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Economia

Escalada de conflito deve afetar negócios de Mato Grosso do Sul no Oriente Médio

Alta do petróleo, valorização do dólar e incertezas no Estreito de Ormuz podem impactar exportações de grãos

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 03/03/2026 16:55
Escalada de conflito deve afetar negócios de Mato Grosso do Sul no Oriente Médio
Plantação de milho em Mato Grosso do Sul (Foto: Mairinco de Pauda/Arquivo)

A economia de Mato Grosso do Sul deve sentir os efeitos da escalada dos conflitos no Oriente Médio caso os ataques se prolonguem, já que o Estado está inserido em uma cadeia produtiva que depende de fertilizantes nitrogenados e mantém relação comercial com o Irã nas exportações de milho. A análise é do economista Daniel Massen Frainer, professor da Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e doutor pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

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A escalada do conflito no Oriente Médio pode impactar diretamente a economia de Mato Grosso do Sul, especialmente nas relações comerciais com o Irã, maior comprador de milho do estado, responsável por 41% das exportações em 2025. A análise é do economista Daniel Massen Frainer, professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.Os principais efeitos esperados incluem a valorização do dólar, que afeta a compra de insumos, e possíveis alterações no preço das commodities devido à restrição do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo transportado mundialmente por via marítima. O estado também pode enfrentar dificuldades no acesso a fertilizantes nitrogenados importados da região.

Em 2025, o Irã foi o maior comprador de milho de Mato Grosso do Sul, respondendo por 41% do total exportado pelo estado. “Os conflitos podem impactar exatamente nessas parcerias. Por outro lado, há o risco de aumento do preço das commodities no mercado internacional em decorrência da alta do petróleo diante da restrição de tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima no mundo.”

O tráfego no Estreito de Ormuz foi fortemente impactado na última sexta-feira, 28 de fevereiro, após a intensificação dos ataques militares de Estados Unidos e Israel contra território iraniano. Em meio às ameaças de bloqueio e ao risco de confrontos na região, companhias marítimas reduziram ou suspenderam operações, provocando uma queda expressiva no fluxo de embarcações no canal.

“Esse cenário deve ainda fazer com que o dólar acabe se valorizando mais, o que sempre ocorre quando há uma situação de risco. Há uma tendência de valorização da moeda norte-americana em momentos de instabilidade internacional, e isso impacta diretamente a compra de insumos”, avalia Frainer.

Escalada de conflito deve afetar negócios de Mato Grosso do Sul no Oriente Médio
Economista Daniel Frainer, professor da UEMS e doutor pela UFRGS (Foto: Divulgação)

Nesta terça-feira, 3 de março, o dólar comercial segue em alta frente ao real em meio às incertezas no cenário global: na primeira etapa do dia o dólar à vista era cotado em cerca de R$ 5,24 na venda, com alta de cerca de 1,5% no dia. O contrato futuro mais negociado na B3 avançava para cerca de R$ 5,29.

O preço do petróleo subiu mais de 7 %, com o Brent chegando a cerca de US$ 83,75 por barril, o que representa o maior nível em cerca de 19 meses, em meio à intensificação dos conflitos e temores sobre atrasos no transporte pelo Estreito de Ormuz.

O economista avalia, contudo, que ainda é cedo para uma análise mais profunda dos impactos dos conflitos internacionais na economia local. “Ainda é muito prematuro. Esses são os primeiros efeitos que a gente deve sentir, principalmente no curto prazo. Mas, se esse conflito se estender por mais tempo, outros efeitos virão. Tudo vai depender da adesão dos países e de quais nações serão envolvidas.”

Escalada de conflito deve afetar negócios de Mato Grosso do Sul no Oriente Médio

Fluxo de comércio

O comércio bilateral entre Brasil e Irã é fortemente concentrado no agronegócio, especialmente cereais e oleaginosas, além de fertilizantes vindos do país persa.

Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 2,9 bilhões para o Irã, principalmente milho e soja, responsáveis por 67,9% e 19,3%, respectivamente, dos embarques. Já as importações brasileiras somaram aproximadamente US$ 84 milhões, com destaque para fertilizantes, principalmente ureia, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Produtores de Mato Grosso do Sul contribuem para a exportação de grãos brasileiros vendidos ao Irã, já que o estado está entre os maiores exportadores nacionais de milho e soja.

Em 2025, o Irã foi o maior comprador de milho de Mato Grosso do Sul, respondendo por 41% do total exportado pelo estado, segundo dados da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul) divulgados em janeiro.

No total, foram embarcadas para o exterior 1,8 milhão de toneladas, totalizando US$ 369 milhões no período. Além do Irã, as compras foram lideradas pelo Japão (18%), Egito (15%), Arábia Saudita (11%), Vietnã (8%) e Iraque (3%).

No caso da soja, as exportações totais somaram 5,7 milhões de toneladas, com receita aproximada de US$ 2,3 bilhões para o estado.

Os números evidenciam a exposição indireta do estado a eventuais turbulências geopolíticas na região, especialmente se houver prolongamento do conflito e impactos mais amplos sobre preços, câmbio e logística internacional.