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Em Campo Grande, 15 morreram de covid em casa

Dados do resgistro civil indicam ainda que entre 2019 e 2020, houve aumento de 40,8% nos casos de óbitos domiciliares na cidade

Por Lucia Morel | 23/12/2020 15:19
Para especialista, superlotação de UTIs é responsável por casos de pessoas morrendo em casa, devido falta de vagas. (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)
Para especialista, superlotação de UTIs é responsável por casos de pessoas morrendo em casa, devido falta de vagas. (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)

Desde o começo da pandemia do novo coronavírus em Campo Grande, com primeiro caso confirmado em 14 de março deste ano, 15 pessoas morreram de covid-19 dentro de casa. Se por um lado a administração informa que o número reflete que essas pessoas não buscaram atendimento em saúde a tempo, do outro, especialista afirma que significa o colapso da rede.

Em análise dos boletins diários da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) sobre a situação da covid-19 na Capital, verifica-se que até 23 de junho, quando havia apenas oito óbitos registrados pela doença na cidade – hoje são 959 -, nenhuma pessoa tinha falecido dentro de casa. Um mês depois, em 23 de julho, esse total subiu para 3.

Nos meses subsequentes, o total foi crescendo, chegando a 7 em agosto; 10 em setembro; 13 em outubro; 14 em novembro; e 15 até a data de hoje. Conforme a secretaria, “em momento algum houve falta na assistência aos pacientes”, sendo que a informação é de que as vítimas ou seus familiares demoraram em buscar auxílio médico.

Questionada sobre o perfil- gênero e idade – dessas pessoas, a Sesau informou que “não é possível encontrar um perfil entre os pacientes infectados com Covid-19 que tiveram óbito domiciliar, visto que parte deles ainda não possuía o diagnóstico da doença e outra parte, conforme observado pela secretaria, mesmo com diagnóstico positivo, demorou para buscar por atendimento médico”.

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Procurada para detalhar casos semelhantes no restante de Mato Grosso do Sul, a SES (Secretaria de Estado de Saúde), disse que “as pessoas que faleceram em suas residências foi por não terem procurado o serviço de saúde”.

A pasta reiterou que “a rede de saúde de Mato Grosso do Sul tem atendido todo mundo que tem procurado assistência médica. Nenhum paciente deixou de ser atendido e todos os pacientes que precisaram de internação foram internados”. Sobre quantos casos de óbitos em domicílio nas demais cidades de MS, a secretaria ficou de repassar os dados mais tarde.

Infectologista e pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Estado, Júlio Croda tem estudado ativamente o avanço da covid-19 e afirma que em todos os locais, seja no Brasil ou em outros países, onde ocorreram casos do tipo, é porque o sistema de saúde não mais suportava a alta demanda de pacientes.

“É reflexo da falta de leitos, porque atendimento as pessoas buscam. Isso acontece porque a pessoa foi nas UPAs diversas vezes, precisou ser internada, mas não achou leito. Esse é o melhor indicador para vermos que o sistema está em colapso, porque tem gente morrendo em casa porque não tem atendimento”, sinaliza.

Ele cita os casos emblemáticos de Manaus (AM), que sofreu uma das piores crises diante do novo coronavírus no começo do ano, com aumento de 149% na quantidade de mortes domiciliares em relação a 2019. “Faltou atendimento adequado, porque estava tudo superlotado”, considerou.

Para se ter uma ideia, dados do Portal da Transparência do Registro Civil mostram que em Campo Grande, esse crescimento é de 40,8%, sendo que no ano passado, 521 pessoas morreram dentro de casa e este ano, 734. Somente de insuficiência respiratória, foram 21 casos a mais, com 37 registros em 2019 e 58 em 2020. De pneumonia, foram 25 casos no ano passado e 47 neste.

Em Mato Grosso do Sul o aumento foi de 22,8%, saltando de 2.476 ocorrências de óbito intradomiciliar ano passado e 3.042 este ano, sendo 254 de insuficiência respiratória e 144 de pneumonia, contra 199 e 137 registros, respectivamente, em 2019.

“Onde teve gente morrendo em casa, foi porque serviço de saúde se esgotou”, sustentou Croda, que analisa que se essa situação não fosse um reflexo do colapso, “por que esse padrão não se manteve desde o início da pandemia?”, questiona.

Nesta quarta-feira, 23 de dezembro, a ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para pacientes com covid-19 na Capital está em 112,84%, com todos as 218 vagas ocupadas e mais 27 pessoas – totalizando 245 – em leitos com ventilação mecânica, mas temporários e improvisados em unidades de saúde. Ontem, Campo Grande completou 20 dias com lotação acima de 100%.

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