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Capital

Mulher cai em golpe do Tinder, passa 3 meses em cárcere e perde R$ 30 mil

Agressor monitorava com quem a vítima conversava, a afastava de familiares e dizia que tentariam matá-la

Por Dayene Paz | 15/09/2026 12:01
Mulher cai em golpe do Tinder, passa 3 meses em cárcere e perde R$ 30 mil
Vítima foi atendida na Deam, que funciona na Casa da Mulher Brasileira. (Foto: Ilustrativa | Divulgação)

O que começou como um relacionamento amoroso depois de um encontro pelo Tinder terminou em agressões e prejuízo de R$ 30 mil. A vítima, de 39 anos, viveu cerca de três meses isolada da família, sem controle sobre o próprio dinheiro e obrigada a ir à polícia para denunciar crimes que, segundo ela mesma revelou depois, nunca aconteceram. Os fatos foram registrados na sexta-feira (11), em Campo Grande, e o agressor está preso.

RESUMO

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Homem preso em Campo Grande após aplicar golpe de R$ 30 mil e manter mulher isolada por três meses. Heliton Vargas Portela, de 31 anos, usava nome falso no Tinder e controlava as finanças, o celular e os relacionamentos da vítima, de 39 anos. Ele também a obrigava a fazer denúncias falsas à polícia. A fraude foi descoberta na Casa da Mulher Brasileira, onde inconsistências no relato chamaram atenção. Heliton tem antecedentes por roubo e violência doméstica.

O homem que ela conheceu no aplicativo se apresentou como Wellington Vieira da Silva, de 29 anos, mas, conforme a investigação, seu verdadeiro nome é Heliton Vargas Portela, de 31 anos. Ele foi preso em flagrante depois que a mulher procurou a Casa da Mulher Brasileira e a mentira que vinha sendo sustentada por meses começou a desmoronar.

Segundo o relato da mulher à polícia, os dois começaram o relacionamento por volta de maio deste ano, depois de se conhecerem pelo Tinder. No início, Heliton era amoroso e conquistou sua confiança. Pouco tempo depois, porém, o comportamento começou a mudar.

O homem passou a controlar praticamente todos os aspectos da vida dela. Monitorava com quem conversava, afastava a mulher de familiares e amigos e dizia que as pessoas próximas estavam tramando contra sua vida. Segundo a vítima, ele repetia que seus parentes queriam seu mal e que somente ele seria alguém em quem ela poderia confiar.

Para reforçar esse isolamento, Heliton chegou a mostrar à mulher supostas capturas de tela de conversas atribuídas à mãe dela e ao ex-companheiro. Nas mensagens, havia ataques contra a vítima, que seria chamada de “cruz” e “fardo”. A suspeita é de que as imagens possam ter sido manipuladas ou criadas com o uso de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo em que ganhava cada vez mais espaço na vida da mulher, ele também passou a controlar o dinheiro dela. A vítima recebe cerca de R$ 11 mil por mês de pensão alimentícia, pagos pelo ex-marido. Depois do início do relacionamento, no entanto, ela deixou de ter acesso aos próprios recursos.

Heliton se apoderou do celular onde estavam instalados os aplicativos bancários e passou a administrar as contas, realizar movimentações e fazer saques. Segundo a mulher, ele dizia que o ex-marido havia deixado de pagar a pensão, enquanto ela já não tinha livre acesso ao dinheiro. Também alegou que possuía valores elevados retidos pela Receita Federal e prometia que, quando o dinheiro fosse liberado, compraria uma casa de alto padrão para o casal, no condomínio Alphaville, colocando o imóvel no nome dela.

Prejuízo - O controle, porém, não se limitava ao dinheiro. Dentro da própria casa, onde ela mora com os três filhos - um adolescente de 15 anos, uma menina de 8 anos e o filho mais velho, que possui deficiência física e mental - a vítima passou a ter até a convivência restringida. Segundo o relato, Heliton determinava sobre o que ela poderia conversar com as crianças e limitava sua participação nos cuidados do filho com deficiência.

A mulher afirmou que passou a sentir que não tinha mais liberdade nem para conviver normalmente com os filhos dentro de sua própria residência. Ela também relatou que já havia sido agredida fisicamente pelo namorado. Uma das agressões ocorreu no dia 2 de setembro, uma quarta-feira, além de outras ocasiões. A vítima ainda afirmou que era obrigada a manter relações sexuais com ele até quatro vezes por dia.

Com medo e sob intensa pressão, ela passou a obedecer às ordens do companheiro até mesmo quando precisava procurar a polícia. Segundo a mulher, Heliton dizia exatamente o que ela deveria declarar e a levava até as unidades policiais. Durante os atendimentos, permanecia em contato telefônico com ela, utilizando o aparelho no viva-voz para acompanhar o que estava sendo dito aos policiais e verificar aquilo que ela eventualmente deixava de contar.

Foi assim que, na sexta-feira, 11 de setembro, ela voltou à Deam. Desta vez, havia procurado a delegacia para registrar uma ocorrência contra o ex-marido e o próprio irmão. A princípio, afirmou que, por volta das 18h, os dois teriam estacionado uma caminhonete nas proximidades de sua casa e apontado armas de fogo em sua direção. A denúncia envolveria ameaça e, no caso do ex-marido, também possível descumprimento de medidas protetivas existentes em favor dela.

Mas, enquanto a ocorrência era analisada pela polícia para conferência e assinatura, inconsistências começaram a chamar a atenção. A policial reconheceu os nomes citados na denúncia e lembrou que havia atendido as mesmas pessoas cerca de um mês antes. Naquele mesmo dia, também havia conversado com uma servidora do Ministério Público que havia recebido uma denúncia, por meio do Ligue 180, envolvendo a mulher como vítima do atual companheiro.

Havia ainda outra informação que passou a fazer sentido: o namorado da vítima usava um nome falso. Chamada para uma conversa reservada, a mulher começou a revelar uma história completamente diferente daquela que havia acabado de apresentar.

Ela afirmou que a suposta ameaça praticada pelo ex-marido e pelo irmão, não aconteceu. Disse que não viu caminhonete estacionada perto de sua casa, não viu ninguém armado e não presenciou qualquer apontamento de arma contra ela. Só havia ido à delegacia porque Heliton determinou que fosse até lá e exigisse a prisão do ex-marido e do irmão.

A mulher contou que se sentia extremamente pressionada e tinha medo de contrariá-lo, principalmente por já ter sido agredida. Por isso, acabou obedecendo às determinações e sustentando perante a polícia uma versão que sabia não corresponder à realidade.

Ela ainda revelou que, enquanto prestava depoimento, estava especialmente preocupada porque Heliton estaria aguardando nas proximidades da Casa da Mulher Brasileira. A filha de 8 anos da vítima também estava com ele, dentro do veículo. Com medo de que o homem percebesse que ela estava contando à polícia o que realmente vinha acontecendo, a situação de vulnerabilidade levou os policiais a iniciarem diligências.

Heliton foi localizado aproximadamente duas quadras da delegacia. A menina de 8 anos estava dentro do veículo e foi entregue à mãe. Durante a abordagem, os policiais também encontraram R$ 2.885 em dinheiro com o homem. Segundo a vítima, o valor pertencia a ela e estava sob o controle dele, assim como os recursos movimentados de suas contas bancárias.

A mulher também afirmou que Heliton costumava apagar as conversas entre os dois, principalmente quando ela procurava unidades policiais, o que explicaria por que algumas mensagens não permaneciam disponíveis no celular.

Segundo esclareceu à autoridade policial, nenhuma das denúncias feitas por ela contra a família correspondia aos fatos que realmente haviam acontecido. A prisão preventiva de Heliton foi decretada após audiência realizada no domingo, 13 de setembro.

Histórico de crimes - Heliton tem antecedentes criminais. Em abril de 2022, em Maracaju, ele foi denunciado por roubo após, segundo os autos de um inquérito policial, usar uma faca para ameaçar um homem e obrigá-lo a fazer um empréstimo bancário de R$ 25 mil. O dinheiro foi transferido em seguida para uma conta de titularidade do acusado.

Antes disso, em novembro de 2021, também em Maracaju, Heliton foi preso após ser acusado de agredir a então companheira. De acordo com o registro policial, a mulher contou que havia informado a ele que queria se separar quando o homem se enfureceu.

Ela foi arrastada pelo pescoço até um quarto, derrubada no chão e atingida com um chute na costela. As agressões só teriam parado quando uma criança de 9 anos, filha de uma vizinha, se aproximou da residência depois de ouvir os gritos.

Na ocasião, a vítima também relatou aos policiais que Heliton tinha comportamento violento e controlador, e que ela já havia sofrido violência doméstica outras vezes. Ao saber que a mulher tinha ido até a delegacia, Heliton chegou a subir em uma torre de transmissão e afirmou que tiraria a própria vida. Depois de conversar com os policiais, ele desceu e recebeu voz de prisão em flagrante.

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