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Capital

“Ele morreu trabalhando”: filhas cobram justiça um ano após morte de gari

Cipriano Pereira Quinhone, de 60 anos, foi atropelado pelo caminhão da própria empresa onde atuava

Por Clara Farias e Bruna Melo | 17/09/2026 17:48
“Ele morreu trabalhando”: filhas cobram justiça um ano após morte de gari
Filha, Gabriella Araújo Quinhone, segurando cartaz com foto junto do pai, e demais familiares, na tarde desta quinta-feira (Foto: Bruna Melo)

Um ano depois da morte de Cipriano Pereira Quinhone, de 60 anos, atropelado pelo caminhão da própria empresa onde trabalhava, a família ainda convive com perguntas sem respostas. Nesta quarta-feira (17), data que marca um ano da morte do trabalhador, as filhas se reuniram para relembrar a história do pai e cobrar justiça pelo acidente ocorrido na Avenida Duque de Caxias, em Campo Grande. Para elas, enquanto a família tenta aprender a viver sem a principal referência, a vida do motorista envolvido no atropelamento continuou normalmente.

RESUMO

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Um ano após a morte de Cipriano Pereira Quinhone, 60 anos, atropelado pelo caminhão da empresa onde trabalhava em Campo Grande, a família cobra justiça. O motorista envolvido permanece empregado e o acordo criminal prevê indenização de R$ 3 mil em dez parcelas. A perícia concluiu que o atropelamento ocorreu durante manobra de ré em condições de segurança inadequadas. As filhas criticam a punição considerada desproporcional à perda.

Cipriano trabalhava como gari na Solurb havia anos e estava em serviço quando foi atingido pelo caminhão durante uma manobra de marcha à ré. O laudo da Perícia Oficial aponta que o veículo iniciou a ré durante a coleta de material de varrição e conclui que o atropelamento ocorreu durante a manobra, em condições de segurança consideradas inadequadas.

A família afirma que ainda busca entender por que o caminhão foi colocado em marcha à ré e questiona os procedimentos de segurança adotados pela empresa. Segundo uma das filhas, o motorista foi ouvido apenas uma vez, no dia do acidente, e posteriormente o inquérito foi concluído com base na perícia e nas demais provas reunidas.

“Eu tenho inúmeras perguntas sem resposta. O porquê aconteceu isso. Por que ele estava na Duque de Caxias, coletando no meio do canteiro? Por que ele parou o caminhão e deu ré?”, questiona Gabriella Araújo Quinhone, de 31 anos.

“Ele morreu trabalhando”: filhas cobram justiça um ano após morte de gari

Último dia de trabalho 

Na manhã de 17 de setembro de 2025, Cipriano estava com a equipe de varrição da Solurb quando foi atropelado. Conforme o boletim registrado pela Polícia Militar na época, o trabalhador foi encontrado caído na pista, sem sinais vitais e com exposição de massa encefálica.

O motorista do caminhão, Paulo Lima dos Santos, afirmou naquele momento que não havia percebido o atropelamento. Segundo ele, pela posição em que estava, não teria conseguido visualizar o que havia acontecido.

A perícia, porém, analisou os vestígios encontrados no local e a dinâmica do veículo. No laudo, o perito descreveu que o caminhão trafegava pela Avenida Duque de Caxias durante a coleta de material de varrição quando iniciou uma manobra de marcha à ré e atingiu um dos colaboradores.

Na conclusão, a perícia aponta que o atropelamento foi causado pela manobra de ré do caminhão “quando as condições de segurança não eram favoráveis”. O acidente provocou lesões que levaram Cipriano à morte.

Família cobra respostas 

Para Edilaine Neri de Araújo, de 45 anos, filha de Cipriano, a família esperava uma resposta mais dura após a morte do trabalhador. Ela critica o fato de o motorista ter permanecido no quadro de funcionários da empresa e afirma que a indenização estabelecida no acordo com o Ministério Público não representa, para a família, uma punição proporcional à perda.

“Uma punição de uma indenização de R$ 3 mil não é nenhum dinheiro. O que a gente esperava mesmo da Justiça é que ele fosse, de alguma forma, perder a CNH, que saísse do serviço, alguma coisa”, afirmou.

Segundo Gabriella, o acordo firmado na esfera criminal prevê o pagamento de R$ 3 mil, dividido em dez parcelas de R$ 300. Ela afirma ainda que a ação trabalhista movida pela família está sem movimentação.

As filhas também dizem que a empresa não manteve contato com a família da forma que esperavam após a morte. Para elas, a cobrança não se resume à responsabilização pelo acidente, mas também à adoção de medidas para impedir que outro trabalhador passe pela mesma situação.

“Ele morreu trabalhando, estava terminando o turno dele. Isso não é justo, porque a vida do motorista continuou. Ele volta para a família dele, volta para casa dele, e nós? E o Cipriano?”, desabafou Edilaine.

“Ele morreu trabalhando”: filhas cobram justiça um ano após morte de gari
Corpo de Cipriano Pereira Quinhones, após atropelamento (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

Um ano sem o pai  

Além da busca por respostas sobre o acidente, a data traz para a família a lembrança de quem Cipriano era fora do uniforme de trabalho. As filhas contam que ele era conhecido pela preocupação com os colegas e pelo cuidado com a família.

Gabriella lembra que o pai costumava pedir que ela e a irmã ajudassem os colegas de trabalho quando a equipe estava em regiões próximas. Se alguém precisava de dinheiro ou de alguma coisa para comer durante o expediente, Cipriano dava um jeito de ajudar. “Meu pai era uma pessoa muito, muito boa. Era muito preocupado e muito amigo dos colegas de trabalho”, contou.

Cipriano também era conhecido pelo gosto por bicicleta. Segundo a família, ele nunca teve interesse em comprar carro ou moto e passou a vida pedalando. Por isso, a notícia de que havia sido atropelado causou ainda mais incredulidade entre as filhas.

“Para os outros não vai ter diferença, mas para nós faz muita diferença. Ele era a última referência de família. Minha mãe se foi e ficou ele. Ele era nossa referência para tudo”, disse Edilaine.

Em nota, a Solurb afirmou lamentar o acidente ocorrido. "Esclarecemos que a empresa cumpriu integralmente com todas as suas obrigações legais no âmbito trabalhista, tendo realizado o pagamento rigoroso de todas as verbas rescisórias devidas aos dependentes, além da liberação da indenização referente ao seguro de vida contratado em favor do trabalhador", diz o texto.

A empresa descreve que a família optou por buscar a reparação por meio das vias judiciais. "Respeitando a decisão da família e resguardando o direito à ampla defesa e ao devido processo legal, a Solurb aguarda os trâmites regulares na Justiça [...] A Solurb reforça que sempre manteve e aplica rigorosos procedimentos operacionais focados na segurança e na prevenção de riscos para todos os seus motoristas, coletores e varredores, incluindo treinamentos periódicos e diretrizes específicas para manobras operacionais", finalizou a nota.

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