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Capital

Guerra por comando do jogo do bicho foi travada com roubos de malote forjados

Investigação da Derf encaminhada ao Gaeco revela que assaltos que desencadearam operação do Gaeco foram "fake"

Por Lucia Morel | 17/12/2023 14:20
Assalto supostamente forjado no bairro Manoel Taveira. (Foto: Reprodução inquérito)
Assalto supostamente forjado no bairro Manoel Taveira. (Foto: Reprodução inquérito)

Dois roubos de malote supostamente forjados ocorridos em menos de meia hora um do outro e no mesmo dia em que o Garras (Delegacia de Repressão a Roubo de Bancos, Assaltos e Sequestros) descobriu casa no bairro Monte Castelo com 700 máquinas de jogo do bicho se entrelaçam com a Operação Successione, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), em 5 de dezembro, e acabaram escancarando esquema pelo comando do negócio ilegal em Campo Grande.

Documentos obtidos pelo Campo Grande News mostram que às 12h35 e às 12h55 do dia 16 de outubro deste ano ocorreram roubos de malote na Vila Margarida e no Jardim Campo Alto, “com distância de cerca de 5 km entre um e outro (10 minutos de deslocamento utilizando veículo)”, cita relatório da Derf (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Roubos e Furtos).

O malote roubado mais cedo continha R$ 5 mil e o segundo, cerca de R$ 2,5 mil. As vítimas que registraram os boletins de ocorrência atuavam com o jogo do bicho e outros jogos de azar, conforme identificaram os policiais. No primeiro roubo foi usado um Hyundai/HB20 Sedan, de cor branca, e no segundo, um Volkswagen Polo. Neste roubo, segundo a vítima, um veículo Fiat Palio “de cor escura” deu cobertura ao assalto.

Reprodução de depoimento de "coletor" do jogo do bicho. (Foto: Reprodução)
Reprodução de depoimento de "coletor" do jogo do bicho. (Foto: Reprodução)

De posse dos dados e número das placas dos veículos, a Derf passou a buscá-los. “Paralelamente, a Derf tomou conhecimento de que policiais do Garras, também no dia 16/10/2023, teriam recebido denúncia de roubo, cuja placa do carro usado pelos supostos criminosos foi anotada e, durante as diligências, apreenderam máquinas de jogos de azar em um imóvel na Rua Gramado, Bairro Monte Castelo, nesta Capital, ocasião em que realizaram a detenção de diversas pessoas”.

Nestes dois roubos, assim como na casa do bairro Monte Castelo, um dos autores foi o policial militar reformado, Manoel José Ribeiro, o “Manelão”, preso preventivamente no dia da Operação Successione, em 5 de dezembro último. Ele, conforme relatado pelas vítimas, pertenceria a grupo rival que comandava a jogatina em Campo Grande e foi identificado por elas no momento dos assaltos. Outro identificado por esses roubos foi Tiano Waldenor de Moraes, também preso na Successione.

Manoel José Ribeiro, o “Manelão”. (Foto: Reprodução inquérito)
Manoel José Ribeiro, o “Manelão”. (Foto: Reprodução inquérito)

Já pelos dados dos veículos, os policiais descobriram que o Polo usado em um dos assaltos era de locadora de veículo e estava locado em nome de “agente político, que possui vínculo hierárquico-funcional com pessoas abordadas na casa da Rua Gramado, de modo que o rastreamento do automóvel coincide com endereços vinculados a eles, com o local das apreensões feitas pelo Garras e com o palco do Roubo registrado” no Jardim Campo Alto.

Mais um assalto - Registrado posteriormente, mas realizado no mesmo dia 16 de outubro, assalto na Rua Terlice Maria, no bairro Manoel Taveira, também chegou ao conhecimento das duas delegacias, Derf e Garras.

O registro foi em 24 de outubro e dava conta de que por volta de 12h50 daquele dia houve roubo de malote sob ordem à vítima para “passar o movimento do dia” da banca de jogo do bicho. Na ocasião foi usado um Renault Symbol, sem placa e dada cobertura por um Palio, provavelmente o mesmo usado no assalto no Campo Alto.

Presos - Durante as diligências referentes aos assaltos e à descoberta das máquinas de jogo do bicho no Monte Castelo, as delegacias de Polícia Civil ouviram vários dos presos na operação do Gaeco. Manoel Ribeiro, o “Manelão”, Mateus Aquino Júnior, Gilberto Luiz dos Santos, o Major “G”,  e Valnir Queiroz Martinelli. Todos estavam na “Casa de Jogo do Bicho” no bairro Monte Castelo e afirmaram que os roubos registrados foram forjados.

Área interna da Casa de Jogos no bairro Monte Castelo. (Foto: Reprodução Inquérito)
Área interna da Casa de Jogos no bairro Monte Castelo. (Foto: Reprodução Inquérito)

Primeiramente, as supostas vítimas que eram motociclistas que faziam as coletas das apostas de jogo do bicho se apresentaram como vítimas e afirmaram que trabalham com isso há anos. Posteriormente, as pessoas encontradas e identificadas no Monte Castelo informaram que todas as supostas vítimas sabiam que seriam “assaltadas” e combinaram previamente o roubo.

Qual a razão? Grupo de jogo do bicho do Rio de Janeiro, MTS, assumiu os “negócios” dessa área que pertenciam à Família Name, mas novo grupo, o BET, daqui do Estado, queria começar a atuar no setor e cooptar quem já trabalhava na área. Assim, supostamente os “cabeças” da BET, apresentado nos depoimentos como sendo Gilberto Luiz, queriam os trabalhadores para si.

Em seu depoimento, Manelão disse que era apenas “cliente” da casa de pôquer do Monte Castelo e foi chamado por outros para “receber um dinheiro ali” e foi. Segundo ele, dois conhecidos dali estavam “descontentes com seus respectivos patrões e queriam apresentar um motivo para saírem do emprego” e para isso, simularam o assalto.

Que segundo boatos que o Interrogando ouviu na casa (Clube de Pôquer), os dois homens que fizeram o combinado com Mateus (Aquino Júnior) teriam retornado ao local para buscar de volta os valores dos malotes, razão pela qual durante a incursão da equipe do Garras, os malotes (bolsa utilizada para armazenar dinheiro) ainda estavam na casa”, contou aos policiais.

Já um motociclista coletor do MTS e que foi uma das vítimas do suposto roubo de malote, também depôs e contou história semelhante e que ainda recebeu proposta de receber R$ 4 mil mensais pelo mesmo serviço, mais 5% sobre as cobranças mensais, mas agora pela BET, podendo chegar a R$ 15 mil. O salário anterior seria de R$ 3 mil.

Para o titular da Derf, Fábio Leite Brandalise, que encaminhou todos os dados da investigação ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, responsável pelo Gaeco e declinou de sua competência para continuar as apurações, os depoimentos corroboram “a suspeita de ajuste entre agentes e vítimas”, até mesmo porque “foi apresentada pela defesa dos investigados uma “ata notarial”, apontando que uma das vítimas (...) teria mantido intenso diálogo com um de seus algozes, antes e depois de ser “roubado”.

Assim, Brandalise ressaltou ao declinar do inquérito que o Gaeco “prendeu grande parte do grupo criminoso e que no dia (13/12/2023) procedeu a nova oitiva dos indivíduos que teriam sido "roubados" pelo "grupo rival", indicativo inequívoco da conexão dos fatos apurados neste procedimento com a investigação em andamento pelo citado órgão do MP”, encerrando o inquérito da Derf sob risco de nulidade de todo processo em 13 de dezembro último.

Máquinas de jogo do bicho apreendidas no Monte Castelo. (Foto: Reprodução)
Máquinas de jogo do bicho apreendidas no Monte Castelo. (Foto: Reprodução)

Habeas corpus - Dos dez presos temporariamente pelo Gaeco na Successione, quatro deles, conforme apurou a reportagem: Diego de Sousa Nunes, Manoel José Ribeiro, ambos ex-assessores do deputado estadual Neno Razuk (PL), Mateus Aquino Júnior e Valnir Queiroz Martinelli, recorreram ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) depois de terem os pedidos de liberdade negados pela Justiça estadual.

Outros presos temporariamente foram o major reformado, Gilberto Luiz dos Santos, também ex-assessor de Razuk; o filho do major, Júlio César Ferreira dos Santos; o estudante de Medicina, Taygor Ivan Moretto Pelissari; Luiz Paulo Bernardes Braga; Tiano Waldenor de Moraes e José Eduardo Abdulahd.

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