Entre um pedido e outro, entregadores enfrentam sol, chuva e falta de água
Profissionais cobram espaços com cobertura, banheiro, assentos e tomadas em Campo Grande

Esperar um pedido debaixo de sol ou chuva, sem água, banheiro ou sequer um lugar para sentar, ainda faz parte da rotina de motoentregadores em Campo Grande. Enquanto alguns estabelecimentos começam a oferecer áreas de apoio, profissionais ouvidos pela reportagem afirmam que essas estruturas são exceção na cidade.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Durante os intervalos entre uma entrega e outra, entregadores precisam permanecer sobre as motos, ocupar calçadas ou procurar árvores e marquises. O problema não se limita ao desconforto. A espera prolongada também reduz o número de corridas e pesa diretamente no rendimento dos trabalhadores.
Na Gastão In Casa Delivery, na Rua Joaquim Murtinho, os entregadores contam com banheiro, banco e água gelada. Já a Unidade II da Panificadora Dico, no Jardim Hiroshima, inaugurou na sexta-feira (28) um espaço gratuito com ar-condicionado, banheiro e tomadas para carregar celulares.
As iniciativas são comemoradas pelos profissionais, mas eles defendem que a estrutura seja ampliada para outros restaurantes, centros comerciais e regiões com grande concentração de pedidos.

Nicolas Siqueira, de 27 anos, trabalha como entregador da Gastão nos fins de semana e feriados e também atende outros estabelecimentos. Segundo ele, são poucos os locais que levam em consideração as necessidades de quem aguarda os pedidos. “É bom ter um lugar de apoio, até para colocar a bag e organizar a entrega antes de chegar ao cliente. São poucos os lugares que pensam no entregador e oferecem alguma condição, como água”, afirmou.
Alex Ferreira, de 38 anos, também trabalha na Gastão e faz entregas para outros estabelecimentos. Fora dali, afirma não encontrar a mesma estrutura. “A maior dificuldade é a falta de um lugar adequado para usar o banheiro, carregar o celular ou sentar durante a espera. Se outros estabelecimentos ou até a prefeitura oferecessem pontos de apoio, seria melhor para a categoria”, disse.
Roberto Gomes de Oliveira, de 53 anos, destacou que a falta de cobertura se torna ainda mais problemática nos períodos chuvosos. “A maior dificuldade é na época de chuva. Molha tudo e não tem onde ficar”, resumiu.
Entre os profissionais que acompanharam a abertura do espaço na Dico está Nicolas Nunes, de 24 anos. Entregador há um ano e meio, ele disse que ainda não havia encontrado uma estrutura semelhante durante o trabalho na Capital. “Agora a gente tem banheiro, tomada para carregar o celular e ar-condicionado enquanto espera a entrega ficar pronta. Por mim, tinha que ter mais pontos desses na cidade, porque ajuda bastante”, contou.
Segundo Nicolas, inclusive grandes redes de alimentação deixam os profissionais expostos enquanto os pedidos são preparados. Ele cita unidades do McDonald’s e do Burger King entre os locais onde já precisou aguardar do lado de fora. “A maioria desses lugares em que a gente pega pedido, a gente fica no sol. Se não tem sombra, tem que esperar no sol mesmo. Se é um lugar mais conhecido, deveria ter uma estrutura melhor”, afirmou.
Ítalo Rocha, de 34 anos, trabalha há um ano como entregador e relata que, dependendo do movimento, a espera pode chegar a meia hora. Nesse período, encontrar proteção contra o calor ou a chuva vira responsabilidade do próprio trabalhador. “A gente pega tudo: chuva, falta de água, tudo. Ficamos procurando sombra para esperar a entrega”, relatou.
Para ele, a Rua da Bahia está entre os locais mais difíceis para trabalhar. Apesar do grande número de pedidos, Ítalo afirma que faltam áreas adequadas para estacionar e esperar.
Diego Corrêa Nogueira, de 34 anos, também considera necessária a implantação de mais pontos de apoio. Entregador há um ano, ele conta que costuma procurar árvores ou outros lugares improvisados para se proteger. “A gente sempre precisa de um ponto de apoio. Com ar-condicionado, banheiro e tomada, não vai precisar ficar pegando chuva e sol”, disse.
Diego aponta o Shopping Campo Grande como um dos locais onde enfrenta dificuldades para coletar pedidos. “Falta estrutura lá, é muito complicado”, afirmou.
Há seis anos na profissão, Leandro Finamor, de 25 anos, diz que encontrar água, sombra ou um assento continua sendo exceção. “Tem um ponto ou outro onde encontramos uma garrafa de água gelada ou uma sombra. Na maioria das vezes, a gente fica esperando sem água, sem sombra e sem um lugar para sentar”, relatou.

Tempo é dinheiro - Além da falta de estrutura, os entregadores reclamam da demora no preparo dos pedidos. Como a remuneração depende da quantidade de corridas realizadas, permanecer parado durante 20 ou 30 minutos pode representar perda financeira.
Nicolas de Oliveira afirma que a cobrança da taxa de espera começa somente após determinado período, mas o valor pago pelos aplicativos não compensaria as entregas que deixam de ser realizadas.
“No Outback do Shopping Campo Grande, já fiquei 30 minutos esperando e o pedido não saiu. Tempo é dinheiro. Nesse período, a gente poderia ter feito duas ou três entregas”, disse.
Leandro também relata esperas de até meia hora. Segundo ele, a compensação oferecida pelos aplicativos é pequena diante do rendimento perdido.
“Se a gente fica 20 minutos ali, nesse tempo faria duas ou três entregas. Seria melhor receber uma entrega rápida do que ficar esperando 25 ou 30 minutos”, concluiu.


