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Política

Tereza Cristina consolida plataforma nacional e se projeta como vice da direita

Instituto vira vitrine nacional enquanto senadora cobra ação contra facções na fronteira de MS e enfrenta STF

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 25/02/2026 17:21
Tereza Cristina consolida plataforma nacional e se projeta como vice da direita
Senadora Tereza Cristina (PP-MS) durante discurso (Foto: Instagram/Reprodução)

A senadora Tereza Cristina (PP-MS) repete que não foi convidada, insiste que “vice é uma das últimas escolhas de uma campanha” e afirma que ainda é cedo para qualquer definição. Mas o conjunto de movimentos políticos, discursos e apoios públicos aponta na direção contrária: ela já opera em dimensão nacional e consolida uma plataforma que a coloca como nome praticamente natural para compor uma chapa presidencial da direita em 2026 — muito provavelmente ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

RESUMO

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A senadora Tereza Cristina (PP-MS) consolida sua posição como potencial candidata a vice-presidente em 2026, possivelmente ao lado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Embora negue convites formais, seus movimentos políticos e o lançamento do Instituto Diálogos em Brasília indicam uma plataforma nacional em construção.Com forte apoio do setor agropecuário e da Frente Parlamentar da Agropecuária, a senadora estrutura sua atuação em três pilares: segurança nas fronteiras, debate sobre o STF e formulação econômica. O Instituto Diálogos surge como possível embrião de um plano de governo, ampliando sua influência para além do agronegócio.

“Eu nunca fui convidada”, afirmou, ao ser questionada diretamente sobre a vice. Em seguida, tratou de relativizar o debate: “Vice não é candidato. Vice é uma escolha do candidato.” Ao mesmo tempo, fez questão de elogiar o potencial do pré-candidato ao Planalto. “O Flávio, por enquanto, sozinho, já mostrou que tem musculatura.”

O discurso público é de cautela. Já o movimento político é de consolidação.

Tereza condiciona eventual decisão à participação do seu partido na coligação e à construção política futura. “Primeiro eu preciso conversar com o meu partido. Meu partido tem que estar nesta coligação.” Mas não fecha portas. Ao contrário, mantém o nome em circulação, reforçado por aliados estratégicos no Congresso e na federação União Brasil–PP.

O presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), foi direto: “Para mim, é o nome mais bem colocado.” Segundo ele, Tereza reúne controle, capacidade técnica, articulação política e credibilidade junto ao mercado e ao setor produtivo. “Se for possível que seja ela, vamos trabalhar para isso. Acho que é um nome que, sem dúvida, está nas pontas, na cabeceira das filas para disputar essa indicação, que vamos trabalhar para que haja essa composição partidária e torne isso possível”.

Na federação, a ex-deputada Rose Modesto foi além: “Ela está pronta, inclusive, para ser candidata a presidente.” Para Rose, Tereza agrega maturidade, experiência, diálogo e protagonismo feminino — além de representar um setor decisivo da economia nacional.

A negativa formal contrasta com a densidade do movimento político que se forma ao redor de seu nome.

O Instituto como vitrine 

O lançamento do Instituto Diálogos, em Brasília, nesta quarta-feira (25) marca um salto qualitativo nesse processo. Entre os correligionários que foram ao evento, num hotal, em Brasília, lá estava o governador Eduardo Riedel, que não faz campanha, mas apoia a senadora como candidata a vice.

Apresentado como espaço “apartidário” para debater os problemas estruturais do país, o Instituto nasce sob comando direto de Tereza Cristina e com ambição declarada de formular propostas nacionais. “Se for o desejo, podemos apresentar de maneira apartidária propostas para melhorar o ambiente político e de produção do Brasil”, afirmou.

A estrutura é típica de think tanks que antecedem projetos eleitorais: definição de temas estratégicos (produtividade, geoeconomia, gargalos institucionais), seminários nacionais — o primeiro já previsto para maio, em São Paulo — e articulação entre setor privado, academia, mídia e poder público. O movimento pode ser apartidário, mas tem também os ingredientes de uma plataforma eleitoral.

Embora insista que “não é um instituto do agro”, a senadora deixa claro que pretende reunir ideias de diferentes áreas para consolidar recomendações de política pública. O formato permite duas frentes simultâneas: ampliar seu raio para além do agronegócio e construir um arcabouço programático que pode servir de base para uma candidatura presidencial.

Aliados enxergam o Diálogos como embrião de plano de governo. O próprio Lupion, que comanda uma entidade com 294 de deputados e 50 senadores fechados com o agro, associou o instituto à necessidade de planejar o país e deixar de agir apenas de forma reativa no Congresso. A leitura predominante é que o Instituto funciona como plataforma de projeção nacional — um espaço que institucionaliza sua pré-campanha sob o manto da formulação técnica.

Fronteira, STF e Instituto

A entrevista da senadora deixa claro que sua plataforma se organiza em três eixos centrais, capazes de dialogar com diferentes segmentos da direita e do centro-direita.

Fronteira e combate ao crime organizado

Tereza colocou a segurança pública — especialmente a fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia — no centro do debate nacional. Ao tratar da infiltração do crime organizado nas instituições e na iniciativa privada, citou operações que revelaram cooptação de postos de combustível e usinas de etanol e alertou para a necessidade de discutir o tema com especialistas.

Ao falar especificamente de MS, elevou o tom: “Mato Grosso do Sul tem um problema muito sério, porque nós temos uma fronteira de quase 800 quilômetros seca.” Listou a entrada de armas, drogas e cigarros e defendeu reforço federal explícito: “Eu acho até que merecia uma atenção especial do governo federal, com mais recursos, com mais policiais, porque ali é a porta de entrada.”

Ao afirmar que o Rio de Janeiro “não produz arma” e que o abastecimento passa pela fronteira sul-mato-grossense, desloca a responsabilidade para a União e insere a pauta da segurança no debate presidencial. O tema conecta seu mandato à realidade concreta do Estado e a coloca no centro da agenda de combate às facções — assunto prioritário para o eleitorado conservador.

STF e papel do Senado

Outro eixo estratégico envolve o Supremo Tribunal Federal. Questionada sobre a possibilidade de abertura de impeachment de ministro, afirmou que o número de votos no Senado “não é estático” e que o tema deve permanecer “na pauta, na discussão”.

Segundo ela, havia 33 ou 34 senadores que tradicionalmente assinavam pedidos nesse sentido, mas a situação pode mudar “dependendo da gravidade”. Ao defender que o Senado cumpra sua prerrogativa constitucional de analisar esse tipo de processo, sinaliza disposição de enfrentar debates sensíveis envolvendo o Judiciário.

A fala ecoa demandas da direita por maior controle institucional sobre o STF e reforça sua imagem como liderança capaz de enfrentar temas considerados espinhosos.

Formulação econômica e ambiente institucional

O terceiro pilar é o próprio Instituto Diálogos. Ao tratar de produtividade, geoeconomia e ambiente regulatório, Tereza amplia seu discurso para além do agronegócio e dialoga com o mercado e com setores empresariais preocupados com estabilidade institucional.

Ela defende debates técnicos, recomendações estratégicas e planejamento de longo prazo. A construção de um eventual plano nacional apartidário funciona, na prática, como laboratório programático de campanha.

Negativa com porta aberta

Mesmo diante desse conjunto de movimentos, Tereza mantém a narrativa da cautela. Ao comentar o apoio do agro, relativizou: “Isso é porque ele é meu amigo”, referindo-se a Lupion, que defendeu explicitamente a indicação da senadora a vice pela frente de direita. Sobre divergências internas no partido, reforçou independência: “A gente não pode ser vaca de presépio. Falar amém para tudo.” Ela se refere à nota em que contestou o apoio do comando de União Brasil e PP ao ministro Dias Toffoli, enrolado com o caso Master e alvo de pedido de impeachment que virou sonho de consumo da direita.

A soma dos elementos — think tank recém-lançado, agenda nacional de segurança, discurso institucional firme e apoio explícito de lideranças da maior bancada temática do Congresso — transforma a hipótese em variável concreta do tabuleiro eleitoral.

Oficialmente, ainda é cedo. Politicamente, a pré-campanha já começou.