“Ele morreu trabalhando”: filhas cobram justiça um ano após morte de gari
Cipriano Pereira Quinhone, de 60 anos, foi atropelado pelo caminhão da própria empresa onde atuava

Um ano depois da morte de Cipriano Pereira Quinhone, de 60 anos, atropelado pelo caminhão da própria empresa onde trabalhava, a família ainda convive com perguntas sem respostas. Nesta quarta-feira (17), data que marca um ano da morte do trabalhador, as filhas se reuniram para relembrar a história do pai e cobrar justiça pelo acidente ocorrido na Avenida Duque de Caxias, em Campo Grande. Para elas, enquanto a família tenta aprender a viver sem a principal referência, a vida do motorista envolvido no atropelamento continuou normalmente.
RESUMO
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Um ano após a morte de Cipriano Pereira Quinhone, 60 anos, atropelado pelo caminhão da empresa onde trabalhava em Campo Grande, a família cobra justiça. O motorista envolvido permanece empregado e o acordo criminal prevê indenização de R$ 3 mil em dez parcelas. A perícia concluiu que o atropelamento ocorreu durante manobra de ré em condições de segurança inadequadas. As filhas criticam a punição considerada desproporcional à perda.
Cipriano trabalhava como gari na Solurb havia anos e estava em serviço quando foi atingido pelo caminhão durante uma manobra de marcha à ré. O laudo da Perícia Oficial aponta que o veículo iniciou a ré durante a coleta de material de varrição e conclui que o atropelamento ocorreu durante a manobra, em condições de segurança consideradas inadequadas.
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A família afirma que ainda busca entender por que o caminhão foi colocado em marcha à ré e questiona os procedimentos de segurança adotados pela empresa. Segundo uma das filhas, o motorista foi ouvido apenas uma vez, no dia do acidente, e posteriormente o inquérito foi concluído com base na perícia e nas demais provas reunidas.
“Eu tenho inúmeras perguntas sem resposta. O porquê aconteceu isso. Por que ele estava na Duque de Caxias, coletando no meio do canteiro? Por que ele parou o caminhão e deu ré?”, questiona Gabriella Araújo Quinhone, de 31 anos.
Último dia de trabalho
Na manhã de 17 de setembro de 2025, Cipriano estava com a equipe de varrição da Solurb quando foi atropelado. Conforme o boletim registrado pela Polícia Militar na época, o trabalhador foi encontrado caído na pista, sem sinais vitais e com exposição de massa encefálica.
O motorista do caminhão, Paulo Lima dos Santos, afirmou naquele momento que não havia percebido o atropelamento. Segundo ele, pela posição em que estava, não teria conseguido visualizar o que havia acontecido.
A perícia, porém, analisou os vestígios encontrados no local e a dinâmica do veículo. No laudo, o perito descreveu que o caminhão trafegava pela Avenida Duque de Caxias durante a coleta de material de varrição quando iniciou uma manobra de marcha à ré e atingiu um dos colaboradores.
Na conclusão, a perícia aponta que o atropelamento foi causado pela manobra de ré do caminhão “quando as condições de segurança não eram favoráveis”. O acidente provocou lesões que levaram Cipriano à morte.
Família cobra respostas
Para Edilaine Neri de Araújo, de 45 anos, filha de Cipriano, a família esperava uma resposta mais dura após a morte do trabalhador. Ela critica o fato de o motorista ter permanecido no quadro de funcionários da empresa e afirma que a indenização estabelecida no acordo com o Ministério Público não representa, para a família, uma punição proporcional à perda.
“Uma punição de uma indenização de R$ 3 mil não é nenhum dinheiro. O que a gente esperava mesmo da Justiça é que ele fosse, de alguma forma, perder a CNH, que saísse do serviço, alguma coisa”, afirmou.
Segundo Gabriella, o acordo firmado na esfera criminal prevê o pagamento de R$ 3 mil, dividido em dez parcelas de R$ 300. Ela afirma ainda que a ação trabalhista movida pela família está sem movimentação.
As filhas também dizem que a empresa não manteve contato com a família da forma que esperavam após a morte. Para elas, a cobrança não se resume à responsabilização pelo acidente, mas também à adoção de medidas para impedir que outro trabalhador passe pela mesma situação.
“Ele morreu trabalhando, estava terminando o turno dele. Isso não é justo, porque a vida do motorista continuou. Ele volta para a família dele, volta para casa dele, e nós? E o Cipriano?”, desabafou Edilaine.
Um ano sem o pai
Além da busca por respostas sobre o acidente, a data traz para a família a lembrança de quem Cipriano era fora do uniforme de trabalho. As filhas contam que ele era conhecido pela preocupação com os colegas e pelo cuidado com a família.
Gabriella lembra que o pai costumava pedir que ela e a irmã ajudassem os colegas de trabalho quando a equipe estava em regiões próximas. Se alguém precisava de dinheiro ou de alguma coisa para comer durante o expediente, Cipriano dava um jeito de ajudar. “Meu pai era uma pessoa muito, muito boa. Era muito preocupado e muito amigo dos colegas de trabalho”, contou.
Cipriano também era conhecido pelo gosto por bicicleta. Segundo a família, ele nunca teve interesse em comprar carro ou moto e passou a vida pedalando. Por isso, a notícia de que havia sido atropelado causou ainda mais incredulidade entre as filhas.
“Para os outros não vai ter diferença, mas para nós faz muita diferença. Ele era a última referência de família. Minha mãe se foi e ficou ele. Ele era nossa referência para tudo”, disse Edilaine.
Em nota, a Solurb afirmou lamentar o acidente ocorrido. "Esclarecemos que a empresa cumpriu integralmente com todas as suas obrigações legais no âmbito trabalhista, tendo realizado o pagamento rigoroso de todas as verbas rescisórias devidas aos dependentes, além da liberação da indenização referente ao seguro de vida contratado em favor do trabalhador", diz o texto.
A empresa descreve que a família optou por buscar a reparação por meio das vias judiciais. "Respeitando a decisão da família e resguardando o direito à ampla defesa e ao devido processo legal, a Solurb aguarda os trâmites regulares na Justiça [...] A Solurb reforça que sempre manteve e aplica rigorosos procedimentos operacionais focados na segurança e na prevenção de riscos para todos os seus motoristas, coletores e varredores, incluindo treinamentos periódicos e diretrizes específicas para manobras operacionais", finalizou a nota.
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