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Capital

“Ouvi ele chamar meu filho”: pai de jovem achado em fossa cobra justiça em júri

Leonardo Gomes Lescano desapareceu após sair de casa, em 2020; acusado nega participação no assassinato

Por Bruna Marques | 08/05/2026 11:33
“Ouvi ele chamar meu filho”: pai de jovem achado em fossa cobra justiça em júri
Fossa onde corpo da vítima foi encontrado em junho de 2020 (Foto: Reprodução processo)

Sentado na plateia do Tribunal do Júri, o vigilante Marcial Benigno Lescano, de 56 anos, acompanhou em silêncio o depoimento do homem acusado de envolvimento na morte do próprio filho. Leonardo Gomes Lescano tinha 23 anos quando desapareceu, na madrugada de 12 de junho de 2020, após sair de casa na garupa de uma moto, no Bairro Nova Lima, em Campo Grande. Quatro dias depois, o jovem foi encontrado morto dentro de uma fossa, em uma casa na Rua Martin Afonso de Souza.

RESUMO

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Iago Romão de Almeida, o "Neguinho", é julgado pelo Tribunal do Júri de Campo Grande pelo assassinato de Leonardo Gomes Lescano, 23 anos, morto em junho de 2020 e encontrado em uma fossa. O réu nega envolvimento e culpa Maxsuel Bruno da Silva, já condenado a 16 anos e nove meses pelo crime. O pai da vítima, que acompanhou o julgamento, afirma ter visto o filho sair com Iago naquela madrugada e pede condenação.

“Eu ouvi claramente a voz dele no portão chamando meu filho para sair naquela madrugada. Ele levou meu filho de moto. Para mim, ele ajudou não só a esconder o corpo, mas também a matar”, afirmou o pai da vítima durante entrevista concedida ao Campo Grande News, nesta sexta-feira (8), enquanto acompanhava o julgamento ao lado de um sobrinho.

O réu, Iago Romão de Almeida, conhecido como “Neguinho”, é julgado pela 2ª Vara do Tribunal do Júri. A sessão é presidida pelo juiz de Direito Aluízio Pereira dos Santos. Na acusação atua o promotor de Justiça Francisco de Salles Bezerra Farias Neto e a defesa é feita pelo advogado Nilson da Silva Geraldo.

Durante interrogatório, Iago negou participação no assassinato e tentou jogar a responsabilidade sobre Maxsuel Bruno da Silva, já condenado pelo crime em abril do ano passado.

Segundo o réu, ele apenas foi até a residência depois de receber uma ligação de Maxsuel e afirmou que não entrou no imóvel. “Não quis me envolver. A única coisa que ele me falou é que foi luta corporal”, disse.

“Ouvi ele chamar meu filho”: pai de jovem achado em fossa cobra justiça em júri
Pai da vítima acompanhou o julgamento e pediu Justiça pela morte do filho (Foto: Bruna Marques)

Iago contou que, ao chegar à casa que estava sob seus cuidados, enquanto a proprietária não estava, apenas fechou o portão e deixou a chave escondida. “Fechei a casa, deixei a chave por baixo do portão e vazei. Avisei ela onde eu tinha deixado a chave, não falei do crime”, afirmou.

Questionado pelo juiz sobre o motivo de não ter acionado a polícia, respondeu que estava foragido da Justiça. “Fiquei assustado na hora. Já tinha B.O. com a Justiça, outro nas costas, Deus me livre. Eu não liguei para a polícia porque já estava escondido”.

Mesmo dizendo que Leonardo era amigo de infância, Iago afirmou que não teve curiosidade de entrar na residência para verificar o que havia acontecido. “Não vi corpo em lugar nenhum. Quando cheguei, o Maxsuel já tinha sumido”, declarou.

Ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, o réu também alegou que sofreu pressão durante o depoimento na delegacia. “Eles fazem a gente assinar o que eles querem na base do pau, da opressão”.

O promotor questionou ainda a contradição entre a versão do réu e o depoimento do pai da vítima, que garante ter visto Leonardo sair de casa após ser chamado por Iago. “Não me recordo disso, eu não fui na casa dele não”, respondeu o acusado.

Iago também negou ter ajudado a ocultar o cadáver. “Não sei porque o Maxsuel falou isso. Deve estar querendo parceiro para puxar cadeia com ele”.

“Ouvi ele chamar meu filho”: pai de jovem achado em fossa cobra justiça em júri
Réu Iago Romão de Almeida, conhecido como “Neguinho”, durante julgamento no Tribunal do Júri em Campo Grande (Foto: Bruna Marques)

Já o pai da vítima sustenta outra versão. Marcial afirmou que conhecia Iago desde a infância dos rapazes e que os dois cresceram juntos jogando futebol na escolinha do bairro.

“A amizade deles começou ainda crianças. Mas eu já alertava meu filho para se afastar dessa turma. Falava: ‘Você não sabe o que esses caras podem aprontar’”, disse.

Segundo ele, meses antes do crime chegou a pagar uma dívida de R$ 150 que Leonardo teria com Iago para evitar conflitos. “Falei para ele esquecer meu filho, parar de procurar ele e deixar ele em paz porque estava trabalhando”.

O vigilante relembrou com detalhes a última vez que viu o filho vivo. Contou que naquela noite voltou do culto e encontrou Leonardo sentado na frente de casa mexendo no celular. Horas depois, ouviu Iago chamando no portão.

“Meu filho entrou no quarto e falou que ia no aniversário de uma amiga e que não voltaria naquele dia. Logo depois o Iago gritou: ‘Xarope, vamos embora, já está tarde’. Ele se despediu da gente e saiu”.

Leonardo nunca mais voltou para casa.

Nos dias seguintes, a família tentou contato sem sucesso. “O celular tocava e caía na caixa postal. Isso aconteceu na quinta, sexta e sábado”, contou o pai.

No domingo, Marcial disse ter sentido durante um culto religioso que receberia uma notícia sobre o filho. Horas depois, recebeu a ligação da esposa avisando que o corpo havia sido encontrado.

“Quando entrei na igreja, meu celular tocou. Era minha esposa dizendo: ‘Vem embora para casa. Chegou a notícia e não é boa’”.

Abalado, Marcial afirmou que espera que a Justiça condene os responsáveis pela morte do filho. Disse confiar no julgamento e afirmou que acredita que Leonardo foi vítima de uma emboscada.

“Eu acredito na Justiça. Confio primeiro em Deus e também nos homens que estão ali para julgar”, declarou o vigilante, ao afirmar que não acredita na versão apresentada por Iago durante o interrogatório.

“Ouvi ele chamar meu filho”: pai de jovem achado em fossa cobra justiça em júri
Julgamento de Iago Romão de Almeida acontece na 2ª Vara do Tribunal do Júri (Foto: Bruna Marques)

Condenação e denúncia - No dia 11 de abril do ano passado, Maxsuel Bruno da Silva foi condenado a 16 anos e nove meses de prisão por homicídio qualificado e ocultação de cadáver. A pena deve ser cumprida em regime fechado. Ele também foi condenado a indenizar a família da vítima em R$ 10 mil.

De acordo com a denúncia do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), Maxsuel convidou Leonardo para beber cerveja na noite do crime para conversar sobre uma dívida de R$ 100. Durante o encontro, atacou a vítima com um pedaço de madeira. Leonardo morreu no local.

Ainda conforme o Ministério Público, Iago estava junto e ajudou a jogar o corpo na fossa no quintal da residência.

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