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Mãe pede ajuda para trazer corpo de Portugal e atribui morte ao preconceito

Por Ana Paula Carvalho | 02/02/2012 17:37

Campo-grandensse morreu no último domingo após ser espancado na saída de boate em Portugal

Hemerson morreu no domingo, após ser espancado na saída de boate em Lisboa, em Portugal. (Foto: Facebook)
Hemerson morreu no domingo, após ser espancado na saída de boate em Lisboa, em Portugal. (Foto: Facebook)

“Imploro como mãe. O povo brasileiro é generoso. O povo brasileiro tem coração. Só quero que meu filho descanse no país dele”. Este é o apelo de uma mãe desesperada que, por não ter condições financeiras, não sabe se conseguirá realizar o desejo do filho, morto no último domingo em Portugal, de voltar para casa.

Em entrevista por telefone ao Campo Grande News, Antônia Monteiro Pereira, de 45 anos, que mora em Lisboa há 12 anos, contou tudo que aconteceu no domingo, um dos piores dias da vida dela. Ver o filho Hemerson Pereira FortKamp, de 30 anos, irreconhecível de tanto ser espancado na saída da boate portuguesa Kapital, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade.

“Desejo que nenhum ser humano veja um ente querido desfigurado como o Hemerson ficou, ainda mais se for um filho. Quero que as pessoas se lembrem do meu filho como ele era nas fotos e não como ele estava no hospital", afirma.

"Quando cheguei meu impulso foi virar as costas acreditando que não era meu filho. Só depois, quando voltei e olhei bem que reconheci”, diz com a voz embargada pelo choro.

Antônia conta que levou o filho para Portugal há cerca de seis anos, porque ele tinha problemas de saúde. “Mas meu filho nunca gostou daqui. Ele sempre dizia: ‘Mãe, vamos embora. Aqui não é nosso lugar. Esse povo não gosta da gente. Vamos para casa’. Tinhamos feito planos de ir para Campo Grande no fim do ano, mas não deu tempo”, afirma.

Agora, para trazer o corpo do filho para ser sepultado junto dos parentes, ela precisa de mais de 5 mil euros, cerca de 11 mil reais, dinheiro que a esteticista não tem de onde tirar. “O dinheiro aqui dá para o aluguel e para a comida. E esse valor é só para levar até São Paulo. Não sei o que fazer. Meu filho não gostava daqui e se não conseguir o dinheiro ele vai ter que ficar aqui para sempre”.

Com o coração apertado, ela conta que assim que conseguir resolver tudo, vai deixar Porgutal. “Eu não volto mais para cá. Quero virar as costas para este país e nunca mais voltar”.

Ai se eu te pego - De acordo com Antônia, a discussão na fila da casa noturna começou por causa da música do Michel Teló “Ai se eu te pego”. “Meu filho adorava essa música. Ele ouvia o dia todo e parece que ele cantou essa música para uma mulher. ‘O que você está falando aí ô brasileiro?’ foi o que um homem que estava com ela perguntou ao meu filho”, relata.

Ainda segundo ela, o primo de Hemerson, André Pereira Fresneda, de 26 anos, estava com ele na boate e disse ao homem que lá “não havia brasileiro nem português, que todos eram iguais” e o homem disse que eles veriam isso fora de lá. Foi o que aconteceu. Quando os dois saíram, três homens e duas mulheres esperavam do lado de fora.

Os dois chegaram a correr, mas Hemerson caiu. Ele foi brutalmente atacado. Um das mulheres bateu na cabeça dele com uma garrafa de vidro e a outra com uma pedra que estava em uma meia calça. Mesmo após estar desacordado, ele continuou sendo agredido. “Meu filho estava com o rosto todo preto de tanta pancada que levou”, relata.

André, também ficou bastante machucado, mas conseguiu correr e, com a ajuda de outro brasileiro que passava pelo local, conseguiu entrar em um táxi. Quando chegou em casa, ligou para a tia perguntando se o primo tinha chegado em casa. Foi quando ele contou tudo para Antônia e, então, a angústia começou.

Eles só encontraram o homem porque André teve foi procurar atendimento no Hospital São Miguel e, chegando lá, perguntou se Hemerson tinha sido socorrido por eles. A informação foi que sim, mas que o estado de saúde dele era grave.

A agressão começou às 07h22, segundo a Polícia, mas entre o espancamento e a entrada de Hemerson no Hospital se passaram 55 minutos. Às 12h, Antônia conseguiu conversar com a médica. Ela avisou a mãe que o estado de saúde dele era muito grave. O rapaz havia sofrido parada cardíaca, a equipe tentou reanimá-lo, e não havia mais nada que pudesse ser feito.

“Eu pedi para ver meu filho e quando cheguei ao quarto ele estava recebendo transfusão de sangue”, conta. Por volta das 16h a médica avisou que Hemerson tinha tido morte cerebral. “Foi então que o meu mundo caiu. Desabou tudo na minha cabeça”, lembra.

Ontem, o corpo de Hemerson passou por autopsia e foi liberado, mas ela só ficou sabendo hoje de manhã. “Eles pediram para eu ir ligando para saber quando o corpo do meu filho seria liberado porque a autopsia não seria feita no domingo”, diz.

A funerária já foi acionada e o velório deve começar amanhã, se Antônia não conseguir ajuda financeira para o traslado do corpo.

Também nesta manhã, ela procurou o consulado brasileiro em Portugal. “Era minha última esperança para levar meu filho para casa, mas eles disseram que não podem pagar, mas se disponibilizaram a me ajudar juridicamente em tudo que precisar”, conta.

Preconceito - Antônia acredita que o filho tenha sido vítima de preconceito por ser brasileiro. “Aqui eles nos tratam muito mal e quando vão para o nosso país nós os tratamos como reis”, conta.

Ainda de acordo com ela, quando acontece alguma coisa mais grave os portugueses logo perguntam “se foi brasileiro ou preto que fez”. “Eu, mesmo trabalhando, já ouvi várias vezes ‘o que essa puta está fazendo aqui’, ‘porque essa puta não volta para o país dela’. É só eles verem o passaporte verde (brasileiro) que já nos olham diferente”, afirma.

Antônia relata que os brasileiros, naquele país, são vistos como ladrões e prostitutas. Ainda segundo ela, eles trabalham sem contrato e têm dificuldades para receber no dia certo e quando reclamam, os empregadores falam para irem embora se não estão satisfeitos.

“Eles esquecem que somos nós (brasileiros) que trabalhamos aqui e levamos esse país para a frente”, lamenta.

Ajuda - “Tenho fé que vou conseguir ajuda para levar meu filho para casa”, nesse momento a voz falha.

Quem puder ajudar pode fazer isso depositando dinheiro na conta da mãe de Antônia, Luiza Monteiro do Nascimento, do Banco do Brasil:

Agência: 2951-3

Conta:10335-7

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