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Campo Grande, Sábado, 16 de Dezembro de 2017

19/07/2015 08:55

No maior hospital de MS, trabalho de voluntários ajuda a curar pacientes

Flávia Lima
Equipe da Esperança durante serenata na Santa Casa. (Foto:Divulgação) Equipe da Esperança durante serenata na Santa Casa. (Foto:Divulgação)

Para muitas pessoas, eles passam despercebidos pelos corredores da Santa Casa da Capital, o maior hospital do Estado, que recebe, além do interior, pacientes de países vizinhos e até de cidades que fazem divisa com São Paulo. No entanto, para quem está internado, o grupo faz toda a diferença no processo de recuperação.

Formada por cerca de 60 voluntários, a Equipe da Esperança faz jus ao nome e, mais do que assistência social, leva aos pacientes e familiares acompanhantes, o ânimo para combater a enfermidade e superar a tristeza.

A presidente do grupo, missionária Claudia Costa, 43, conta que a característica de auxiliar o paciente de forma global é recente e começou a ser aplicado no início dos anos 2000. No passado, especialmente na época da fundação do grupo, há 23 anos, o objetivo da fundadora, Maria Aparecida Moraes D’Ávila, era apenas buscar doações e organizar eventos, ao lado de um grupo de senhoras, para ajudar os pacientes carentes.

Ao longo das décadas, o projeto de atender tanto o lado espiritual quanto o financeiro dos internos, foi tomando corpo e se concretizou com as equipes dos últimos dez anos. Atualmente, segundo Cláudia, a Equipe da Esperança conta com cinco projetos, desenvolvidos em todo o hospital, praticamente em todos os dias da semana.

Voltado para as crianças internadas, existe o Criança Morena, onde os voluntários levam brincadeiras e leitura de histórias. Dentro deste projeto, um dos personagens que mais fazem sucesso é o da palhaça Florida, interpretada pela própria Cláudia.

Com maquiagem e roupas coloridas, ela passa nos leitos contando historias que buscam passar valores, segundo ela, esquecidos. “Não falo só de temas bíblicos. Nas historias procuro falar de solidariedade ao próximo e amor”, diz. Uma vez por mês os voluntários também proporcionam a exibição de filmes para os pequenos, que também beneficia as crianças que ficam na creche dos servidores do hospital.

Para Cláudia, o trabalho desenvolvido com as crianças tem um significado especial, já que muitas não compreendem a necessidade da internação e, mesmo na companhia de um familiar, ficam deprimidas. “É difícil para elas ficarem longe dos irmãozinhos, do seu quarto e dos brinquedos. É pior quando ela passa meses no hospital”, conta.
Por isso, o momento em que o grupo chega no setor, é motivo de festa. “Uma vez teve uma garotinha com problema renal que ficava me esperando toda semana para ouvir as historias e se eu atrasasse um minuto, já ficava ansiosa”, lembra.

O mesmo tipo de afeto é levado aos adultos através do programa “Palavra Amiga”, onde os voluntários se revezam todos os dia da semana para atender todos os leitos. O principal benefício da ação, conforme conta a presidente do grupo, é dar a oportunidade do paciente desabafar e falar sobre seus problemas. “Nem sempre eles falam da doença, preferem contar seus dramas familiares”, relata. Mesmo os que tem acompanhantes optam por conversar com os voluntários.

Segundo Cláudia, o fato de serem pessoas estranhas da família, facilita a conversa, pois o paciente não teme um julgamento. Para os que seguem alguma religião, o grupo faz orações, mas basicamente o trabalho é dar atenção e ouvir. Durante esse momento de bate-papo, os voluntários aproveitam para identificar os pacientes com carências financeiras e providenciam roupas, objetos pessoais e até cestas básicas para garantir a alimentação da família nas primeiras semanas após a alta médica.

Mas a assistência aos adultos vai além das conversas. Duas vezes ao mês a Equipe da Esperança realiza serenatas nos setores, através de uma parceria com o a igreja Batista. Munidos de violão, o grupo percorre os quartos animando os pacientes com músicas de todos os tipos. “Acaba virando uma festa porque os pacientes interagem e também pedem canções”, diz Cláudia.

Já no programa “Celebrando a Vida”, quem recebe atenção do grupo são as mães de bebês internados na UTI neonatal. O programa acontece toda quarta-feira com voluntárias que ensinam técnicas de bordado às mães. Como muitas são do interior do Estado e nem sempre tem recursos para ficar na Capital, os trabalhos manuais acabam ajudando na renda. Para elas, o grupo também providencia kits de enxoval.

Para os internos da setor de psiquiatria, há o projeto “Rosa da Esperança” onde a equipe leva toda quinta-feira, jogos e brincadeiras que promovem a interação, já que é comum, em casos de depressão, o paciente buscar o isolamento. “Eles adoram bingos. Também levamos orientações sobre saúde e dicas de exercícios”, relata Cláudia.

Para manter todos esses projetos, a Equipe da Esperança conta com doações espontâneas e uma contribuição mensal dos voluntários, que varia de acordo com a realidade financeira de cada um. Também são organizadas as feiras da pechincha, onde os voluntários arrecadam roupas que são vendidas para os próprios funcionários do hospital, bazar do artesanato e rifas, que contribuem com o suporte financeiro.

É com esses recursos que o grupo consegue adquirir colchões, muletas e cadeiras de roda para os pacientes carentes que recebem alta.

 

Voluntários fazem atividade conjunta com a Liga do Bem, que também faz visita à crianças internadas em hospitais. (Foto:Divulgação) Voluntários fazem atividade conjunta com a Liga do Bem, que também faz visita à crianças internadas em hospitais. (Foto:Divulgação)
Cláudia Costa (centro) e voluntárias da Equipe da Esperança participam do projeto 'Criança Morena. (Foto:Divulgação)Cláudia Costa (centro) e voluntárias da Equipe da Esperança participam do projeto 'Criança Morena". (Foto:Divulgação)

Saber ouvir – Atuando no grupo há quatro anos, Cláudia Costa diz que ser voluntário requer duas qualidades que, na sua opinião, não são muito praticadas hoje em dia: ouvir e não julgar. É fundamental, especialmente para quem passa pelos leitos levando uma palavra de conforto, ter paciência e saber ouvir as queixas e dramas individuais. “A cura também vem do ato de desabafar”, diz.

Quem se encaixa nesse perfil, só tem a ganhar, de acordo com Cláudia. Ela conta que muitos voluntários dizem que quando estão em casa ficam doentes ou sentem solidão e acabam voltando ao hospital mais de uma vez na semana. “A gente busca levar conforto aos pacientes, mas somos nós que acabamos beneficiados”, ressalta.

Como a participação de voluntários e muito flutuante, a presidente do grupo destaca que sempre estão abertas vagas. No próximo dia 17 de agosto, por exemplo, haverá uma capacitação para novos integrantes. Mesmo com uma faixa etária que varia de 18 a 88 anos, a maior parte do grupo é formada por pessoas da terceira idade, que às vezes por algum problema de saúde ou familiar, precisa se afastar das atividades por um tempo.

Por isso, o grupo está sempre angariando novos participantes, que não precisam ter uma qualificação profissional, apenas a vontade ajudar ao próximo. Foi assim com a própria Cláudia. Formada em Administração, ela chegou a trabalhar na área por 12 anos, porém, a vocação de trabalhar com crianças e de levar uma palavra amiga às pessoas carentes de afeto, falou mais alto. O exemplo dos pais, que participam do grupo há sete anos, também contribuiu com a mudança de vida.

Hoje, ela divide o trabalho na Equipe da Esperança, com o desenvolvido na igreja Holiness, da qual é missionária. “Nunca é tarde para despertar o sentimento de querer fazer algo a mais na vida e ajudar o próximo “, afirma.

E para quem opta em doar um dia da semana para o serviço voluntário, recebe gratificações que, para Cláudia, são imensuráveis. Um dos momentos que já vivenciou e não esquece, foi quando acompanhou, por seis meses, um garotinho de oito anos, que acabou morrendo vítima de câncer. Pode parecer deprimente, mas ela garante que estar perto de alguém em momentos críticos, contribui para o fortalecimento individual. “Foi muito bom sentir que eu fiz a diferença naquele período da vida dele e pude arrancar alguns sorrisos, mesmo que por pouco tempo”, enfatiza.

Em outro momento, mas com final feliz, ela se recorda de uma menina que passou por tratamento de quase um ano na Santa Casa devido a um problema renal. As duas se tornaram amigas, mas quando a paciente recebeu alta definitiva, elas passaram cinco meses sem se encontrar, até que, por acaso, voltaram a se ver durante uma consulta da menina. “Ela veio correndo e me abraçou. Prova de que as pessoas não esquecem nossas ações”, diz.

As histórias da Equipe da Esperança são muitas, mas os voluntários pretendem ampliá-las. Para isso, mantém uma página no Facebook, onde retratam a rotina dos trabalhos e as atividades desenvolvidas. Quem quiser participar ou apenas ajudar com doações, pode entrar em contato no perfil https://www.facebook.com/EquipedaEsperancaVoluntariadodaSantaCasa?fref=ts ou pelo telefone (67) 3322-4134.

O hospital também conta com a Associação Amigos da Santa Casa, que também contribui com a arrecadação de doações, além de, no caso de alguns participantes, dedicar um período da semana para realizar trabalhos no hospital.

Foi o caso do empresário Milton Ferreira dos Santos, mostrado esta semana no Campo Grande News, que vem realizando a reforma do ambulatório e de quartos da unidade hospitalar, com recursos próprios e ajuda da família.

O secretário da Associação, Heitor Freire, revela que está sendo criado um sistema de Call Center para facilitar as doações. Por enquanto, os interessados em ajudar a entidade pode ligar no telefone (67) 3322 4000 e obter informações.

Independente da forma de ajudar, os voluntários ressaltam que vivenciar o problema dos pacientes, ajuda a dimensionar os problemas pessoais. “Percebemos que às vezes damos muita importância a questões pequenas. Quando olhamos para o outro, aprendemos a olhar para nós mesmo”, conclui Cláudia.

Eventos em datas específicas também são organizados com a ajuda da equipe. (Foto:Divulgação)Eventos em datas específicas também são organizados com a ajuda da equipe. (Foto:Divulgação)


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