ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JANEIRO, SEXTA  09    CAMPO GRANDE 23º

Capital

Grupo reivindica área que seria de antigo cemitério indígena em Campo Grande

Grupo conta sobre terreno guardar memória ancestral e pede apuração técnica sobre vínculo tradicional

Por Gabi Cenciarelli | 08/01/2026 08:27
Grupo reivindica área que seria de antigo cemitério indígena em Campo Grande
Grupo tenta retomar terra que ocuparia cemitério antigo (Foto: Direto das Ruas)

Antes de ser lote, rua ou registro imobiliário, a área localizada no final da Rua Dolores Duran, no bairro Recanto das Paineiras, em Campo Grande, é apontada por indígenas da etnia Terena como um território de memória. Ali, segundo relatos e pesquisas feitas pelo próprio grupo, existe um pequeno cemitério onde parentes teriam sido enterrados há quase um século. É a partir dessa relação histórica e cultural com a terra que cerca de 50 indígenas passaram a reivindicar o espaço, reacendendo um debate que vai além da posse formal e questiona a presença indígena na cidade.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Indígenas do povo Terena reivindicam área no bairro Recanto das Paineiras, em Campo Grande, onde afirmam existir um antigo cemitério e uma casa de apoio indígena. Cerca de 50 pessoas participaram de mobilizações no local, que foram dispersadas pela polícia militar. O grupo busca criar uma comunidade indígena urbana para preservar sua cultura e tradições. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que está ciente da situação e enviará uma equipe técnica para averiguar a existência do cemitério e a legitimidade da reivindicação territorial.

Mobilização na área começou no domingo (4) e voltou a se repetir na terça-feira (6), quando o grupo esteve novamente no local. Nas duas ocasiões, a Polícia Militar foi acionada e dispersou o grupo. Embora atualmente o terreno seja tratado como propriedade particular, os indígenas afirmam que a área foi sendo fragmentado ao longo do tempo com o avanço da urbanização.

A reportagem esteve no local, mas a maioria preferiu não conceder entrevista. A exceção foi Sandra Terena, uma das representantes da mobilização que, com a condição de não mostrar o rosto, explicou que a reivindicação não surgiu de forma repentina, mas a partir de um processo de resgate histórico.

Grupo reivindica área que seria de antigo cemitério indígena em Campo Grande
Polícia Militar no local que o grupo tenta ocupar (Foto: Direto das Ruas)

“Esse espaço já tinha uma instalação de uma casa de apoio. A gente tinha um histórico do passado de que aqui funcionava essa sede. Quando fomos buscar informações e pesquisar, encontramos relatos de que ali também existe um pequeno cemitério indígena, onde foram enterrados parentes nossos. Foi a partir dessa memória que a gente voltou para esse lugar”, contou.

Segundo Sandra, a reivindicação da área está diretamente ligada à realidade de indígenas que vivem hoje na cidade, longe das aldeias, muitas vezes em situação de vulnerabilidade. “Tem muitos parentes que moram há anos em Campo Grande, pagando aluguel, com muitos filhos, precisando de um lugar para viver. A gente não quer luxo. Quer um espaço para viver de forma legal e digna”, afirmou.

Ela explica que a proposta do grupo não se resume à moradia, mas à criação de uma comunidade indígena urbana, capaz de manter viva a cultura, os costumes e as tradições do povo Terena dentro da cidade. “A ideia sempre foi viver a nossa cultura dentro da cidade, com nossos costumes, nossas tradições. Mostrar que nós somos indígenas e que isso não se perde só porque estamos no espaço urbano”, disse.

Grupo reivindica área que seria de antigo cemitério indígena em Campo Grande
Grupo Terena em área que diz ser cemitério indígena (Foto: Direto das Ruas)

Havia, segundo ela, um projeto coletivo pensado para o uso do espaço, com atividades ligadas ao plantio. “A gente sempre pensou em trabalhar com lavouras, com plantio. Árvores frutíferas, pensando no futuro, nas crianças que vão usufruir disso. É uma forma de continuar a cultura também”, explicou.

Para Sandra, a ausência de territórios reconhecidos na cidade contribui para a perda da identidade indígena ao longo das gerações. “Muitas pessoas indígenas vieram para a cidade e não conseguiram voltar para a aldeia. Acabam perdendo os costumes, vivendo no meio do povo não indígena. A gente veio com esse intuito de continuar a nossa cultura e mostrar uma diferença”, afirmou.

Questionada sobre a relação histórica do povo Terena com o terreno, ela foi enfática. “Antigamente esse terreno era indígena. Aos poucos foi virando particular. Mas todo mundo sabe que isso tudo era nosso. Isso não foge da história”, declarou.

De acordo com Sandra, a área tem cerca de quatro hectares e poderia abrigar aproximadamente 100 pessoas. A aldeia de origem do grupo fica na região de Aquidauana e reúne cerca de 2 mil moradores.

Reconhecimento territorial vai além de vestígios físicos

O professor de Antropologia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Antônio Hilário, explica que a existência de vestígios materiais, como um possível cemitério indígena, não é o único nem o principal critério para o reconhecimento de um território tradicional.

Segundo ele, o processo é complexo e tem base no artigo 231 da Constituição Federal e no Decreto 1.775, de 1996, do Ministério da Justiça. “O conceito utilizado é o de ocupação tradicional do território, e não apenas o ancestral. Vestígios físicos podem ser considerados, mas o fundamental é a análise de elementos históricos, culturais e sociais que demonstrem a relação do grupo com aquele espaço”, explicou.

De acordo com o antropólogo, a apuração cabe à Fundação Nacional dos Povos Indígenas a partir da demanda apresentada pelas famílias. “A Funai deve constituir um grupo técnico de estudos para verificar se, além de possíveis vestígios físicos, existem elementos históricos e culturais que confirmem a presença tradicional desse povo naquela área”, afirmou.

A Funai informou que tem conhecimento da reivindicação. O coordenador regional da Funai em Campo Grande, Dioni Alcântara Batista, afirmou que o caso está sendo apurado. “Temos ciência da situação naquela localidade e estamos averiguando os fatos. Precisamos de mais tempo para entender melhor. Segundo o grupo, seria um cemitério indígena, e uma equipe técnica deve ir ao local para apuração”, informou.

A Prefeitura de Campo Grande também foi questionada sobre a situação e a reportagem aguarda posicionamento.