a não aumentarem imediatamente valor da bomba. (Foto: Divulgação/Procon)

Processos - Ainda na manhã desta sexta, o Procon se reuniu com o Sinpetro pedindo que o aumento não impacte imediatamente nas bombas. "Fizemos um acordo para que o sindicato oriente os postos. Já temos 170 processos abertos com investigação de preços abusivos e vamos monitorar", garante o superintendente do Procon, Marcelo Salomão.

Os 170 processos que o Procon abriu foi justamente em cima da redução de imposto feita pelo governador Reinaldo Azambuja de 17 para 12% a alíquota do ICMS no diesel e etanol. Para o Procon, o Sinpetro diz que as distribuidoras que não repassam a redução do ICMS, por isso os motoristas não sentem descontos nas bombas.

"Engraçado que os donos de posto quando é para subir, vira a chave no mesmo dia, mas quando governo reduz, não diminui, essa é a minha briga", frisa Salomão. Em contrapartida ao pedido do Procon de segurar o aumento na bomba, o Sinpetro pediu apuração também nas distribuidoras. "E nós vamos fazer uma ação forte junto à ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)".

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