Diretor desistiu de comprar carrão após Conselho Fiscal mirar patrimônio
Áudio do gerente administrativo Alessandro Dias Junqueira indica medo de investigação
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Áudio obtido na investigação sobre suspeitas de fraudes na Santa Casa de Campo Grande mostra que o então gerente administrativo Alessandro Dias Junqueira, preso na Operação Antidotum, decidiu adiar a compra de uma picape Ram Rampage diante da fiscalização sobre a evolução patrimonial de integrantes da direção do hospital, veículo que pode custar até R$ 270 mil.
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A conversa foi encaminhada por Alessandro em 14 de fevereiro de 2026 e aparece entre os dados de celulares analisados pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Segundo o relatório, ele relata que a movimentação patrimonial dos diretores estava sendo observada pelo Conselho Fiscal e poderia provocar novos questionamentos.
No áudio, Alessandro comenta a repercussão provocada dentro da Santa Casa por um veículo atribuído ao então diretor administrativo e financeiro Rinaldo Hakme Romano, também preso na operação. Em seguida, afirma que não poderia comprar a Rampage nem trocar de carro naquele momento e menciona ainda comentários sobre a aquisição de um apartamento.
“Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora. E ainda tem mais, tem a conversa do apartamento.”
O trecho consta da transcrição feita pelos investigadores. Alessandro também afirma que a discussão sobre o veículo estava “acaloradíssima dentro do hospital”.
Para o MPMS, a importância da conversa não está na intenção de comprar o veículo em si, mas na razão apresentada para adiar a aquisição. Os investigadores interpretam o diálogo como indicação de que Alessandro acompanhava os questionamentos sobre o patrimônio dos dirigentes, sabia da fiscalização existente e teria ajustado a própria conduta diante desse escrutínio.
A conversa aparece no relatório em meio à individualização da participação atribuída a Alessandro no núcleo administrativo investigado. Ele é apontado pelo MPMS como um dos responsáveis pela contratação e fiscalização do serviço de digitalização prestado pela Redvalue à Santa Casa.
Segundo a investigação, Alessandro participou da contratação, atuou como fiscal do contrato e teria atestado serviços sem comprovação suficiente. Ele e Rinaldo também aparecem ligados à tentativa de alteração das condições do contrato. O aditivo reduziria de três milhões para um milhão a quantidade mensal de páginas a serem digitalizadas, mas preservaria a remuneração máxima mensal da Redvalue.
Os áudios são usados pelo MPMS para sustentar que integrantes da administração tinham conhecimento dos questionamentos que já cercavam a gestão. Em outra conversa também encaminhada por Alessandro em fevereiro de 2026, ele menciona nominalmente integrantes da direção e afirma, conforme a transcrição do relatório, que “está todo mundo sabendo de tudo”.
Alessandro está entre as seis pessoas presas preventivamente na Operação Antidotum. Além dele, foram presos a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima; Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa; Rinaldo Hakme Romano; a supervisora Monique Gregório de Oliveira; e o empresário Maurício Aparecido Benites.
A investigação apura suspeitas relacionadas a contratos e movimentações financeiras da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde. As interpretações sobre os áudios são apresentadas pelo MPMS no relatório da investigação e ainda estão sujeitas ao contraditório e à análise da Justiça.
Casa em dinheiro vivo - A investigação também passou a analisar a evolução patrimonial de integrantes ligados à administração da Santa Casa. Segundo relatório do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), a então presidente da instituição, Alir Terra Lima, comprou em 24 de janeiro de 2025 um imóvel residencial na Rua João Pessoa, em Campo Grande, por R$ 400 mil. O documento registra que o valor foi “pago no ato, em espécie da moeda corrente nacional”.
O relatório também cita aquisições feitas por Paulo da Cruz Duarte, apontado como sócio e parceiro profissional de Alir. Em junho de 2023, ele e a esposa compraram um apartamento no Edifício Pernambuco por R$ 350 mil. Em março de 2025, adquiriram outro imóvel, no Edifício Tom Jobim, por R$ 670 mil, com pagamento parcelado.
Para o Gecoc, essas aquisições ocorreram paralelamente à criação de empresas, assinatura de contratos e transferência de valores milionários pela Santa Casa Saúde. O relatório, porém, não afirma que os imóveis tenham sido comprados com dinheiro desviado da instituição. As operações foram incluídas na apuração sobre a origem e a movimentação dos recursos no período.




