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Capital

Hotel Gaspar foi riscado do mapa turístico antes de fechar as portas para sempre

Edifício histórico de Campo Grande "sumiu" do roteiro do City Tour e dos materiais institucionais de divulgação

Por Jones Mário | 15/06/2020 14:03
Hotel foi inaugurado em 1954 e funcionou ininterruptamente até este fim de semana (Foto: Paulo Francis/Arquivo)
Hotel foi inaugurado em 1954 e funcionou ininterruptamente até este fim de semana (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

O Hotel Gaspar aguarda a mudança de seu último inquilino para fechar de vez as portas, após 66 anos de funcionamento ininterrupto. De arquitetura moderna, o edifício que hospedou presidentes e até Che Guevara (segundo reza a lenda) teve história borrada por processo recente de invisibilidade no cenário turístico de Campo Grande.

Prova disso é que o Hotel Gaspar foi riscado do mapa que lista e localiza 46 pontos da Capital que o turista “precisa descobrir”, material de divulgação distribuído há pouco tempo pela Sectur (Secretaria Municipal de Cultura e Turismo).

O roteiro cita o Complexo Ferroviário, o Armazém Cultural e a Feira Central, todos ali, à sombra da imponente fachada do hotel, no encontro das avenidas Mato Grosso e Calógeras. Fora do mapa, e ironicamente, o Gaspar recebeu os folhetos, que ficavam disponíveis aos hóspedes até este último fim de semana.

A prefeitura trouxe uma folhinha dos pontos turísticos. Tá aqui escrito: ‘você precisa descobrir’, ‘itens da cultura’, ‘centros de eventos’, ‘aeroporto’ e ‘terminal’. A gente não está”, descreve o gerente do hotel, César Braga, ao telefone.

Mais recente mapa turístico da Capital não tem Hotel Gaspar como atração (Foto: Reprodução)
Mais recente mapa turístico da Capital não tem Hotel Gaspar como atração (Foto: Reprodução)

Braga lembra que a lenda de que o revolucionário argentino pernoitou no Hotel Gaspar era contada aos turistas durante passeio no City Tour, ônibus que percorre os principais pontos turísticos da Capital.

“No início a gente fazia parte desse roteiro. O hotel era um dos últimos pontos. Daqui seguia para a Morada dos Baís, última parada. Mas já há muito tempo [o ônibus] não passa aqui”, admite.

O último roteiro do City Tour, empregado como parte das atividades da Cidade do Natal em 2019, percorria apenas locais na Avenida Afonso Pena. Segundo a Sectur, o passeio está suspenso, por causa da pandemia de novo coronavírus.

Com estrutura de 84 apartamentos, 130 leitos, cozinha, salas de café e TV, o Hotel Gaspar também não está no Guia de Informações Turísticas oficial do município. O edifício passa batido tanto nas seções “Histórico Cultural” e “Marcos e Monumentos”, quanto na própria lista de hotéis disponíveis na cidade.

Antigo roteiro do City Tour, que incluía o hotel como uma de suas paradas (Foto: Reprodução)
Antigo roteiro do City Tour, que incluía o hotel como uma de suas paradas (Foto: Reprodução)

O titular da Sectur, Max Antônio Freitas, justificou que a lista de hotéis que entram no Guia é entregue pela associação que representa o setor.

César Braga não liga “necessariamente” a invisibilidade gradual do hotel no plano turístico da Capital à decisão pela venda do prédio histórico. Ele reforça que o lado financeiro foi o que mais pesou.

“Temos uma estrutura hidráulica, elétrica e de móveis de 66 anos. A gente não tem condições de investir para continuar tocando como hotel”, garantiu.

Patrimônio - O edifício do Hotel Gaspar não é tombado, mas está inserido em Zeic (Zona Especial de Interesse Cultural) e foi inventariado pelo Plano Diretor de Campo Grande. Assim, segundo Max Antônio Freitas, qualquer modificação no prédio, ou mesmo sua venda, deve passar pelo crivo de uma comissão multidisciplinar, formada por integrantes de Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Gestão Urbana), Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano) e da própria Sectur.

“O prédio não é tombado, mas é tratado como se fosse”, resume o gerente do Gaspar, que não se opõe a um possível tombamento, desde que haja contrapartida aos donos do hotel. Braga assegura que a estrutura poderia comportar “um quartel da Guarda Municipal, órgãos do poder judiciário, ou até algo privado”.

Já o secretário municipal de Cultura e Turismo destaca que o tombamento demandaria um “esforço da sociedade civil ou mesmo público”.

Em nota, a Sectur informou ainda que “o tombamento não é o único mecanismo para proteção dos bens culturais, podendo ser protegidos por outras formas de

acautelamento e preservação”, caso do inventário feito em Campo Grande para o Plano Diretor.

“O patrimônio cultural protegido não pode ser interpretado como um fardo inútil ou um engessamento ao crescimento das cidades. Os bens culturais, quando recuperados, adquirem o potencial de tornarem-se ativos culturais e turísticos relevantes”, segue a nota.

O processo de venda do hotel está nas mãos de corretor de imóveis contratado pelos donos. Enquanto isso, o Gaspar se prepara para se desfazer dos móveis antigos, que, por mais de meio século, garantiram o conforto de viajantes em passagem pela Capital.