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Capital

Autoridades apostam na prevenção para conter avanço da dengue na Capital

Agentes têm feito força-tarefa na Capital, enquanto método Wolbachia deve colher frutos só no fim de 2023

Por Guilherme Correia e Cleber Gellio | 10/05/2022 11:52
Prefeitura tem orientado campo-grandenses a ter boas práticas de prevenção à dengue. (Foto: Cleber Gellio)
Prefeitura tem orientado campo-grandenses a ter boas práticas de prevenção à dengue. (Foto: Cleber Gellio)

Com o arrefecimento da covid-19, doenças como a dengue voltaram a tomar conta do imaginário campo-grandense, já que o Estado tem segunda maior incidência da arbovirose no País. Até o momento, a prevenção tem sido a principal ferramenta de autoridades locais de saúde para conter o aumento de infecções.

Até o fim de 2023, a SES (Secretaria Estadual de Saúde) espera que o método Wolbachia, implementado na Capital no fim de 2021, possa fazer com que todos os mosquitos Aedes aegypti, vetores de uma série de doenças, percam a capacidade de transmissão de arboviroses e que a dengue fique em níveis muito baixos.

Na Capital, ainda que dados indiquem prevalência menor que a de anos anteriores, a enfermidade tem gerado preocupação à população.

Há duas semanas, pacientes com suspeita preenchiam estabelecimentos públicos de saúde, e ontem, unidade particular tinha aumento expressivo na lotação. Mais cedo, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) publicou mapa de notificações que mostra que só um dos 74 bairros está dengue em 2022, enquanto sete têm índice “muito alto”.

Todos na região leste do perímetro urbano, os bairros Rita Vieira, Tiradentes, Maria Aparecida Pedrossian e Noroeste aparecem com índice mais alarmante de todos. Completam a lista o Nova Lima, Novos Estados e Cruzeiro.

Nesta manhã (10), agentes de saúde que participam da força-tarefa para auxiliar na prevenção de casos da doença na Capital, foram até três parcelamentos do Rita Vieira para ações de fiscalização e orientação.

Agente de saúde inspeciona terreno baldio para verificar se não há descarte incorreto de lixo. (Foto: Cleber Gellio)
Agente de saúde inspeciona terreno baldio para verificar se não há descarte incorreto de lixo. (Foto: Cleber Gellio)

A supervisora de área da UBS (Unidade de Saúde da Família) Dr. Carlos Alberto Jurgielewicz, Maria Luisa da Rosa, explica que a mobilização começou no dia 4 e vai até quinta-feira, no Rita Vieira II, além do Itamaracá e Cristo Redentor.

Segundo ela, foram constatados, durante as visitas, vários focos dentro das casas, além de muito lixo nas ruas e em terrenos baldios. “No Rita Vieira, o perfil dos focos é dentro das residências, além de muito lixo na rua. O perfil é mais de lixo doméstico, com plantinha, vasilha de cachorro e latinhas.”

No geral, encontra-se também vários focos na rua que a própria população utiliza para jogar lixo, e esses recipientes acabam armazenando água de chuva, que ajuda na proliferação do mosquito."

A profissional de saúde orienta que, mesmo em baldes e bacias em que a água seja trocada com frequência, é necessário mantê-la limpa com sabão e esfregar com a bucha, além de manter tampado.

“Mesmo que você faça a rotatividade dessa água, as paredes desses recipientes acabam podendo ter algum ovo de mosquito. Se você tira água e coloca outra, não vai embora. Tem que lavar esse recipiente com água, sabão e bucha. Não é proibido armazenar, mas faça esse cuidado.”

Moradora do Rita Vieira foi orientada, nesta manhã, pela Sesau. (Foto: Cleber Gellio)
Moradora do Rita Vieira foi orientada, nesta manhã, pela Sesau. (Foto: Cleber Gellio)

A moradora do Itamaracá Luciana Ramos, de 28 anos, recebeu visita de equipe da Sesau e foi orientada a tirar a água acumulada em pneus. O agente de saúde Rodrigo Lima verificou o material, que não chegava a apresentar larvas, mas alerta para os perigos em manter tais itens em locais sem cobertura.

No quintal dela, há dois canos expostos - da cozinha e de esgoto - o que, conforme a coordenadora Maria Luisa, pode vir a ser um foco também, caso fique aberto. Neste caso, a dona de casa recebeu orientação e foi jogado um larvicida.

Luciana explica que sempre recebe os agentes de saúde em sua casa, e acha importante, já que seu marido, de 32 anos, teve dengue no ano passado e ficou acamado.

Ele ficou mal, no ano passado, ficou bem abatido por conta da dengue. Ainda mais porque meu marido teve dengue, é muito importante esse trabalho.”

Em um terreno baldio nas proximidades, o agente de saúde Rodrigo Lima encontrou resíduos como embalagem vazia de marmita e latinhas, e não durou um minuto para ele achar e retirar dois pneus que foram descartados de forma proibida no lote.

Outras situações, conforme os agentes, são raras, mas podem acontecer, tais como o recipiente de degelo de geladeiras, ou até mesmo o pote em que se armazena a escova de dente, caso esteja sem furos na parte de baixo, podem acumular água e ser ambiente propício para reprodução do mosquito.

No Rita Vieira, inclusive, muitos moradores usam os vazios urbanos para descartar lixo, mesmo que haja ponto de descarte entre as ruas Tereza Garcez Paim e Mandi.

Agentes de saúde têm feito força-tarefa para orientar população da Capital. (Foto: Cleber Gellio)
Agentes de saúde têm feito força-tarefa para orientar população da Capital. (Foto: Cleber Gellio)

Perigos - De acordo com a SES (Secretaria Estadual de Saúde), um caso suspeito de dengue pode apresentar sintomas como dor abdominal intensa, vômitos, acumulação de líquidos, sangramento de mucosas, letargia ou irritabilidade, hipotensão postural, hepatomegalia, dentre outros.

Os sinais podem se agravar e incluir sangramentos graves e até comprometimento de órgãos. Vale ressaltar que o tratamento inclui, sobretudo, hidratação adequada e reconhecimento precoce de sintomas.

A primeira morte do ano foi confirmada em 16 de março, em Campo Grande, mas desde então, já são, ao menos, oito vítimas da doença em território estadual, entre 37 e 82 anos. Dessas, três são de Campo Grande.

A dengue é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que também é vetor da zika e chikungunya. A SES orienta evitar água parada em todo ano, manter bem tampados tonéis, caixas e barris de água, deixar pneus em locais cobertos, remover galhos e folhas de calhas, além de fazer manutenção de piscinas.

Além disso, é importante colocar lixos em sacos plásticos em lixeiras fechadas, vedar bem os sacos de lixo e não deixar ao alcance de animais, manter garrafas de vidro e latinhas de boca para baixo, tampar ralos, catar sacos plásticos e lixo do quintal, dentre outras medidas que impeçam o acúmulo de água e de sujeiras.

Práticas de manutenção de terrenos são essenciais para controlar dengue. (Foto: Cleber Gellio)
Práticas de manutenção de terrenos são essenciais para controlar dengue. (Foto: Cleber Gellio)

Método Wolbachia - Durante o lançamento da terceira fase do projeto, no ano passado, o coordenador estadual de Controle de Vetores, Mauro Lúcio Rosário, declarou ser boa a expectativa dos resultados do procedimento em território campo-grandense, conduzido pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com a WMP (World Mosquito Program) Brasil.

Segundo ele, era esperado que até o fim de 2023, praticamente todos os transmissores de doenças como a dengue, chikungunya ou zika a seres humanos sejam atingidos pela bactéria Wolbachia.

Acreditamos que em alguns meses, com Wolbachia, vão substituir os mosquitos selvagens, esses insetos encontrados no meio ambiente, e quando isso acontecer, com certeza, a dengue e zika estarão controlados [...] para que, daqui a dois anos, a gente possa colher bons resultados, de forma que a gente não tenha mais epidemias.”

A soltura é dividida em várias fases, de forma gradativa, e a perda da capacidade de transmissão também ocorre aos poucos. Os mosquitos adaptados geneticamente perdem capacidade de reprodução e de disseminação da doença.

A ação conjunta entre WMP Brasil e Fiocruz - vinculada ao Ministério da Saúde - já fez com que mais de 30 bairros da Capital fossem atingidos pelo método Wolbachia, até o fim do ano passado, contemplando cerca de 200 mil moradores.

Segundo o gestor da WMP, Antônio Brandão, uma nova liberação será feita no final de junho, em 21 bairros, sobretudo os da região central da cidade. Estima-se que 20 milhões de wolbitos, mosquitos que contém essa bactéria, deverão se reproduzir na Capital, com outros espécimes.

Campo Grande foi a cidade escolhida na Região Centro-Oeste, por ser um município de médio porte, que vinha sofrendo com a alta incidência de dengue. O projeto visa estudar e comprovar a eficácia do método em diferentes biomas brasileiros. As ações iniciaram no Rio de Janeiro (RJ) e Niterói (RJ) e, posteriormente, foram também a Belo Horizonte (MG) e Petrolina (PE). Um estudo semelhante ocorre na Indonésia.

Segundo o artigo "Aplicando Wolbachia para Eliminar a Dengue", publicado em uma revista científica britânica, o procedimento pode reduzir em 86% as internações por dengue.

Soltura dos "mosquitos do bem", do método Wolbachia, em Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
Soltura dos "mosquitos do bem", do método Wolbachia, em Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
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