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Mais ricos até vivem na periferia, mas dentro dos condomínios de luxo

Estudo analisou dados de emprego, educação e saúde, além de indicadores de quanto as pessoas ganham

Por Guilherme Correia | 25/07/2021 15:39
Segundo o estudo, regiões com índice maior (azuis) são as mais ricas da cidade (Foto: Reprodução)
Segundo o estudo, regiões com índice maior (azuis) são as mais ricas da cidade (Foto: Reprodução)

Estudo feito por pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) indica que moradores de bairros da periferia de Campo Grande possuem mais dificuldade para acessar serviços de infraestrutura urbana como educação, saneamento básico, transporte público ou trabalho, além de serem, em geral, mais pobres.

A pesquisa diz que os 10% da população mais rica estão concentrados na área mais central da cidade e em condomínios de luxo afastados, sobretudo por pessoas brancas. "Na área mais central, de alta renda, a população negra alcança no máximo 25% do total da população, quando para o conjunto da cidade, esse número é perto de 47%. Por outro lado, a população mais pobre, negra e indígena, localiza-se em bairros periféricos".

Segundo o trabalho, essas diferenças estão relacionadas com a "própria herança escravocrata do país e na falta de políticas públicas que garantissem terra (urbana ou rural) e trabalho remunerado para a população negra".

O racismo, que é tanto individual, institucional, quanto estrutural, também se manifesta na produção do espaço", dizem os pesquisadores.

Segundo a pesquisa, índices de Exclusão Social são muito menores em regiões mais ricas da cidade. Já os que têm esse índice maior, o que implica numa falta de serviços básicos de infraestrutura urbana, são os bairros periféricos.

Regiões com maior índice de exclusão social (vermelhas) são as com menos acesso a infrasestrutura básica; falta de esgoto é mais presente nas periferias (Foto: Reprodução)
Regiões com maior índice de exclusão social (vermelhas) são as com menos acesso a infrasestrutura básica; falta de esgoto é mais presente nas periferias (Foto: Reprodução)

Emprego - Além disso, nessas mesmas regiões há menos acessibilidade a oportunidades de emprego, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) analisados pelo estudo, que verificou que regiões centrais apresentam melhores condições para que a população chegue até o local de trabalho, enquanto essas condições vão "decaindo à medida que se caminha para a periferia".

Portanto, quem mora mais longe sofre com menor disponibilização de serviços transporte - uma das hipóteses é de que, no centro, por se haver vias muito trafegadas, há maior quantidade de transporte público, por exemplo.

Nesse quesito, o próprio Ipea indica que quando se trata do acesso a oportunidades de emprego, por bicicleta, em 15 minutos, por grupos de renda, Campo Grande se destaca como a mais desigual entre 20 cidades estudadas. Nesse caso, a camada mais rica da cidade tem cerca de 10 vezes mais acesso a emprego, já que moram em regiões mais centrais.

Quanto maior esse índice (amarelo) mais fácil é o acesso ao trabalho (Foto: Reprodução)
Quanto maior esse índice (amarelo) mais fácil é o acesso ao trabalho (Foto: Reprodução)

Desigualdades - Outros fatores como o acesso a educação também apresentam uma pequena desigualdade - segundo o estudo, os 10% mais ricos têm 10% mais acesso à serviços de educação básica, sobretudo a de ensino médio, que chega a ter 2,4 vezes a mais de acesso. Na comparação entre etnias, inclusive, pessoas brancas têm 20% mais acesso à equipamentos de educação do ensino médio.

Na saúde de baixa complexidade a desigualdade não é tão evidente, por conta de políticas públicas do SUS (Sistema Único de Saúde). Já em procedimentos mais específicos, há uma disparidade de mais que o dobro. "Por caminhada, em 30 minutos, há uma desigualdade no acesso a esses serviços, haja vista que os 10% mais ricos têm 2,4 mais acesso a estes serviços".

Quando se considera raça, nesse quesito, há uma desigualdade entre brancos e negros, de modo que os primeiros têm 20% mais acesso do que os últimos. "A população branca e de alta renda têm mais acesso a oportunidade de emprego, saúde e educação, estão concentrados, sobretudo, mais nas áreas centrais, do que a população negra, e pobre.

Confirma-se, com esses dados, que o espaço urbano de Campo Grande é bastante desigual, e essa desigualdade socioespacial é mais severa para pessoas negras e indígenas".

Os pesquisadores ainda ressaltam que essas diferenças são antigas na cidade e já percebidas e sentidas, sobretudo por aqueles que vivem longe do centro, e que a pesquisa evidencia, por meio dos mapas, tais questões.

Por fim,  eles finalizam dizendo que durante o planejamento urbano de uma cidade é importante evitar a ideia de que "o espaço urbano é homogêneo, de que a sociedade e a cidade são harmônicas e justas".

"O estudo colabora também para uma maior compreensão da estrutura urbana de Campo Grande, e desta forma, pode ser muito útil na formulação de políticas públicas que considerem as especificidades do território, tendo em vista que alguns dados indicam onde há maior precariedade urbana, exclusão social, e menores indicadores socioeconômicos.

Vista aérea de uma das periferias da Capital (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Vista aérea de uma das periferias da Capital (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A pesquisa - Parte do estágio obrigatório do curso de Geografia, realizado no Lapa (Laboratório de Planejamento e Gestão do Território) da Faeng (Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia) da UFMS, o levantamento foi feito pelo acadêmico Higor Cirilo, sob supervisão da professora Flávia Akemi Ikuta.

Entre as fontes estão o Ipea, ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento), além do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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