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Capital

O flagelo da droga e a nova vítima: aos 12, ela furta para comprar pasta-base

Por Paula Maciulevicius | 07/02/2012 20:50

Ano passado a família encontrou maconha no meio das roupas dela. A garota negou, de pé junto. Ali era o início de um vício ainda pior

A cena é desesperadora e a história também. Aos 35 anos, esta mãe vê a filha de 12 na dependência da pasta-base e furtando a própria casa e vizinhança para sustentar a prática. (Foto: Marlon Ganassin)
A cena é desesperadora e a história também. Aos 35 anos, esta mãe vê a filha de 12 na dependência da pasta-base e furtando a própria casa e vizinhança para sustentar a prática. (Foto: Marlon Ganassin)

Na cama, deitada, num sono pesado e encolhida no travesseiro. De longe, uma criança magra, pequena, que não aparenta a idade que tem. A menina-mulher deixou a boneca e o aprendizado da idade de lado. O que entrou em cena na vida dela foi a dependência de drogas e, para o sustento, o crime.

A menina tem 12 anos, em dois dias completa 13. No quarto ainda há bichinhos de pelúcia e em uma das paredes o nome dela e das outras duas irmãs, mostrando a união que um dia tiveram.

A história dela veio à tona depois de uma tentativa de furto na mercearia a poucas quadras de casa, na manhã desta terça-feira, no bairro Dom Antônio Barbosa. O dinheiro do caixa só não foi parar na boca-de-fumo porque o dono ouviu o barulho ainda na madrugada e quando abriu às portas, viu no balcão uma sacola com cerca de R$ 170 e mais R$ 100 jogados ao chão. "Ela se escondeu debaixo da prateleira", relata.

O lamentável é que essa não foi a primeira vez e pode não ser a última. Os furtos começaram pelo cofre que a irmã mais velha fez para o filho bebê, de seis meses. Em seguida foram dois celulares da mesma irmã e daí por diante de notebook e roupas à dinheiro da vizinhança.

De um lado vizinhos revoltados, muitos deles vítimas dos furtos da menina. Do outro, uma mãe desesperada, que implora por ajuda para livrar a filha dependente da pasta-base aos 12 anos.

"Eu tenho medo de matarem a minha filha. Tem hora que eu não quero sair de casa. Se pudesse passava 24h do lado dela. Eu não aguento, eu só ouço que vão matar minha filha", desabafa a mãe de 35 anos.

O drama dela e das outras filhas de 17 e 21 anos começou em janeiro, na virada do ano. Segundo o relato da família, a menina tinha um comportamento sem alterações até o meio de 2011. Depois que a irmã mais velha parou de levá-la à escola, porque tinha de trabalhar, ela simplesmente largou os estudos ainda no 4º ano.

Ano passado a mãe e as irmãs encontraram maconha no meio das roupas dela. A garota negou, de pé junto. Ali era o início de um vício ainda pior.

O vício à base da troca - Num terreno além da casa da mãe, a irmã mais velha também mora ali. As casas são simples, construídas com muito esforço. De lá tudo o que podia virar droga já foi para a boca-de-fumo. "As coisas que eu acho que ela não levou é o que ela não aguenta carregar. Fogão, geladeira, porque as coisas miúdas... Celular mesmo não existe em casa. Só me resta esse, mas eu não aguento mais", detalha a mãe.

A tarde, enquanto a família relatava o que vive diariamente, a filha dormia. Era um momento de paz para aquelas três mulheres. "Agora eu fico tranquila. Ela dorme assim até amanhã. Mas depois começa tudo de novo".

A mãe levanta às 4h da manhã para o batente. Trabalha como faqueira num frigorífico. Corpo no trabalho, cabeça em casa. "Eu fico preocupada com o que pode ter acontecido, com o que vai acontecer. Não tenho ânimo para trabalhar, é tempo para ser mandada embora", diz.

O dinheiro suado está indo junto com a força da família. Nesta quarta-feira, a mãe tem que pagar R$ 150 do carregador de um notebook que a filha furtou. Na boca-de-fumo a Polícia conseguiu recuperar o aparelho, mas não os cabos de carregá-lo. Na delegacia quem firmou o compromisso de por em dia aquilo que a filha deve é a mãe. "É tirar da boca para poder pagar". A frase soa em duplo sentido, em uma trama onde o palco é o ponto de venda de droga, a palavra "boca" a que dona Maria se refere é o prato de todo dia.

"Eu vou ter que morar na rua, vender minha própria casa. Só ela que me dá esse trabalho, eu fico me perguntando por que, por que".

Há uma semana, elas pensaram que o drama ia ter fim. Quem levou a menina até as drogas e trocava os objetos furtados por ela, foi presa. Um jovem de 21 anos, pego pela Polícia por conta do envolvimento no furto do celular da irmã da garota saiu em um camburão ameaçando. "Ele disse que vai matar todo mundo. Que não vai perdoar nem o meu bebê", fala a irmã.

Nesta terça-feira a família dormiria tranquila, a menina está em casa. Sob os cuidados da mãe e das irmãs. Mas o problema delas continua. "Por ela eu encaro a boca-de-fumo. Eu vou atrás e eles dizem que ela não está lá, escondem. Meu medo é levar tiro. A gente sai à procura dela, mas não sabe se volta com ela", despeja a irmã.

"Tratamento ou o fim é o caixão. Pela idade dela, a Polícia não tem o que fazer. Eu já pensei em por uma jaula, em acorrentar. Se eu não achar ajuda, vou ter que fazer isso. Porque eu já busquei em tudo quanto foi lugar. E se vierem, que me prendam então. Eu prefiro mil vezes ver a minha filha presa do que ela morta".

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