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Cidades

“Melhor amiga” virtual entregou segredos de Lívia para grupo que a levou à morte

Adolescente de 14 anos conquistou confiança da vítima e repassou informações para chantagens, aponta polícia

Por Anahi Zurutuza | 16/09/2026 16:45
“Melhor amiga” virtual entregou segredos de Lívia para grupo que a levou à morte
Computador e outros equipamentos eletrônicos apreendidos durante a operação (Foto: PCMS/Divulgação)

Uma adolescente de 14 anos se apresentou como “melhor amiga” virtual de Lívia, a garota de 13 anos de Naviraí que tirou a própria vida no dia 22 de julho, para conquistar a confiança dela, ouvir suas confidências e entregá-las ao grupo investigado por induzir a menina à morte. Segundo a Polícia Civil, os “segredos” foram usados para chantagear a vítima e aumentar o controle exercido sobre ela pela internet.

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Uma adolescente de 14 anos se infiltrou como "melhor amiga" virtual de Lívia, de 13 anos, de Naviraí, para obter confidências e repassá-las a um grupo investigado por induzir a menina ao suicídio, em julho. As informações foram usadas para chantagear a vítima. A jovem está entre os seis apreendidos na segunda fase da Operação Lívia, deflagrada nesta terça-feira (15), em cinco estados e no Distrito Federal.

As duas não se conheciam pessoalmente. O contato teria começado em redes sociais abertas, como TikTok e Instagram. Depois de criar uma relação de confiança com Lívia, a investigada teria convencido a menina a entrar em grupos fechados no Discord.

As informações foram apuradas pelo jornal O Globo, que ouviu a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) de Mato Grosso do Sul, depois da deflagração da segunda fase da Operação Lívia nesta terça-feira (15). A adolescente apontada como aliciadora está entre os seis jovens apreendidos ontem.

“Essa menina manipulava para que Lívia viesse a praticar atos que fossem eventos dentro daquele grupo. Na live em que a Lívia morreu, é uma das que apresentam maior agressividade contra ela”, afirmou a delegada ao jornal.

A investigada também mantinha relacionamento virtual com outro adolescente apontado como uma das lideranças do grupo. Ele foi apreendido em Macaé (RJ). Conforme a investigação, os integrantes dividiam tarefas: enquanto alguns se aproximavam das vítimas, outros organizavam transmissões, davam ordens e ampliavam as ameaças.

A Polícia Civil sustenta que todos os adolescentes apreendidos até agora tiveram participação efetiva nos acontecimentos que resultaram na morte de Lívia. Como todos têm menos de 18 anos, eles responderão por atos infracionais análogos aos crimes de homicídio e organização criminosa.

Na primeira etapa da operação, um adolescente de 14 anos, morador de Aquidauana, foi apreendido. Conforme já mostrou o Campo Grande News, o garoto sul-mato-grossense foi apontado como líder de uma das “panelas”, nome usado pelos investigados para definir os grupos virtuais.

A primeira fase da força-tarefa aconteceu em 4 de agosto, com cinco adolescentes apreendidos e um jovem de 18 anos preso em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro. Celulares, computadores e outras mídias recolhidas naquela ocasião foram analisados e levaram à identificação dos seis novos alvos.

Na segunda fase, foram cumpridas medidas contra adolescentes localizados em São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e no Distrito Federal. Os investigadores tentam individualizar a função exercida por cada um, além de localizar outras possíveis vítimas.

“Melhor amiga” virtual entregou segredos de Lívia para grupo que a levou à morte
Viaturas da Polícia Civil durante o cumprimento das medidas da 2ª fase da Operação Lívia (Foto: PCMS/Divulgação)

Escravidão on-line – A investigação chama de “escravidão digital” o método dos alvos: aproximação, manipulação psicológica, chantagens e submissão impostas às vítimas. Os integrantes buscavam crianças e adolescentes nas redes sociais, criavam vínculos e obtinham informações sobre família, escola e rotina.

Depois, as vítimas eram levadas para ambientes virtuais fechados e pressionadas a cumprir ordens. Informações pessoais poderiam ser expostas ou usadas em ameaças contra familiares caso houvesse resistência.

Reportagem anterior do Campo Grande News mostrou que os criminosos utilizavam perfis falsos, com fotografias, idades e até gêneros diferentes dos verdadeiros. A estratégia era parecer alguém próximo da faixa etária da vítima, conquistar sua confiança e transferir a conversa para espaços controlados pelo grupo.

Nessas comunidades, as ações violentas eram tratadas como “eventos”. Quanto mais grave fosse a violência promovida por uma “panela”, maior seria o chamado “hype”, expressão usada pelos integrantes para medir o prestígio dentro da rede.

No caso de Lívia, a polícia afirma que o período de pressão mais intensa durou aproximadamente duas horas. Durante esse intervalo, os participantes teriam planejado e determinado as ações exigidas da menina. Parte dos integrantes acompanhou a transmissão em tempo real.

A apuração também identificou outras vítimas. Uma adolescente de 17 anos teria sido instigada a se ferir durante a mesma transmissão, enquanto uma criança de 7 anos também pode ter sido alvo do grupo. A Polícia Civil estima que o número de vítimas submetidas à violência e manipulação possa chegar a 10, mas ainda não apresentou um balanço fechado.

A morte de Lívia ampliou a pressão sobre o Discord. A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou, em agosto, a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeo na plataforma no Brasil. A empresa recorreu, mas a medida foi mantida.

Em posicionamento divulgado anteriormente, o Discord afirmou que desativou o servidor usado pelo grupo antes da morte da adolescente e alegou que as atividades investigadas ocorreram em outras plataformas. A empresa declarou manter equipes destinadas a desarticular grupos, remover conteúdos contrários às regras e adotar medidas contra usuários envolvidos em práticas criminosas.