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Capital

“Qual é o pai que não tem vontade de cavar com as próprias mãos”, desabafa

Por Paula Maciulevicius e Viviane Oliveira | 29/12/2011 11:55

“Quando eu recebi a informação, imaginava que não seria fácil, mas chegar aqui assusta. Não tem como não pensar que ali tem uma criança. Foi a primeira vez que fiz um trabalho assim”, diz capitão dos bombeiros

A expressão do pai é de sofrimento contido e dor de querer salvar o filho com as próprias mãos e meio ao lixo. (Foto: João Garrigó)
A expressão do pai é de sofrimento contido e dor de querer salvar o filho com as próprias mãos e meio ao lixo. (Foto: João Garrigó)

“Qual é o pai que não tem vontade de cavar com as próprias mãos”. A frase é de Reginaldo Pereira de Andrade, 33 anos, que deixou de ontem para hoje de ser apenas um pedreiro, para exercer mais do que nunca o papel de pai. E um pai desesperado em busca do filho soterrado desde a tarde de ontem no lixão, na saída para Sidrolândia, em Campo Grande.

As buscas pelo garoto não pararam. Os bombeiros trocaram o turno e os militares que assumiram às 7h da manhã têm pela frente, em um dos últimos plantões do ano, a triste missão de procurar em meio a toneladas de lixo, um garoto de 9 anos.

O cenário por si só já é degradante, mas o incidente o torna ainda mais. Os pais do garoto estão desolados. A mãe, Lucilene Correa, 31 anos, tem nas mãos uma foto do filho quando tinha 8 anos. Sentada em uma pedra, ela está agarrada ao retrato como está à esperança de achar o filho vivo.

Os olhos fundos e vermelhos demonstram o cansaço de tanto chorar e da noite passada em claro, iluminada pelo maquinário. Tanto ela como o pai foram madrugada adentro no limite de onde podiam chegar, ao lado dos bombeiros.

Ao som de três retroescavadeiras, passos de oito operadores de máquinas e quatro bombeiros, as buscas não têm hora. São como a esperança, não vão terminar.

“Se o menino tiver nessa parte que estão falando que estão procurando... É possível que não tenha mais vida, porque é diferente de estar nos escombros, onde formam bolsas de ar. O lixo já é compacto e quente, o que pode provocar sufocamento”, fala o capitão Luiz Moreira.

O militar está na corporação há 13 anos. Sem farda é apenas pai de duas filhas. Por mais que procure não misturar trabalho e vida pessoal, em um dos últimos plantões do ano o que ele menos esperava era se assustar com um resgate desta dimensão.

A imagem tenta mostra a dimensão das toneladas de lixo. Viaturas dos bombeiros estão postas para auxiliar nas buscas e prestar o socorro necessário. (Foto: João Garrigó)
A imagem tenta mostra a dimensão das toneladas de lixo. Viaturas dos bombeiros estão postas para auxiliar nas buscas e prestar o socorro necessário. (Foto: João Garrigó)

“Quando eu recebi a informação, imaginava que não seria fácil, mas chegar aqui assusta. Não tem como não pensar que ali tem uma criança. Foi a primeira vez que fiz um trabalho assim”, desabafa.

Os trabalhos seguem sem previsão de término. Até o início da manhã de hoje haviam sido escavados 700 metros quadrados, em uma estimativa de 7m de profundidade. Além de ambulância dos bombeiros, o Samu também está no local.

História - O desmoronamento de parte do lixão soterrou o menino na tarde desta quarta-feira. Maikon, de 9 anos, estava junto com outras crianças num lugar chamado de barranco, uma espécie de buraco na montanha de lixo.

A busca começou por volta das 16h30, após trabalhadores verem a criança ser atingida por uma montanha de resíduos. No local estiveram três ambulâncias do Corpo de Bombeiros e uma do Samu (Serviço Móvel de Atendimento de Urgência). Catadores de lixo que atuam no local viram quando as crianças estavam no barranco e um caminhão chegou para despejar entulho.

O lixo foi empurrado para o barranco por uma máquina, como é praxe e, nesse momento, conforme contaram os trabalhadores, houve o desmoronamento em direção às crianças. A maioria conseguiu escapar, menos duas, entre eles o garoto que está sendo procurado.

Segundo o relato feito pelos trabalhadores às equipes de socorro, o garoto que escapou conseguiu sair da montanha de lixo e fugiu. A presença de crianças no local é proibida, embora as denúncias sejam frequentes.

Onze trabalhadores estavam no barranco, considerado um lugar perigoso do lixão, e por isso poucas pessoas se arriscam a trabalhar lá. Segundo os catadores, o local está sem seguranças que impeçam a entrada de crianças, que é proibida.

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