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“Pagou com a vida, mas não basta”: clima em velório é de revolta com feminicídio

Durante despedida de Vera, filho contou que autor será enterrado sem cerimônia

Por Anahi Zurutuza e Maurício Aguiar | 17/09/2026 18:12
“Pagou com a vida, mas não basta”: clima em velório é de revolta com feminicídio
Familiares e amigos se despedem de mulher morta pelo irmão (Foto: Maurício Aguiar)

O velório da comerciante Vera Lúcia Rossate da Cunha, de 59 anos, começou sob clima de revolta na noite desta quinta-feira (17), em Campo Grande. Para a família, a morte de Judicrei Rossate da Cunha, de 57 anos, logo após assassinar a irmã, não foi suficiente para encerrar a sensação de impunidade deixada pelo feminicídio.

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O velório da comerciante Vera Lúcia Rossate da Cunha, de 59 anos, morta pelo irmão Judicrei, de 57, ocorreu em Campo Grande sob clima de revolta. O filho da vítima, Franklin, declarou que a morte do agressor não apaga a sensação de impunidade. Vera havia ajudado o irmão a se internar para tratamento contra dependência química, mas ele passou a ameaçá-la após receber alta. O caso é investigado como feminicídio seguido de suicídio.

“Ele pagou com a vida dele, mas, para nós, não é suficiente. Como filho, ele é um assassino. Não tem outra palavra para dizer”, afirmou Franklin Rossatte, filho da vítima, durante a despedida.

Judicrei não será velado. Segundo Franklin, o corpo seguirá diretamente para o sepultamento, mas a data não foi informada. O filho de Vera disse não saber quando ocorrerá e que também não deseja saber, tamanha a sua revolta com a tragédia.

Vera deixou dois filhos e um neto. Judicrei deixou duas filhas. Eles integravam uma família de cinco irmãos, conhecida, conforme Franklin, por manter uma convivência próxima e realizar encontros frequentes. “É chocante. É uma sensação de revolta, porque o que ela queria fazer era ajudar. Esse era o sentimento dela o tempo todo, tentar ajudar ele. Agora, estamos sem palavras”, declarou.

Vera havia ajudado a providenciar a internação do irmão para tratamento contra a dependência química. Após receber alta, Judicrei passou a ameaçá-la e a responsabilizá-la pela internação.

O filho relatou que a família soube de algumas ameaças, mas nunca imaginou que elas seriam cumpridas. Ele também reconheceu que os parentes poderiam ter buscado uma medida protetiva. “A gente poderia ter feito. Erramos em não ter feito, mas nunca imaginamos que isso realmente poderia acontecer. Sempre fomos uma família muito unida, de nos reunirmos em aniversários e outras datas”, contou.

Franklin afirmou que o tio não tinha histórico de agressões contra outros integrantes da família, embora tivesse uma vida conturbada, marcada pelo consumo de drogas e por altos e baixos.

“Pagou com a vida, mas não basta”: clima em velório é de revolta com feminicídio
Vera Lúcia Rossate da Cunha tinha 59 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Despedida no bairro – Moradora do Zé Pereira havia mais de duas décadas, Vera trabalhou com a venda de cosméticos das marcas Avon e Natura, além de costura e confecção. Depois, abriu uma loja de aviamentos na Rua Sagarana, onde foi assassinada. “Ela era muito querida. A gente vê isso nos comentários das pessoas na internet. Agradecemos muito aos vizinhos e ao bairro, que foi muito acolhedor com a gente”, disse Franklin.

Amiga e vizinha de Vera há mais de 20 anos, Valmira Cardoso contou que não conseguiu dormir após o crime. Para ela, a morte ainda parece difícil de aceitar. “Era uma pessoa muito boa, que estava sempre ajudando todo mundo. Não é justa essa morte”, lamentou.

Valmira afirmou que Vera era reservada e não costumava falar sobre os problemas envolvendo o irmão. As conversas entre as duas tratavam principalmente dos filhos e da rotina familiar.

Uma das lembranças mais dolorosas é a voz da comerciante chamando o neto quando chegava em casa. “Agora eu não vou ouvir mais. É muito triste. Ela vai fazer muita falta”, disse.

O sepultamento de Vera está marcado para as 9h desta sexta-feira (18), no Cemitério Nacional Parque. Ela foi morta na tarde de quarta-feira (16), dentro da própria loja. Segundo a investigação, Judicrei chegou ao local atirando e, após matar a irmã, tirou a própria vida.

O caso é investigado pela Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) como feminicídio seguido de suicídio.