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Capital

A juiz, pai de jovem morto diz ter recebido oferta em dinheiro de desembargador

Paulo Roberto Teixeira Xavier prestou depoimento nesta segunda-feira como parte do processo contra sete réus

Marta Ferreira e Geisy Garnes | 02/03/2020 19:29
Viaturas policiais em frente ao fórum de Campo Grande, que teve segurança reforçada para audiência sobre execução de estudante. (Foto: Kísie Ainoã)
Viaturas policiais em frente ao fórum de Campo Grande, que teve segurança reforçada para audiência sobre execução de estudante. (Foto: Kísie Ainoã)

Exatos 328 dias depois de ver o filho ser assassinado em seu lugar, no dia 9 de abril de 2019, Paulo Roberto Teixeira Xavier, 42 anos, capitão reformado da Polícia Militar, foi a primeira testemunha ouvida nesta segunda-feira (2) durante audiência para depoimentos de testemunhas de acusação pelo crime, no plenário do Tribunal do Júri do fórum da Justiça Estadual em Campo Grande. Foram duas horas.

Além do tom emocionado de todas as vezes quando sobre a execução por engano do estudante de Direito Matheus Coutinho Xavier, aos 20 anos, PX, como é conhecido, disse na frente de juiz, de promotores, advogados e das pessoas presentes no plenário do Tribunal do Júri ter sido procurado pelo desembargador aposentado Joenildo de Souza Chaves, ex-presidente do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), como emissário do homem acusado como mandante do crime, o empresário Jamil Name, 80 anos, preso pela operação Omertà, desde setembro do ano passado.

PX afirmou que, em agosto de 2019, pouco antes da operação, o magistrado o procurou no lava-jato onde estava passando as noites, próximo da casa onde morava com o filho assassinado, e ofereceu dinheiro para “resolver” o assunto, ou seja, calar-se. Joenildo Chaves, informou o capitão, perguntou quanto ele queria para ir embora do Estado: “500 mil, 1 milhão, 2 milhões?”, relembrou.

Plenário do Tribunal do Júri durante a audiência.
Plenário do Tribunal do Júri durante a audiência.

Ouvido na condição de informante, na qual não é obrigado a fazer o juramento de falar apenas a verdade, ele disse ter recusado a oferta e até dado o conselho ao interlocutor de não se envolver “com isso”, por ter posição importante.

No banco de testemunhas, PX garantiu ainda que respondeu não querer dinheiro e até ter cogitado vender os bens em ir embora, à época dos fatos citados. Esse conteúdo já era conhecido da força-tarefa de delegados e promotores responsáveis pela investigação e acusação pela morte de Matheus Xavier.

PX havia falado do episódio em depoimento no Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros) no dia 25 de outubro do ano passado. O militar afirma ter testemunhas do ocorrido.

Procurado pelo Campo Grande News, Joenildo de Souza Chaves disse não poder se manifestar por estar relacionado como testemunha de Jamil Name no processo. O magistrado já foi citado anteriormente, pois cheque em nome dele foi apreendido durante a operação Omertà.

Outra vez – Paulo Roberto Teixeira Xavier também havia revelado, e voltou a afirmar na frente das autoridades e público do Tribunal do Júri nesta segunda-feira, que houve mais uma oportunidade na qual foi procurado, logo após a morte do filho.

Segundo contou, na vez anterior, ainda em abril de 2019, foi chamado à casa de Jamil Name, no Jardim Bela Vista. Na ocasião, o interlocutor era, alega o capitão reformado, o policial civil aposentado Vladenilson Daniel Olmedo, o "Vlad", apontado pelas investigações como homem de confiança da família Name e gerente de grupo de extermínio identificado pela Omertà.

Lá, conforme a narrativa, estavam o ex-guarda civil municipal Marcelo Rios, o policial Vladenilson, ambos armados, além de Jamil pai e Jamil Name Filho. Todos são réus no processo.

De acordo com PX, Jamilzinho o mandou e ir embora de Campo Grande, “ficar dois anos fora”, mas sempre manter contato com o Vlad. Relatou, ainda, a oferta de água, e a insistência para beber o líquido. Anotou ter recusado após perceber que a embalagem não estava lacrada.

Clima hostil – Durante o depoimento, os advogados dos réus também fizeram perguntas a Paulo Xavier. O clima pesou, principalmente quando foram reafirmados pela testemunha os motivos pelos quais, segundo a avaliação de PX, o tornaram desafeto dos acusados como mandantes de sua morte, que acabou vitimando o filho.

Durante todo o processo, o policial afirmou que os problemas decorrem do fato de ter passado a trabalhar para o advogado de São Paulo Antônio Augusto Souza Coelho, também arrolado como testemunha. O advogado, conforme apurado pela força-tarefa, também era desafeto do grupo, por causa da disputa por terras com valores milionários.

Audiência complicada – Sessão de hoje, a primeira do processo, deveria ter começado às 13h30. Mas só teve início às 16h18, principalmente em razão de dificuldades no contato com o presídio federal de segurança de Mossoró, onde quatro presos acompanharam tudo por videconferência. Do total de sete testemunhas previstas, até o fechamento deste texto, só foram ouvidas três, PX,  advogada Laura Cândia, de Ponta Porã, e a esposa de Marcelo Rios, Eliane Benitez, considerada uma das testemunhas chaves. 

Ao todo, são 15 elencadas. Duas foram dispensadas, por terem apresentado atestado médico de problemas de saúde mental. Entre as pessoas que serão ouvidas, estão cinco delegados da força-tarefa que investigou a morte de Matheus.

Para garantir a segurança das testemunhas, o fórum teve esquema diferenciado de policiamento, feito pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar e pelo Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros).

Dentro do plenário, as regras foram mais rígidas. Não foi permitida foto das testemunhas, que ficaram em sala reservada até serem chamadas. 

Paulo Roberto Teixeira Xavier com a camiseta com o rosto do filho, que foi executado no lugar dele. No depoimento de hoje à justiça, não foram permitidas fotografias das testemunhas. (Foto: Arquivo)
Paulo Roberto Teixeira Xavier com a camiseta com o rosto do filho, que foi executado no lugar dele. No depoimento de hoje à justiça, não foram permitidas fotografias das testemunhas. (Foto: Arquivo)
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